Voltairenet.org
 Réseau de presse non-alignée

A manutenção do subdesenvolvimento
por Igor Ojeda*

Chega a ser motivo de riso o fato de a pauta de negociações comerciais vigente desde 2001 no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) ser chamada de “Rodada Doha de Desenvolvimento”.



17 de Dezembro de 2005

Depuis
Caracas (Venezuela)

Outils

 Imprimer
 Envoyer

Pays
 Venezuela

Desde então, os inúmeros movimentos sociais e entidades da sociedade civil que no mundo todo lutam contra o livre-comércio fazem, em alto e bom som, uma pergunta inevitável: desenvolvimento para quem?

Na teoria, deveria ser para os países mais pobres; mas, na prática, os mais ricos são os favorecidos. As nações desenvolvidas pedem uma redução radical nas tarifas para importação de bens industriais dos subdesenvolvidos, mas não abrem mão de seus subsídios e tarifas agrícolas. A União Européia (UE) e os Estados Unidos (EUA) propõem – apoiados pelo Ministério da Fazenda de Antônio Palocci – que o Brasil corte cerca de 65 % das tarifas médias registradas na OMC (de 30% para 10%). Já o Ministério das Relações Exteriores (MRE) oferece 50% (de 30% para 15%).

Desemprego

Um estudo realizado pelo Instituto Observatório Social (organização que pesquisa o comportamento de empresas em relação aos direitos dos trabalhadores) e encomendado pela Aliança Social Continental (ASC) mostra, como esta proposta afetaria os interesses nacionais. Segundo o texto, os termos colocados atualmente na OMC – cuja 6ª Conferência Ministerial ocorre entre os dias 13 e 18 em Hong Kong, na China – poderiam afetar dois milhões de empregos na indústria brasileira, já que a maior competitividade estrangeira causaria a eliminação de postos de trabalho e a precarização de outros devido à contratação de trabalhadores em caráter informal. Significariam também a “consolidação de uma estrutura produtiva de baixo valor agregado”.

Além disso, a abertura indiscriminada reduziria a possibilidade de o país realizar políticas industriais e comerciais, ao reduzir a distância entre a tarifa de fato aplicada e a consolidada (a que é registrada na OMC). Traduzindo: um corte nas tarifas consolidadas deixaria uma margem de manobra menor para o Brasil proteger certos setores das indústria. Por exemplo: em agosto de 2005, para evitar a invasão de calçados chineses, o governo elevou a tarifa de importação deste bem de 14% para 35%, dentro da variação registrada na OMC. Com o corte proposto, isso não seria possível. Ainda segundo o estudo, os setores mais afetados seriam o automotivo, eletroeletrônico, de calçados, têxtil e vestuário e químico.

Uma das bases do relatório do Observatório Social é a abertura ocorrida na América Latina e no Brasil durante a década de 1990. “A tarifa média praticada hoje, de 10,8%, existe por conta de uma redução brusca das tarifas industriais brasileiras durante este período, quando ocorreu uma eliminação de 1,9 milhão de empregos na indústria, de 1990 a 1999”, explica Alexandre de Freitas Barbosa, pesquisador do Observatório Social e um dos autores do estudo. Segundo ele, a causa foi o corte nas tarifas aliado a um crescimento muito pequeno do PIB industrial, a uma forte valorização da moeda entre 1994 e 1998, com o Plano Real, e a política de juros altos. Para Barbosa, caso as tarifas sejam reduzidas novamente de forma drástica – e com as demais condições permanecendo praticamente as mesmas –, “estaríamos matando um processo de reindustrialização pós-1999”.

Agenda do Agronegócio

Ainda segundo o pesquisador do Observatório Social, a visão do Ministério da Fazenda, que apóia a proposta dos países ricos, é totalmente equivocada ao focar apenas na produtividade. “Obviamente, ela vai aumentar, mas só nas empresas que sobrarem. Nossa idéia é uma produtividade que expanda a base industrial e de empregos”, diz. No entanto, mesmo a postura do MRE merece ressalvas, na opinião de Adriano Campolina, diretor da ActionAid (organização não-governamental que atua no combate à pobreza) para as Américas.

Embora elogie a atuação do Brasil desde a criação do G20 (grupo de países em desenvolvimento, liderados por Brasil e a Índia), teme a possibilidade de o país considerar uma posição mais flexível nas negociações em indústria e serviços para obter acesso a mercados para a agricultura exportadora – que causa danos ao meio ambiente, não distribue renda, gera pouquíssimos empregos e não produz alimentos básicos para a população.

“O que nos preocupa é que, para atender aos anseios do agronegócio, comprometa-se tanto os interesses da agricultura familiar quanto os vinculados às questões de bens industriais e de serviços. Isso poderia ter impactos muito grandes em termos de desemprego e no acesso das pessoas excluídas à educação e saúde. Para nós, é algo inaceitável, seria um retrocesso”, diz.

 Igor Ojeda
Jornalista
Os artigos deste autor




 

 



 

À propos du Réseau Voltaire - Contacts - RSS

  

Top