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Reflexões sobre o anúncio oficial da morte de Osama Bin Laden

O anúncio oficial da morte de Osama Bin Laden deu lugar a toda sorte de polémica. A atenção gira em torno de detalhes da narrativa que serviram para esconder certas decisões estratégicas de Washington. Para Thierry Meyssan, este anúncio tornou-se indispensável a partir do momento em que os homens de Bin Laden foram incorporados nas operações da NATO na Líbia e da CIA na Síria. Apenas com o desaparecimento do antigo líder virtual se poderia restituir a imagem de «combatentes da liberdade» que a Al-Qaeda detinha na época soviética.

| Beirute (Líbano)
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Para anunciar a morte oficial de Osama Bin Laden, «Time Magazine» voltou a utilizar a mesma capa de revista que no anúncio da morte de Adolf Hitler : Uma cara cruzada de vermelho (edição de 7 Maio 1945). O mesmo conceito fora já utilizado para a morte de Saddam Hussein (edição de 21 Abril 2003) e de Abou Moussab al-Zarkaoui (edição de 9 Junho 2006). Na narração do mito, Barack Obama anunciou a morte do inimigo público no dia 1 de Maio, assim como seu predecessor tinha anunciado a morte de Adolf Hitler num dia 1 de Maio.

O presidente Barack Obama, anunciou solenemente a morte de Osama Bin Laden a dia 1 de Maio 2011.

Antes de analisar o significado deste anúncio, convém retornar á realidade dos factos.

Preâmbulo

Em 2001, Osama Bin Laden estava gravemente doente. Tinha uma doença nos rins e estava sob diálise. Devia obter cuidados médicos hospitalares a cada dois dias. No verão de 2001 deu entrada no hospital americano do Dubai (nos Emirados) [1]. No início de Setembro 2001 foi transferido para o hospital militar de Rawalpindi (Paquistão) [2]. Alguns dias após os atentados, concedeu uma entrevista num local secreto a um jornalista da Al-Jazeera. Em Dezembro 2001, a sua família anunciou a sua morte e os seus amigos assistiram ao funeral [3].
No entanto, o departamento da Defesa dos EUA considerou esta notícia como enganosa visando a que se permitisse a sua fuga da justiça norte-americana. O facto é que, no período de 2001 a 2011, nenhuma testemunha digna de confiança se encontrou com Osama Bin Laden [4].
Nesse espaço de tempo, cassetes de vídeo e áudio foram difundidas, pelo departamento da Defesa, pela média (principalmente Al-Jazeera) e por sociedades privadas de inteligência (IntelCenter, SITE Intelligence Group). O maior parte dessas gravações foram autentificadas pela CIA através de métodos não especificados [5]. Todavia, a totalidade destas gravações foram invalidadas pela comunidade de especialistas em inteligência artificial, incluindo o instituto Dalle Molle que é uma referência mundial em matéria de perícia judiciária [6].

Segundo os factos, Osama Bin Laden terá falecido em Dezembro de 2001. Aquilo de que se fala hoje é, por conseguinte, baseado em mitos.

O anúncio da morte de Osama Bin Laden

O anúncio feito por Barack Obama não deu detalhes sobre a operação. «Hoje, sob minha direcção, os EUA lançaram uma operação contra este complexo em Abbottabad, no Paquistão. Uma pequena equipa de Americanos conduziu esta operação com uma coragem e habilidade extraordinárias. Nenhum americano foi ferido. Tomaram os devidos cuidados para que não houvesse vítimas civis. Depois de uma troca de tiros, mataram Osama Bin Laden e recuperaram o corpo» [7]. A mensagem presidencial continha três pontos:
- Primeiro, «Esta noite, podemos dizer ás famílias que perderam entes queridos por causa do terrorismo da Al-Qaeda: justiça foi feita»: ou seja, assunto terminado, não haverá processo para apurar a verdade sobre os atentados atribuídos a Osama Bin Laden, incluindo os do dia 11 de Setembro 2001.
- Segundo, Os EUA procederam a uma execução extrajudiciária, não porque são os mais fortes, mas porque foram escolhidos por Deus para aplicar a Sua justiça : « Relembramos que podemos realizar estas coisas, não só por causa de riqueza ou poder. Mas por causa daquilo que nós somos : uma só nação abençoada por Deus, indivisível e devotada á liberdade e á justiça para todos» (tradução oficial).
- Terceiros, todos os governos do planeta – principalmente os dos Estados muçulmanos – foram incentivados a aplaudir esta execução extrajudiciária que marca o triunfo do Império do Bem sobre a incarnação do Mal: «O seu fim deve ser aplaudido por todos os que acredita, na paz e na dignidade humana».

Reacções ao anúncio

Na Fox News, Geraldo Riveira exclamou: «Bin Laden morreu! Confirmado! Confirmado! Bin Laden morreu (…) Que dia bonito! Que grande dia para todos! É a mais bela noite da minha carreira! (…) O estupor morreu! Este selvagem que nos feriu tanto. É uma verdadeira honra, uma bênção para mim estar neste lugar agora neste momento». A população desceu ás ruas para fazer a festa gritando « U-S-A !, U-S-A ! ».

Do seu lado, a quase totalidade dos chefes de Estado e de governo demonstraram fidelidade ao seu suserano, como se exigia deles. Nenhum demonstrou reservas ao que se lhes era apresentado, como execução extrajudiciária operada num Estado estrangeiro em violação da sua soberania.

David Cameron afirmou numa intervenção televisiva: « Quero felicitar as forças americanas que conduziram esta acção. Gostaria de agradecer o presidente Obama de a ter ordenado » [8].

Benjamin Netanyahu declarou igualmente pela televisão : «Este é um dia histórico para os EUA e para todos os países envolvidos na batalha contra o terrorismo. Quero felicitar o presidente Obama e o povo americano. Quero felicitar os soldados americanos, e o pessoal dos serviços secretos pelo desempenho excelente. Foram necessários dez anos para trazer justiça às vítimas. No entanto, a batalha contra o terrorismo é longa, sem mercê e resoluta. Trata-se de um dia de vitória – vitória para a justiça, para a liberdade e pela nossa civilização em comum.» [9]

Nicolas Sarkozy publicou um comunicado: « O anúncio pelo presidente Obama da morte de Osama Bin Laden no seguimento de uma notável operação de comando americana no Paquistão, é um evento maior na luta mundial contra o terrorismo. A França saúda a tenacidade dos EUA que o procuravam já por dez anos. O principal responsável dos atentados do 11 de Setembro 2001, Osama Bin Laden, era promotor de uma ideologia de ódio e chefe de uma organização terrorista que causou milhares de vítimas no mundo inteiro, principalmente em países muçulmanos. Para estas vítimas, justiça foi feita. Esta manhã, a França pensa nelas e ás suas famílias. » [10]

Berlim também publicou um comunicado : « Com esta acção comando contra Osama Bin Laden e sua execução, as forças militares dos EUA deu um golpe decisivo, coroado de sucesso, na Al-Qaeda. A chanceler Angela Merkel exprimiu ao presidente Obama o seu alívio pelo anúncio desta notícia. Na noite passada, as forças da paz obtiveram uma vitória. » [11]

Etc.

Porque cessar de fazer viver Osama Bin Laden ?

A questão política principal é de saber porque os EUA decidiram fazer cessar de fazer viver o personagem mítico que tinham criado – sendo que o homem já tinha morrido há uma década - ?

Simplesmente porque os combatentes de Bin Laden estão, já por alguns meses, mobilizados em operações onde não convém que sejam vistos como inimigos dos aliados. Não havia outro meio, senão a eliminação do seu comandante virtual, para justificar esta aparente reviravolta.

Sem dúvida, nos meses que seguem, os canais de televisão do mundo irão explicar-nos que os jihadistas que outrora combatiam ao lado da CIA no Afeganistão, na Bósnia e na Chechénia contra os Soviéticos e os Russos, foram desencaminhados para o terrorismo internacional, e que os seus olhos foram abertos com a morte de Bin Laden, e que agora poderão prosseguir o seu combate de forma serena ao lado da «América», na Líbia, na Síria, no Iémen e no Bahrein.

Não será mais necessário explicar qual é a jogada que está por trás de tudo isso a pessoas primárias como o corajoso general Carter Ham. Lembramo-nos da desordem causada pelo comandante-chefe do AfriCom, nos primeiros dias da operação «Odissey Dawn»: ele recusou-se a entregar armas aos rebeldes líbios visto haver entre eles membros da Al-Qaeda, retornados do Iraque. As foram imediatamente transferidas para a NATO, habituada a gerir operações secretas incluindo combatentes de Bin Laden.

Na contra-revolução em curso no Médio Oriente, os EUA e Israel voltam a aplicar a repartição que os impérios coloniais fizeram antes deles, com o seguinte método : apoiar-se no fanatismo religioso para reforçar o nacionalismo. A única novidade do dispositivo é a vontade de utilizar combatentes wahhabitas de Bin Laden, como braço armado, e takfiristas recrutados no seio da Irmandade muçulmana, como vitrina política. Esta fusão será complexa, principalmente para incluir o ramo palestiniano da Irmandade muçulmana, o Hamas, que – de momento – não está entusiasmado por esse plano. O leadership deste novo movimento foi confiado ao « consultor religioso » da Al-Jazeera, o sheik Youssef al-Qardawi, que todos os dias clama pela rádio a queda de Muammar Khadafi e de Bachar el-Assad.

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O sheik Youssef al-Qardawi aquando uma manifestação de vitória, no dia 18 Fevereiro 2011 na praca Tahrir no Cairo. Preconiza um pacto entre a Irmandade muçulmana e o exército, e uma aplicação obscura da Sharia e das suas punições.

Nesta perspectiva, organizou-se a volta de Al-Qardawi ao seu país de nascença. Durante a manifestação da vitória, no dia 18 de Fevereiro, interditou-se o pódio aos heróis da praça Tahrir e permitiu-se-lhe exprimir-se perante uma multidão de perto de 2 milhões de pessoas. O pregador teve então toda oportunidade de desviar a revolução egípcia para afastá-la do nacionalismo originário de Nasser e do antisionismo khomeinista. Debaixo de sua influência, os egípcios renunciaram a eleição de uma assembleia constituinte e, pelo contrário, emendaram o texto fundamental de forma a proclamar o islão como religião de Estado.

Reorganização em Washington

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Em Rambo III (1988), o ícone do imperialismo americano salva o coronel Trautman prisioneiro dos malfeitores soviéticos no Afeganistão. Entra em contacto com os mujahidines de Bin Laden e simpatiza com eles, juntos contra o comunismo.

Outrora, os companheiros de Bin Laden eram os « combatentes da liberdade ». Na época, a Fundação Héritage organizava angariação de fundos para apoiar a jihad do milionário anticomunista, época em que – em Hollywood – Rambo ajudava aqueles que ainda não se chamavam ‘membros da Al-Qaeda’ a vencer o Exército vermelho.

Hoje, são novamente « combatentes da liberdade » quando indicam que alvos a NATO deve atingir no solo líbio, ou quando disparam onde calhar sobre a multidão e forças de ordem na Síria.

De forma a coordenar o seu trabalho e o das forças dos EUA, deu-se lugar a mudanças profundas em Riyad. O clã dos Saidairis impôs o retorno do príncipe Bandar e o envio das « Águias de Nayef » para massacrar os manifestantes do Bahreïn e destruir as mesquitas xiitas. Mas as mudanças nos organigramas mais importantes estão a ser efectuadas em Washington.

O general David Petraeus, que comandava o CentCom e utilizava as redes de Bin Laden para assassinar opositores iraquianos, foi nomeado director da CIA. Deve-se concluir que a administração Obama deseja reduzir a sua presença militar aumentando a realização de acções secretas. Léon Panetta, director de saída CIA, torna-se secretário da Defesa ; um posição reservada aos antigos membros da Comissão Baker-Hamilton, da qual fazia parte com o seu amigo Robert Gates. Estará encarregado de limitar a actuação militar por terra, com excepção das forças especiais.

O anúncio oficial da morte de Bin Laden, já com uma década de atraso, fecha um ciclo e abre um novo. Este personagem fora ponta-de-lança da acção secreta contra a influência soviética, e depois russa, antes de se tornar propagandista do choque das civilizações no dia 11 de Setembro e de ser usado para eliminar a resistência no Iraque. Usado, não era reciclável, mas os seus combatentes o eram. Estarão agora associados ao desvio da «Primavera árabe» e á luta contra o eixo da Resistência (Irão, Síria, Hezbollah, Hamas).

Tradução
David Lopes

[1] « La CIA a rencontré Ben Laden à Dubaï en juillet », Alexandra Richard, Le Figaro, 31 de outubro de 2001.

[2] « Hospital Worker : I Saw Osama », CBS Evening News, 28 de janeiro de 2002.

[3] « Report : Bin Laden Already Dead », Fox News, 26 de dezembro de 2001. « The Death of bin Ladenism », Amir Taheri, The New York Times, 11 de julho de 2002.

[4] « La CIA est sans nouvelles de Ben Laden depuis presque 9 ans », Réseau Voltaire, 29 de junho de 2010.

[5] « Angelo Codevilla remet en question la version officielle du 11-Septembre », par Alan Miller, Réseau Voltaire, 09 de junho de 2009.

[6] « La falsification des prétendues vidéos d’Al-Qaida a été prouvée », Horizons et débats, 22 de agosto de 2007.

[7] « Declarações sobre a morte de Osama bin Laden », Barack Obama, Rede Voltaire, 01 de maio de 2011.

[8] « I would like to congratulate the US forces who carried out this brave action. I would like to thank President Obama for ordering this action. »

[9] « This is an historic day for the United States of America and for all the countries engaged in the battle against terrorism. I want to congratulate President Obama and the American people. I want to congratulate America’s soldiers, and its intelligence personnel for a truly outstanding achievement. It took ten years to track Osama bin Laden down. It took ten years to bring a measure of justice to his victims. But the battle against terrorism is long and relentless and resolute. This is a day of victory – a victory for justice, for freedom and for our common civilization. »

[10] « L’annonce par le Président Obama de la mort d’Oussama Ben Laden à la suite d’une remarquable opération de commando américaine au Pakistan, est un événement majeur de la lutte mondiale contre le terrorisme. La France salue la ténacité des États-Unis qui le recherchaient depuis 10 ans. Principal responsable des attentats du 11 septembre 2001, Oussama Ben Laden était le promoteur d’une idéologie de haine et le chef d’une organisation terroriste qui a fait des milliers de victimes dans le monde entier, notamment dans les pays musulmans. Pour ces victimes, justice est faite. Ce matin, la France pense à elles et à leurs familles. »

[11] « Mit der Kommandoaktion gegen Osama bin Laden und seiner Tötung ist dem US-Militär ein entscheidender Schlag gegen Al Qaida gelungen. Bundeskanzlerin Angela Merkel hat US-Präsident Barack Obama ihre Erleichterung über diese Nachricht übermittelt (…) Heute Nacht haben die Kräfte des Friedens einen Erfolg errungen. Besiegt ist der internationale Terrorismus damit noch nicht. Wir alle werden wachsam bleiben müssen. »

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

 
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