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A macroeconomia e a macrosociede
por Leonardo Boff*




7 de Dezembro de 2004

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Sao Paulo (Brésil)

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Pays
 Venezuela

Há um mal-estar inegável dentro e fora do Governo referente à opção macroeconômica assumida pelo Presidente Lula. Confrontam-se dois olhares conflitantes, cada qual com sua lógica e seu discurso coerente. Um olhar se fixa na economia e aduz os seguintes fatos: após severa política fiscal, está ocorrendo inegável crescimento econômico, control e sobre a inflação e o dolar, queda da relação PIB-dívida, pagamento sustentado da dívida, boa balança comercial e aumento de empregos.

O outro olhar enfoca a sociedade e traz à tona os dados do Relatório dos Direitos Humanos no Brasil 2004 que são assustadores. Quase todos os itens negativos ou se mantiveram ou pioraram: degradação do ganho real dos salários, violência no campo e na cidade, trabalho escravo, demora na demarcação de áreas indígenas, morosidade na reforma agrária e desmobilização política dos movimentos.

A análise crítica tem mostrado que a crise social é, em parte, o preço a ser pago pelo sucesso econômico. Mas que adianta crescimento econômico sem desenvolvimento social? Os ganhos da economia não são repassados na forma de benefícios sociais para as grandes maiorias empobrecidas e excluidas. Quem ganhava, ganha agora muito mais.

Não houve a mudança necessária e prometida. Quantos esperávamos que um filho do caos social, sobrevivente da tribulação histórica dos humilhados e ofendidos de nosso povo, instaurasse a viragem libertadora. Ele se elegeu com essa bandeira.

E ao chegar lá, trocou de agenda. As elites nacionais e mundiais conseguiram trazê-lo para a sua lógica, para o modelo econômico neoliberal dominante. Quem aceita entrar por aquela porta está perdido. Em seu frontal bem poderia estar a frase que Dante colocou na entrada do inferno: "Lasciate ogni speranza voi ch¹intrate"(percam a esperança, vocês que aqui entram). Ai só contam os interesses do capital.E ele que representava os trabalhdores.

O que sinceramente esperávamos? Que ele com o cacife que tinha por causa de sua história de vida e pela novidade do PT pudesse dar início à superação do neoliberalismo mediante uma renegociação com o FMI acerca das formas de saldarmos nossa dívida externa. Esperávamos que submetesse as elites dominantes e argentárias à lógica de políticas sociais para que começassem a pagar a dívida social secular que elas têm para com o povo.

Pouco disso ocorreu. Foi vítima da política velhista das elites que o saudoso historiador José Honório Rodrigues bem descreveu: "elas buscam sempre a conciliação entre elas mesmas para não conceder nada ao povo".

Estamos tristes por nós mesmos: ou porque fomos ingênuos, ou porque não acumulamos força suficiente para impôr rumos novos ao pais ou porque ainda não conseguimos criar um líder que tivesse a coragem para esta mudanza inovadora.

Confio ainda na pessoa de Lula. Ele é bom e jamais trairia seus sonhos. Infelizmente escolheu gente e meios inadequados para realizar aqueles sonhos. Mas é carismático e pode mudar desde que entenda aquilo que sempre pregou:o capitalismo é só bom para o capitalista, nunca para o trabalhador. Este precisa de outro tipo de economia onde ele não é apenas beneficiário mas também ator.

 Leonardo Boff
Théologien de la libération et ancien prêtre brésilien, Leonardo Boff fut condamné par l’Église catholique pour ses prises de position. En 1985, il fut condamné à un an de « silence obséquieux ».
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