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Informativo do Departamento de Estado: dez alegações falsas sobre a Ucrânia

| Washington, D. C. (Estados Unidos)
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Ficções do presidente Putin: dez alegações falsas sobre a Ucrânia

No momento em que a Rússia tece uma narrativa falsa para justificar suas ações ilegais na Ucrânia, o mundo se depara com a ficção russa mais impressionante desde que Dostoiévski escreveu: “A fórmula ‘dois mais dois igual a cinco’ não deixa de ser atraente.”

Abaixo, estão dez das recentes alegações do presidente Vladimir Putin justificando as agressões russas contra a Ucrânia, seguidas pelos fatos que tais alegações ignoram ou distorcem.

1. Putin afirma: As forças russas na Crimeia estão atuando apenas para proteger os ativos militares da Rússia. Foram “grupos de defesa dos cidadãos”, e não as forças russas, que apreenderam a infraestrutura e as instalações militares na Crimeia.

Os fatos: Fortes evidências sugerem que membros dos serviços de segurança russos estão no centro das forças organizadas anti-Ucrânia na Crimeia. Enquanto usam uniformes sem insígnias, essas unidades dirigem veículos com placas das forças militares russas e se identificam livremente como forças de segurança russas quando respondem à mídia internacional e às forças armadas da Ucrânia. Além disso, tais indivíduos estão de posse de armas que, de modo geral, não são disponibilizadas a civis.

2. Putin afirma: As ações da Rússia se enquadram no escopo do Tratado de Amizade de 1997 entre a Ucrânia e a Federação Russa.

Os fatos: O acordo de 1997 exige que a Rússia respeite a integridade territorial da Ucrânia. As ações militares russas na Ucrânia, que deram à Rússia o controle operacional da Crimeia, são uma violação clara da integridade territorial e da soberania da Ucrânia.

3. Putin afirma: A oposição deixou de implementar o acordo estabelecido em 21 de fevereiro com o ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovych.

Os fatos: O acordo de 21 de fevereiro definiu um plano no qual a Rada, ou Parlamento, aprovaria uma lei que levaria a Ucrânia de volta à Constituição de 2004, encaminhando assim o país a um sistema constitucional centrado no parlamento. Segundo os termos do acordo, Yanukovych assinaria a aprovação da lei dentro de 24 horas, dando à crise uma solução pacífica. Yanukovych se recusou a honrar seu compromisso. Em vez disso, ele juntou suas coisas e fugiu, deixando para trás evidências de corrupção em larga escala.

4. Putin afirma: O governo da Ucrânia é ilegítimo. Yanukovych ainda é o líder legítimo da Ucrânia.

Os fatos: No dia 4 de março, o próprio presidente Putin reconheceu a realidade de que Yanukovych “não tem futuro político”. Após a fuga de Yanukovych da Ucrânia, seu próprio Partido das Regiões se voltou contra ele, votando para confirmar sua saída do gabinete e para dar apoio ao novo governo. O novo governo da Ucrânia foi aprovado com 371 votos – uma maioria de mais de 82% - pelo Parlamento Ucraniano, que por sua vez foi eleito democraticamente. O governo interino da Ucrânia é um governo do povo, que levará o país a eleições democráticas em 25 de maio – eleições essas que permitirão que todos os ucranianos tenham voz quanto ao futuro de seu país.

5. Putin afirma: Há uma crise humanitária e centenas de milhares de pessoas estão deixando a Ucrânia e buscando asilo na Rússia.

Os fatos: Até o momento, não há evidência nenhuma de uma crise humanitária. Da mesma forma, não há evidências de um movimento em massa de cidadãos ucranianos em busca de asilo na Rússia. Organizações internacionais presentes em terra conversaram com guardas de fronteira ucranianos, que também negaram tais alegações. Jornalistas independentes que observam a fronteira também não relataram nenhum movimento maciço de refugiados.

6. Putin afirma: Grupos étnicos russos estão sob ameaça.

Os fatos: Fora da imprensa russa e da televisão estatal russa, não há relatos confiáveis de que haja algum grupo étnico russo sob ameaça. O novo governo ucraniano tem priorizado, desde o início, a paz e a reconciliação. O presidente Oleksandr Turchynov se recusou a aprovar leis que limitariam o uso do idioma russo em nível regional. Grupos étnicos russos e falantes do idioma russo emitiram petições que atestam que suas comunidades não sofreram ameaças. Além disso, desde que o novo governo foi estabelecido, a calma voltou a Kiev. Não houve aumento repentino nos níveis de criminalidade, saques ou vinganças contra oponentes políticos.

7. Putin afirma: Bases russas estão sob ameaça.

Os fatos: As instalações militares russas estavam e permanecerão em segurança, e o novo governo ucraniano se comprometeu a cumprir todos os acordos internacionais existentes, incluindo os que tratam das bases russas. As bases ucranianas na Crimeia é que estão sob ameaça das ações militares russas.

8. Putin afirma: Houve ataques em massa a igrejas e sinagogas no sul e no leste da Ucrânia.

Os fatos: Líderes religiosos do país e defensores internacionais da liberdade de religião que atuam na Ucrânia afirmam que não houve incidentes de ataques contra igrejas. Todos os líderes da igreja na Ucrânia, incluindo representantes da Igreja Ortodoxa Ucraniana - Patriarcado de Moscou, expressaram seu apoio à nova liderança política, estimulando a unidade nacional e um período de recuperação. Grupos judeus presentes no sul e no leste da Ucrânia afirmam que não testemunharam um aumento em incidentes antissemíticos.

9. Putin afirma: Kiev está tentando desestabilizar a Crimeia.

Os fatos: O governo interino da Ucrânia tem agido com cautela e buscado o diálogo. As tropas russas, por outro lado, se moveram para além de suas bases para assumir o controle da infraestrutura e de objetivos políticos na Crimeia. O governo em Kiev enviou imediatamente o ex-chefe de Defesa para acalmar a situação. Petro Poroshenko, o último emissário do governo a buscar o diálogo na Crimeia, foi impedido de entrar na Rada da Crimeia.

10. Putin afirma: A Rada está sob influência de extremistas ou terroristas.

Os fatos: A Rada é a instituição mais representativa da Ucrânia. Legislações recentes foram aprovadas por grandes maiorias, incluindo de representantes do leste da Ucrânia. Os grupos ultranacionalistas de extrema direita, alguns dos quais estiveram envolvidos em confrontos com as forças de segurança durante os protestos da EuroMaidan, não têm representação na Rada. Não há indicações de que o governo ucraniano adotaria políticas discriminatórias. Pelo contrário, ele afirmou publicamente o oposto.

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