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A grande metáfora
por Leonardo Boff*

Para os cristãos a Semana Santa é a grande semana em que se celebra a vida, a morte e a ressurreição de Jesus. Esses três fatos são momentos de um único processo, chamado de "mistério pascal", mistério da passagem (páscoa na linguagem bíblica) da vida para a morte e da morte para a ressurreição.



22 de Abril de 2006

Depuis
Sao Paulo (Brésil)

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Pays
 Venezuela

Ou então da passagem do cativeiro egípcio para a libertação do povo no deserto e para a conquista da terra da promissão.

Hegel quando jovem estudante de teologia em Tübingen (foi primeiramente teólogo bem como Heidegger) em seu Stift (seminário) teve durante a sexta-feira santa uma iluminação que modificou toda sua vida e que está na raiz de sua filosofia. Chama a esta sexta-feira de "sexta-feira santa teórica". Viu a unidade do processo da natureza e da história que passa pela vida, pela morte e pela transfiguração bem como no mistério pascal cristão. Chamou a isso de dialética.

Se bem reparmos, a semana santa, para além de seu caráter religioso, representa uma grande metáfora. Tudo no universo, nos processos biológicos, humanos e biográficos se estrutura na forma da dialética. O primeiro momento é a tranquila serenidade e paz infinita daquele pontozinho quase infinito de onde viemos. De repente, sem sabermos por quê, ele explode. Produz um incomensuráve caos. A evolução do universo significa um processo de criar ordem no caos. Cada ser vivo nasce, se desenvolve, morre e se transfigura no Todo. As sociedades passam por crises.

As estrelas-guia já não respondem aos novos desafios. Produz-se um processo de dissolução. Quando se define outra forma de organização social emerge uma nova ordem com um outro sentido de ser. O ser humano vive seu arranjo existencial sereno e tranquilo. Eis que irrompe a crise e tudo se abala. Purifica-se, madura e cria outra ordem vital. Esta por sua vez, lentamente, também se desestabiliza e somente volta à serenidade quando elabora outro sentido de vida ou passa para uma outra dimensão além-morte. Em todo esse processo dialético há a experiência de vida, de morte e de transfiguração; de ordem, desordem e nova ordem; de tese, antítese e síntese. A complexidade segundo E. Morin se estrutura nesta dialética.

Nesta visão dialética a pessoa não foi criada para conhecer um fim na morte mas para se transfigurar através da morte. Passa, como diriam os alquimistas medievais, por um processo alquímico e entra numa ordem mais alta. Os cristãos chamam a isso de ressurreição. Ela não signfica a reanimação de um cadáver mas a transfiguração completa do ser humano em comunhão com o Ser. É a dialética da semente:"se o grão de trigo, caindo na terra não morrer, ficará só, mas se morrer, produzirá muito fruto", como disse o Mestre.

Hoje a natureza e a humanidade vivem sob pesada sexta-feira santa ameaçadora. Há devastação e sofrimento em demasia. A via-sacra tem estações sem fim. A nossa esperança é que este padecimento se ordene a uma radiante transformação, a um novo paradigma de convivência onde não seja tão dificil tratarmos os seres da natureza com compaixão e nossos próximos com humanidade e com cuidado. Depois que Cristo ressuscitou após um fragoroso fracasso pessoal não temos mais direito de ficar tristes e de perdermos a esperança. Do caos pode vir sempre vida nova.

A história e a saga de Jesus nos oferecem um sinal credível.

 Leonardo Boff
Théologien de la libération et ancien prêtre brésilien, Leonardo Boff fut condamné par l’Église catholique pour ses prises de position. En 1985, il fut condamné à un an de « silence obséquieux ».
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