A crise nas relações entre o Brasil e a Bolívia a propósito do gás, permitiu que viessem à tona duas posturas fundamentais com referência às relações internacionais.
Representam dois paradigmas de política externa: um voltado para o passado, regendo-se pela relação amigo-inimigo e pelo confronto e outro orientado para o futuro, guiando-se pela relação do aliado e da convivência. Essas posturas apareceram nítidas dos debates internos e estão presentes na política mundial dentro do processo de globalização.Antes de mais nada, precisamos nos conscientizar da singularidade do momento histórico que estamos vivendo. Mudou nossa percepção de fundo: descobrimo-nos como espécie humana, reunida num espaço limitado que é o planeta Terra. Somos todos interdependentes. O destino comum foi globalizado: ou cuidamos da humanidade e do planeta Terra como um todo ou não teremos mais futuro algum.
Os riscos reais podem significar uma chance única para a sociedade mundial, chance de re-invenção de um novo paradigma de civilização, assentado sobre a hospitalidade geral, sobre a convivência, o respeito, a tolerância, a responsabilidade universal e a comensalidade. Aprendemos muito do passado mas não nos é mais permitido repeti-lo. Entretanto, há uma classe de políticos que, face aos problemas globais ou regionais, apostam em soluções do passado, que usam a força e o confronto. O pressuposto teórico, formulado por Carl Schmitt)+1985) e repetido por Samuel P. Huntington em O choque de civilizações, diz:"a essência da existência política de um povo reside em sua capacidade de definir quem é amigo e quem é inimigo".
Definido o inimigo, entra a funcionar a política no big stick e a satanização do outro. Isso ocorreu no Brasil com referência à Bolívia por causa da nacionalização do gás feita pelo Presidente Evo Morales. A classe política conservadora e míope não vislumbrou uma política de médio e de longo alcance, adequada à nova fase da história, de blocos regionais e da constituição da globalização da política que exige diálogo, negociação e conciliação de interesses em vista da convivência pacífica.
Outro grupo de políticos bem representados pelo Presidente Lula e pelo Ministério das Relações Exteriores se move dentro de um paradigma de futuro e de longo alcance, exigido pela nova situação da humanidade. Ao inimigo e ao confronto contrapõe-se o aliado e a convivência. Reconhecem-se as diferenças mas se buscam pontos em comum, capazes de criar o bloco latino-americano, com força para dialogar em pé de igualdade com outros blocos e com outros interesses.
Somente esta atitude sábia responde à pergunta: Como construir um futuro comum? Como habitar poética e prosaicamente o mesmo mundo? Qual a base comum que nos permitirá o entendimento recíproco e a construção de convergências na diversidade, regionais e globais? Estamos convencidos de que surgirá uma Terra multicultural, colorida por todo tipo de valores étnicos, éticos e espirituais com uma economia multidimensional e uma política do bem geral. O propósito maior é um novo modelo de coexistência, formando uma civilização planetária interconectada.
Théologien de la libération et ancien prêtre brésilien, Leonardo Boff fut condamné par l’Église catholique pour ses prises de position. En 1985, il fut condamné à un an de « silence obséquieux ».

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Fonte : “Política externa e novo paradigma”, porLeonardo Boff, Rede Voltaire, 5 de Junho de 2006, www.voltairenet.org/a139670
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