Rede Voltaire

Em direção ao fim do sistema Erdoğan

Thierry Meyssan, que havia predito a queda de Recep Tayyip Erdoğan, já em dezembro de 2014, enquanto a totalidade dos analistas internacionais persistia em crê-lo vencedor das eleições legislativas, revê aqui a carreira do presidente turco. Nesta síntese, ele lança luz sobre os laços do AKP com os Irmãos muçulmanos, e o papel de Erdoğan na coordenação do terrorismo internacional, após o atentado contra o príncipe saudita Bandar bin Sultan.

| Damasco (Síria)
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O islamista Recep Tayyip Erdoğan assume a sucessão do príncipe saudita Bandar bin Sultan, após o atentado que o afastou de cena em 2012, e torna-se o coordenador do terrorismo internacional. Ele assumiu a sucessão do Catar, em 2014, quando este teve que renunciar a apadrinhar os Irmãos muçulmanos, e tornou-se assim o verdadeiro líder da Confraria. Inchado pelo sucesso, acha-se indispensável aos Estados Unidos e viola as regras da Otan, assinando o tratado Turkish Stream com a Rússia.

Fracasso nas eleições legislativas

O resultado das eleições legislativas turcas não ameaça apenas os projectos de Recep Tayyip Erdoğan, que se via já como um novo Sultão, mas o próprio poder do seu partido, o AKP. Cada um dos três outros partidos (MHP conservador, CHP socialista e HPD esquerda) afirmou recusar formar governo de coligação (coalizão-br) com ele, e desejar, pelo contrário, formar uma coligação a três. No caso em que não o conseguissem, no prazo de até 45 dias, seria de toda a conveniência, então, ou confiar aos socialistas o cuidado de formar uma coligação governamental –uma opção já descartada pelo AKP–, ou de convocar, de novo, eleições legislativas.

Este cenário parece ainda improvável, tal como o resultado da eleição parecia impossível à quase totalidade dos comentaristas políticos até ao escrutínio de 7 de junho. No entanto, ao assinar, a 1 de dezembro de 2014, um acordo económico com Vladimir Putin, para lhe permitir contornar as sanções da União Europeia (Turkish Stream) (Gasoduto Turco- ndT), Erdoğan desafiou as regras implícitas da Otan. Ao fazê-lo, ele tornou-se o homem a abater tanto para Washington como para Bruxelas. Os Estados Unidos trataram, pois, de forma encoberta, de exercer bastante influência, durante a campanha eleitoral, no sentido de tornar possível o derrube do AKP.

Para esta eleição, Erdoğan fixou o objetivo de ganhar 400 lugares (assentos-br) em 550. Na verdade, para fazer adoptar uma constituição, talhada à medida, que lhe concedesse plenos poderes executivos, ele esperava 367 lugares. Caso tal não sucedesse, ele ter-se-ia contentado com 330 lugares, o que teria lhe permitido convocar um referendo, que teria adoptado o projecto de Constituição de maioria simples. De qualquer forma, ele precisava de ter 276 para dispôr da maioria parlamentar, mas ele não terá lá senão 258, o que é insuficiente para manter o poder sozinho.

O domínio do AKP, desde 2002, explicava-se, ao mesmo tempo, tanto pelos seus bons resultados económicos, como pela divisão da sua oposição. No entanto, a economia turca está em plena derrocada : a taxa de crescimento que rondou os 10%, durante um decénio, entrou em queda aquando da guerra contra a Líbia, depois aquando da operação secreta contra a Síria. Está actualmente em 3%, mas poderá rapidamente tornar-se negativa. O desemprego cresceu de repente e atingiu os 11%. Estas guerras foram, com efeito, desenvolvidas contra os aliados da Turquia e seus parceiros económicos indispensáveis. Quanto à divisão da oposição a CIA, que no passado a havia envenenado, apressou-se a remediá-la.

A coisa foi fácil, tendo em conta a ladainha de queixas que o autoritarismo de Erdoğan tem suscitado. A união da oposição já se tinha dado, na base, em Junho de 2013, durante as manifestações de Praça Taksim Gezi. Mas o movimento havia falhado, primeiro, porque na época Erdoğan foi apoiado por Washington, e porque tinha permanecido apenas como um movimento urbano. Na altura, os manifestantes protestavam, à primeira vista é certo, contra um projecto imobiliário, mas, sobretudo, também contra a ditadura da Irmandade Muçulmana e a guerra contra a Síria.

Constatando que esse movimento não tinha conseguido derrubá-lo, o AKP pensava, erradamente, ser imbatível. Tentou, pois, forçar a passagem do seu programa islamista (lenços para as mulheres, proibição de coabitação para solteiros do sexo oposto, etc.). E isto, enquanto a imagem pura do Sultão foi subitamente posta em causa, pela revelação da corrupção da sua família. Em fevereiro de 2014, ouviu-se, através do que parecia ser uma intercepção telefónica, Erdoğan pedir ao seu filho para esconder 30 milhões, em dinheiro, antes de uma busca policial [1].

Tudo isso sem falar da purga contra os fiéis do seu antigo aliado, Fethullah Gulen [2], da prisão em massa de generais, de advogados e de jornalistas [3], de incumprimento das promessas feitas aos Curdos, e da construção do maior palácio presidencial no mundo.

Este fracasso é consequência da sua política externa

O fracasso de Recep Tayyip Erdoğan não provêm de decisões internas, é a consequência directa da sua política externa. Os resultados económicos excepcionais dos seus primeiros anos não teriam sido possíveis sem a ajuda, camuflada, dos EU, que queriam fazer dele o líder do mundo sunita. Eles foram travados, em 2011, pela junção de Ancara à operação de destruição da Jamahiriya árabe Líbia, que era, até aí, o seu segundo parceiro económico. A Turquia retomou os laços históricos que ela tinha tido com a tribo dos Misratas, principalmente os Aghdams, ou seja, os judeus turcos convertidos ao Islão, que se haviam instalado na Líbia nos séculos XVIII e XIX.

A Turquia estava ciente, que ao atacar a Líbia perderia um mercado muito importante, mas, esperava ficar a controlar os governos dirigidos pela Irmandade Muçulmana, logo na Tunísia, depois, possivelmente, na Líbia, no Egipto e na Síria. O que realmente aconteceu nos dois primeiros Estados, em 2012, mas que não durou muito.

Ancara envolveu-se na guerra contra a Síria. Foi em solo turco que a Otan instalou o quartel-general de coordenação de operações. Durante a primeira guerra (a de 4ª geração), indo de fevereiro de 2011 à conferência de Genebra I (de junho 2012), a Otan transferiu para a Turquia os combatentes da Al-Qaida na Líbia, de modo a criar o «Exército Sírio Livre». Erdoğan contentava-se em fornecer as bases de retaguarda, camufladas como «campos de refugiados», enquanto a imprensa ocidental, cega, apenas via uma «revolução democrática» (sic), na linha das «Primaveras Árabes» (re-sic).

Em junho de 2012, a vitória eleitoral dos Irmãos Muçulmanos no Egipto podia levar a pensar num futuro brilhante da Irmandade. Erdoğan também seguiu o projecto de Hillary Clinton, do general David Petraeus e de François Hollande de relançar a guerra contra a Síria, desta vez, segundo o modelo nicaraguense. Não se tratava já de apoiar uma operação secreta da Otan, mas de jogar um papel central numa guerra clássica da maior amplitude.

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A 16 de abril de 2014, a imprensa turca publicava uma fotografia de Abu Muhammad, um dos oficiais superiores do Daesh, que havia sido ferido pelo Exército árabe sírio em Idleb, depois transferido pelo MIT para a Turquia, e tratado, ás custas do contribuinte turco, num hospital público de Hatay.

Recep Tayyip Erdoğan, coordenador do terrorismo internacional

Quando em Julho de 2012, o Eixo da Resistência reagiu ao assassinato de membros do Conselho de Segurança Nacional Sírio, tentando matar o príncipe saudita Bandar ben Sultan, Recep Tayyip Erdoğan aproveitou a sua oportunidade. Ele colocou a Turquia, em substituição da Arábia Saudita, na manipulação do terrorismo internacional.

Em dois anos, mais de 200 mil mercenários, vindos dos quatro cantos do mundo, transitaram pela Turquia para combater a jihade na Síria. O MIT –os serviços secretos turcos— colocaram em acção um vasto sistema de tráfico de armas e de dinheiro para alimentar a guerra, pago, principalmente, pelo Catar e supervisionado pela CIA.

Erdoğan instalou três campos de treino da al-Qaida, sobre o seu território, em Şanlıurfa (fronteira síria), em Osmaniye (ao lado da base da Otan de Incirlik), e em Karaman (perto de Istambul), onde ele montou uma academia do terrorismo na tradição da Escola das Américas [4] [5].

A polícia e a Justiça turcas mostraram que Erdoğan era —como o antigo vice-presidente norte-americano Dick Cheney— amigo pessoal de Yasin al-Qadi, o «banqueiro de al-Qaida». Até que ele seja retirado da lista internacional de terroristas, foi deste modo, em todo o caso, como o FBI e as Nações Unidas o qualificaram, em outubro de 2012,. Durante o período em que era mundialmente procurado, Yasin al Qadi, viajava secretamente para Ancara, em avião particular. Os guarda-costas de Erdoğan iam buscá-lo ao aeroporto, não sem antes ter, primeiro, desativado as câmaras de vigilância [6].

A 18 de março de 2014, uma gravação transmitida no YouTube permitia ouvir um director da Turkish Airlines, Mehmet Karataş, queixar-se junto de um conselheiro Erdoğan, Mustafa Varank, que a sua companhia tinha sido usada pelo governo para transferir, secretamente, armas para a Boko Haram, na Nigéria. O alto funcionário não se preocupava por ter violado o direito internacional, mas, deplorava que estas armas pudessem servir para para matar não apenas cristãos, mas também muçulmanos.

Em maio de 2014, o MIT transferiu, por comboio (trem-br) especial, para o Daesh enorme quantidade de armas pesadas e de “pickupes” Toyota. Completamente novas, oferecidas pela Arábia Saudita. O Emirado Islâmico, que não era então senão um grupo de algumas centenas de combatentes, transformava-se, num mês, num exército de dezenas de milhares de homens e invadia o Iraque.

Durante os quatro últimos meses de 2014, a Turquia impediu os Curdos do PKK de correr em socorro dos seus em Kobane (Aïn al-Arab), quando a cidade foi atacada pelo Daesh. Numerosos jornalistas atestaram que, pelo contrário, os jiadistas podiam livremente atravessar a fronteira [7].

A 19 de janeiro de 2015, a policia, a pedido do procurador, interceptou um comboio transportando armas destinadas ao Daesh. No entanto, as buscas policiais foram interrompidas, quando se descobriu que o comboio era conduzido por agentes do MIT. No seguimento, os procuradores e o coronel da gendarmaria foram detidos por «traição» (sic). Durante a instrução do seu processo um magistrado deixou filtrar para média, que o MIT tinha fretado um total de 2. 000 camiões de armas para o Daesh [8].

A coluna vertebral do sistema terrorista turco é facilmente identificável: em 2007, a Academia Militar de West Point mostrou que os homens do Emirado Islâmico no Iraque provinham da al-Qaida na Líbia (GICL). Os mesmos mercenários foram usados para derrubar Muammar el-Kaddafi, em 2011 [9], depois para formar o Exército Sírio Livre (os «moderados») [10]. Os membros sírios do Emirado Islâmico, no Iraque, criaram a al-Qaida na Síria (Frente al-Nusra). Numerosos combatentes líbios e sírios voltaram ao seio do Emirado Islâmico no Iraque, quando este se rebatizou como «Daesh», e enviou quadros para a Boko Haram (Nigéria).

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Mehdi al-Harati tem a dupla nacionalidade líbia-irlandesa. Em junho de 2010, a sua foto agradecendo a Erdoğan, que o veio visitar ao hospital, após a sua prisão pelos Israelitas a bordo da Flotilha da Liberdade, fez os cabeçalhos da actualidade na imprensa. Aquando de um assalto à sua casa na Irlanda, (julho de 2011), verificou-se que ele detinha uma grande soma de dinheiro vivo, que a CIA lhe havia dado para ajudar ao derrube do Guia líbio. Ele dirigiu a Brigada de Tripoli, uma unidade da al-Qaida enquadrada por oficiais franceses, encarregada pela Otan de tomar o hotel Rixos, que servia de esconderijo aos Kadhafi e, de passagem, assassinar Thierry Meyssan, (agosto de 2011). Sob as ordens de Abdelhakim Belhaj, e com vários milhares de combatentes líbios, ele veio, em novembro de 2011, para a Síria organizaro Exército sírio livre por conta da França. Em seguida, criou e comandou um outro exército privado, Liwa al-Umma, que retomou a sigla de Exército sírio livre no fim de 2012. De regresso à Líbia, foi eleito presidente da câmara de Tripoli, (agosto de 2014), na altura em que o país se dividiu entre dois governos, um, em Tripoli, apoiado pela Turquia, o outro, em Tobrouk, apoiado pelo Egipto e pelos Emirados.

A implicação pública da Turquia no conflito

A Turquia tira um grande proveito da guerra contra a Síria. Em primeiro lugar, ao organizar a pilhagem dos seus tesouros arqueológicos. Um mercado público foi mesmo instalado em Antioquia, para que os colecionadores do mundo inteiro pudessem comprar as peças roubadas e fizessem encomendas das obras a roubar. Em seguida, organizando a pilhagem industrial de Alepo, a capital económica da Síria. A Câmara de Comércio e Indústria de Alepo mostrou como as fábricas foram sistematicamente desmontadas, as máquinas-ferramenta transferidas para a Turquia, sob o olhar atento do MIT. Os Sírios apresentaram queixa na Justiça, mas, os seus advogados turcos foram imediatamente detidos pela administração Erdoğan e ainda estão presos.

Já passou muito tempo desde que o exército turco enviou Forças especiais para Síria— vários soldados turcos foram feitos prisioneiros pelo Exército árabe sírio—. No entanto, ela coordenou o ataque à aldeia cristã de Maaloula, em setembro de 2013; uma aldeia que não tem nenhum interesse estratégico, mas que é o mais antigo local de culto cristão no mundo. É importante ressaltar que, em março de 2014, o Exército turco entrou na Síria para escoltar os jiadistas, da Frente Al-Nusra (Al-Qaida) e do Exército do Islão (pró-Saudita), até à cidade arménia de Kassab, com a missão de massacrar os habitantes cujos avós tinham fugido do genocídio perpetrado pelos otomanos [11]. Sem surpresa, a França e os Estados Unidos opuseram-se a uma condenação desta agressão pelo Conselho de Segurança. Posteriormente, o Exército turco entrou várias vezes em território sírio, mas nunca travou aí quaisquer outras batalhas.

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Formado nos Estados Unidos, Hakan Fidan, tornou-se o agente de ligação entre o estado-maior da Otan e a Turquia durante a guerra do Kosovo (1998). Homem de confiança de Recep Tayyip Erdoğan, ele foi nomeado, em 2003, director da TIKA, a agência que fomentaos laços com os turcófonos da Ásia central, e apoia o Hizb ut-Tahrir (uma cisão dos Irmãos muçulmanos que conduz uma campanha terrorista no vale de Fergana). Em 2007, integra o gabinete do Primeiro-ministro Erdoğan e torna-se administrador da AIEA. Em 2010, foi nomeado chefe dos serviços secretos (MIT). Ele organizou os campos de jiadistas na Turquia e, o seu aprovisionamento na Síria, isto inclusive para o Daesh. Mas sobretudo, tenta implicar os Estados Unidos na guerra contra a Síria, organizando, para isso, o ataque químico da ghoutta, e atribuindo-o ao presidente el-Assad (agosto de 2013). Em seguida à assinatura do acordo Turkish Stream, com a Rússia, ele entra em conflito com Erdoğan e demite-se, mas, a 9 de março de 2015, renuncia a apresentar-se ás eleições legislativas e retoma as suas funções de chefe dos serviços secretos.

O peso dos crimes de Recep Tayyip Erdoğan

A imprensa turca debruçou-se largamente sobre os crimes da administração Erdoğan, o que alienou dela, permanentemente, as populações alevitas (próximas dos alauítas) e curdas. As primeiras apoiam, maciçamente, o CHP, e os segundas o HPD. Mas, foi insuficiente para fazer cair o novo Sultão.

O erro ocorreu, a 1 de dezembro de 2014, quando Erdoğan assinou um gigantesco acordo económico com o presidente Putin, que ele vê erradamente como um Czar e, portanto, como um modelo. Talvez ele tema que os Estados Unidos se voltem contra ele, uma vez a Síria vencida, do mesmo modo como eles se voltaram contra Saddam Hussein, uma vez o Irão esgotado. Ainda que pretendendo jogar em dois tabuleiros, o Leste e o Oeste, Erdoğan perdeu o apoio que lhe dava, sem falhar, a CIA desde 1998.

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Em setembro de 2012, Recep Tayyip Erdoğan, François Hollande e Laurent Fabius urdiram um complô para fazer assassinar o presidente Bachar el-Assad. A operação falhou.

O percurso de Recep Tayyip Erdoğan

Em adolescente Erdoğan pensava empreender uma carreira de futebolista. Condutor de homens, personalidade carismática, ele viveu nas ruas à cabeça de um grupo de arruaceiros. Rapidamente se juntou à Millî Görüş (literalmente: “Visão Nacional”, devendo ser entendida no contexto de censura como «Islão político») de Necmettin Erbakan, cujo programa era o de re-islamização da sociedade. Ele militou num grupo de extrema direita anti-comunista, e, participou em diversas manifestações anti-judaicas e anti-maçónicas.

Eleito para o Parlamento em 1991, foi proibido de exercer o cargo por causa do golpe de Estado e da repressão que se abateu sobre os islamitas. Eleito presidente da câmara (prefeito-br) de Istambul, em 1994, exerceu as suas funções sem impor a sua visão islamita. No entanto, aquando da proibição do seu partido, ele foi condenado por ter recitado, durante um dos seus discursos, um poema pan-turquista. Ele amargou 4 meses de prisão e foi proibido de se apresentar às eleições.

Libertado, alegou ter quebrado com os erros do passado. Abandonou a sua retórica anti-ocidental provocando a divisão do movimento de Necmettin Erbakan. Com a ajuda da embaixada dos EU, ele fundou, então, o AKP, um partido, ao mesmo tempo, islamita e atlantista, no qual ele integrou não somente os seus amigos da Millî Görüş, como também os discípulos de Fethullah Gullen, e os antigos partidários de Turgut Özal. Este último, era um curdo sunita que foi presidente de 89 a 93. O AKP venceu as eleições em 2002, mas estas foram anuladas. Ganhou, igualmente, as eleições de 2003, o que permitiu a R. T. Erdoğan tornar-se finalmente Primeiro-ministro, quebrada que foi a sua interdição política.

Chegado ao poder, Erdoğan olvidou impôr os seus pontos de vista islamistas. Ele desenvolveu a economia, com a ajuda dos Estados Unidos, e, a partir de 2009, começou a implementar a teoria do professor Ahmet Davutoglu (um discípulo de Fethullah Gullen) de «de zero problemas com os nossos vizinhos». Tratava-se de resolver, com um século atraso, os conflitos herdados do Império Otomano. Entre outras coisas, ele organizou, em 2009, um mercado comum com a Síria e o Irão levando a um boom económico regional.

O AKP e os Irmãos muçulmanos

Embora tendo um trajecto diferente, a Millî Görüş sempre mostrou interesse pelos Irmãos Muçulmanos egípcios. Assim, ela traduziu as obras de Hassan el-Banna e de Qutb Said.

O AKP aproximou-se, oficialmente, da Irmandade Muçulmana aquando da guerra levada a cabo por Israel contra o povo de Gaza, em 2008-09. O que conduziu o governo Erdoğan a apoiar, e a participar, do projecto Flotilha da Liberdade, organizada pelos Irmãos sob cobertura de uma organização humanitária, a IHH, e sob o olhar vigilante da CIA [12].

Desde os primeiros dias da Primavera Árabe, o AKP apoiou Rached Ghannouchi na Tunísia, Mahmoud Jibril na Líbia, e Mohamed Morsi no Egito. O partido forneceu especialistas, em comunicação política, aos Irmãos Muçulmanos, e aconselhou-os no sentido de impôr a sua visão comum do Islão ás respectivas sociedades.

Dando sinal desta aliança, Erdoğan promoveu, em setembro de 2011, a criação, em Istambul, do Conselho Nacional Sírio, destinado a tornar-se o governo sírio no exílio; uma instância totalmente controlada pela Irmandade Muçulmana [13].

Em 2012, Erdoğan acolheu no congresso do AKP os líderes dos Irmãos Muçulmanos no poder, o egípcio Mohamed Morsi e o palestino Khaled Meschal. Da mesma forma, ele organizou uma conferência da Irmandade, a 10 de julho de 2013, na qual participaram Youssef Nada Mohammad Riyad al-Shafaka (o guia da Irmandade na Síria) e Rached Ghannouchi. Por precaução, foram os seus velhos amigos da Millî Görüş, e não o AKP, que fizeram os convites.

Quando, em Setembro de 2014, o Catar evita uma guerra com a Arábia Saudita, convidando a Irmandade Muçulmana a deixar o Emirado, Erdoğan agarrou, de novo, a sua oportunidade e fica como único patrocinador da Irmandade, no plano internacional.

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O presidente Erdoğan dá as recepções, no seu espampanante novo palácio, rodeado por 16 soldados fardados como guerreiros dos 16 Impérios turcos que o precederam.

O futuro da Turquia

Só por facilitismo é que se pode considerar Recep Tayyip Erdoğan como um neo-otomano. O seu projecto nunca foi o de reconstituir o Império, mas, sim, o de criar um novo com as suas próprias regras. Ele acreditou poder apoiar-se, alternativamente, no fantasma do Califado, (com o Hizb ut-Tahrir, depois com o Daesh), ou no do pan-turquismo («o vale dos lobos»).

É, também, de forma errada que o têem descrito como um político autoritário. Na realidade, ele sempre se comportou como um líder de claque(torcida-br) e não dizemos de um líder de bando que ele é autoritário. Apanhado em flagrante delito, em numerosos casos criminais, ele sempre reagiu negando as evidências e destituindo, ou prendendo, os policias e os magistrados que aplicavam a lei.

Mesmo que Erdoğan conseguisse subornar o MHP, ou, pelo menos 18 dos seus deputados, para formar uma coligação governamental, o seu partido não ficará por muito tempo no poder.

De modo a estar seguro a não mais ter de enfrentar o AKP, os Estados Unidos deveriam incentivar a divisão, encorajando, para isso, os seguidores de Fethullah Gullen e os partidários de guerra do presidente Turgut Ozal a formar o seu próprio partido.

O governo que sucederá ao AKP deverá, rapidamente, libertar os prisioneiros políticos e processar os líderes islâmicos corruptos, depois, revogar várias leis islamistas para satisfazer a opinião pública. Ele colocará um fim à implicação da Turquia na guerra de agressão contra a Síria, mas, deverá facilitar a saída dos jiadistas pela CIA, do Iraque e da Síria para um outro destino. Beneficiará do apoio financeiro dos E. U., desde que ponha em causa o Tratado assinado pelo presidente Erdoğan com o presidente Putin.

A queda do AKP deverá provocar um recuo dos Irmãos Muçulmanos para o Catar, único estado que lhes será, agora, favorável. Ela deverá também aliviar a atmosfera na Tunísia e na Líbia, e promover a paz na Síria e no Egipto.

Tradução
Alva

[1] « 30 millions d’euros et la voix d’Erdogan » (Fr- «30 Milhões de euros e a voz de Erdogan»- ndT), Réseau Voltaire, 25 février 2014.

[2] « Erdoğan attaque Gülen publiquement » (Fr- «Erdogan ataca publicamente Gulen»- ndT), Réseau Voltaire, 23 novembre 2013.

[3] “Turquia : O Golpe de Estado Judicial do AKP”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Diário Liberdade (Portugal), Rede Voltaire, 19 de Agosto de 2013.

[4] “Israeli general says al Qaeda’s Syria fighters set up in Turkey” (Ing- «General israelita afirma que os combatentes al-Qaida na Síria foram preparados na Turquia»-ndT), par Dan Williams, Reuters, 29 janvier 2014.

[5] A Escola das Américas era uma escola de tortura criada pela CIA, durante a Guerra Fria, no Panamá.

[6] « Erdoğan recevait secrètement le banquier d’Al-Qaida » (Fr- «Erdogan recebia secretamente o banqueiro da al-Qaida»- ndT), Réseau Voltaire, 2 janvier 2014.

[7] « Kobané, objet de tous les mensonges » (Fr- «Kobane, objecto de todas as mentiras»- ndT), Réseau Voltaire, 1er novembre 2014.

[8] « La Turquie arrête les procureurs qui enquêtaient sur Émirat islamique » (Fr- «A Turquia prende os procuradores que investigavam o Emirado Islâmico»- ndT), Réseau Voltaire, 8 mai 2015.

[9] « Ennemis de l’OTAN en Irak et en Afghanistan, alliés en Libye » (Fr- «Inimigos da Otan no Iraque e no Afeganistão, aliados na Líbia»- ndT), par Webster G. Tarpley, Réseau Voltaire, 21 mai 2011.

[10] « L’Armée syrienne libre est commandée par le gouverneur militaire de Tripoli » (Fr-«O Exército sírio livre é comandado pelo governador militar de Tripoli»- ndT), par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 18 décembre 2011; « Islamistas libios se desplazan a Siria para “ayudar” a la revolución» («Islamistas Líbios na Síria para “ajudar” a revolução»- ndT), por Daniel Iriarte, ABC (España), Red Voltaire, 19 de diciembre de 2011.

[11] “Para Ancara, o massacre é uma opção política?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 27 de Outubro de 2014.

[12] « Flottille de la liberté : le détail que Netanyahu ignorait », (Fr- « Flotilha da liberdade : o detalhe que Netanyahu ignorava»- ndT), par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 6 juin 2010.

[13] O Conselho foi inicialmente presidido pelo Professor Burhan Ghalioun, apresentado pela média(mídia-br) ocidental como um «militante laico», quando ele era, desde 2003, o conselheiro político de Abbassi Madani (presidente da Frente Islâmica de salvação na Argélia). O Conselho é, actualmente, presidido por Georges Sabra, apresentado como um «cristão marxista», quando ele acaba de cumprir a sua peregrinação a Meca.

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

 
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