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Os anos perdidos do Cristianismo
por Leonardo Boff*

A publicação do Evangelho de Judas, escrito apócrifo tardio de natureza gnóstica, suscitou interesse geral sobre o cristianismo das origens.



10 de Maio de 2006

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Sao Paulo (Brésil)

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 Venezuela

Ultimamente esse tema tem ocupado a investigação científica especialmente nos EUA, com minuciosas pesquisas acerca dos assim chamados "anos perdidos do cristianismo", que são os anos 30 e 40 do século I, aquelas obscuras décadas posteriores à execução de Jesus. A partir dos inícios dos anos 50, com as cartas de São Paulo e, depois, com os quatro evangelhos dispomos de farta documentação. Mas o que ocorreu nos anos anteriores?

As fontes são exíguas como o evangelho de Tomé, a Didaqué e a "Quelle" (fonte), sub-texto comum aos evangelhos de São Lucas e de São Mateus, todos anteriores ao ano 50. Vários são os investigadores católicos e evangélicos que se notabilizaram nesta área como H. Köster, J.

Kloppenborg, D. Kyrtatas, P. Brown entre outros. Porém, o mais perspicaz e erudito de todos é o católico irlandês-norteamericano J. D. Crossan, presidente da secção sobre o Jesus histórico da "Society of Biblical Literature" e coordenador do "Jesus Seminar". Das várias obras destacam-se principalmente duas: "O Jesus da história: a vida de um camponês mediterrâneo judeu" (1991) e "O nascimento do Cristianismo: o que sucedeu nos anos imediatamente posteriores à execução de Jesus" (1998). Este último com mais de 600 páginas representa a combinação interdisciplinar de enfoques antropológicos, históricos, literários e arqueológicos na tentativa de reconstruir os contextos que permitiram o nascimento do Cristianismo como interação de Jesus com seus companheiros e com o mundo que os rodeava.

Aí ficamos sabendo que muitos artesãos e camponeses como Jesus e seu grupo viviam na resistência radical, mas não violenta contra o desenvolvimento urbano de Herodes Antipas e o comercialismo rural de Roma, na Baixa Galiléia, no final dos anos 20. O contexto mais geral era a cerrada oposição por parte da pátria judaica ao internacionalismo cultural grego e ao imperialismo militar romano.

O Cristianismo histórico, segundo Crossan, é fruto de três tradições que se entrelaçaram. A primeira é a Tradição da Vida que enfatiza os ditos de Jesus e propõe um modo de vida inspirado nos comportamentos libertários de Jesus. Esta tem um cunho rural, pois medrou na Galiléia rural. A segunda é a Tradição da Morte e da Ressurreição que procurava entender por que Jesus foi assassinado se depois foi ressuscitado. A ressurreição era entendida no quadro da apocalíptica que afirmava o caráter cósmico do fenômeno, o começo da renovação do mundo e da transfiguração do ser humano. Ela é mais urbana, pois foi elaborada a partir de Jerusalém. A terceira é a Tradição da comida comum. Eram comidas reais como comidas compartilhadas comunitariamente que simbolizavam a justiça eqüitativa de Deus. O importante não era o pão, mas o repartir o pão. Neste contexto se situava a celebração da eucaristia. A Tradição da comida unia as duas tradições referidas. Para a Igreja em estado nascente não eram suficientes os ditos, a vida, a morte e a ressurreição de Jesus. Tudo deve desembocar na mesa comum, na comensalidade, pois é esta que permite abrir os olhos, como aos jovens de Emaús, e reconhecer a presença divina neste mundo. Estes dados são relevantes para entender o Cristianismo em suas origens mais prático que dogmático.

 Leonardo Boff
Théologien de la libération et ancien prêtre brésilien, Leonardo Boff fut condamné par l’Église catholique pour ses prises de position. En 1985, il fut condamné à un an de « silence obséquieux ».
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Source Adital (Brasil)
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