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«No referendo estaremos confrontando dois projetos: o nosso, o bolivariano e o de Washington», afirmou o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, à centenas de milhares de pessoas que saíram às ruas de Caracas neste domingo para respaldar o governo que será submetido a um plebiscito nacional em agosto.

Na manifestação, que para muitos foi uma das maiores dos últimos anos, Chávez voltou a usar sua boína vermelha e convocou os venezuelanos a participar da Campanha de Santa Inês (batalha de Ezequiel Zamora e a oliguarquia venezuelana em 1859) no processo que a seu ver será o referendo «ratificatório» de seu governo.

“Vamos ver se é verdade que eles são maioria”, desafiou o presidente, ao convocar a população a organizar-se em uma nova campanha massiva de registro da população para “dobrar o número de votos que conseguiu a oposição”. O presidente antecipa uma das dificuldades que o governo poderá enfrentar no dia do referendo, reflexo da exclusão de milhares de venezuelanos que agora tomaram a cena política: muitos de seus apoiadores não possuem cédula de identidade ou registro eleitoral.

Fraudes e manobras

Apesar de reiterar a importância de respeitar a decisão dos reitores do CNE como fiscais dos processos eleitorais, o presidente venezuelano afirmou que seu principal oponente no referendo serão as fraudes organizadas pela oposição. Um dos rumores sobre possíveis irregularidades está na automatização dos votos: «Só a oposição pode responder porque quer o voto manual. Até onde sei o CNE tem equipamentos para fazer a eleição eletrônica», questiona o presidente.

Os membros da opositora Coordenadora Democrática, desde o dia 3, quando foi anunciado que haveria referendo, pleiteam junto ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE) que o voto seja manual. «É só uma simples pergunta, não vejo necessidade de mecanizar a votação. Em muitos lugares do país não tem energia», justifica o governador do estado de Miranda, Enrique Mendoza, um dos líderes oposicionistas.

Para o pequeno produtor rural Vicente Caldera que viajou 75 quilômetros até Caracas, para participar da manifestação, essa é mais uma manobra da oposição. ««Eles querem o voto de papel porque ficará mais fácil desaparecer com as cédulas, como eles sempre fizeram nas eleições onde ganhavam os candidatos que eles não queriam. Na verdade a oposição não queria o referendo, pensavam que o presidente não ia aceitar para poder dizer que aqui não tem democracia. Agora eles não sabem o que fazer»», afirma.

O agricultor que agora se diz aliviado com o realização do plebiscito, se mostra confiante no resultado. «Vamos acabar logo com isso para ver se de uma vez por todas eles param de sabotar o país. Eles conseguiram 20% de assinaturas no sufoco, vamos mostrar com quem está o resto da população», afirma.

Oposição marcha, contra o tempo

Dezenas de milhares de manifestantes contrários ao governo também se reuniram, dia 5, para comemorar a vitória da coleta de assinaturas e exigir que o referendo seja realizado em 8 de agosto, data acordada entre a Coordenadora Democrática, CNE e o oficialista Comando Ayacucho.

A polêmica teve início no dia 4, quando o presidente da Junta Nacional Eleitoral, Jorge Rodríguez disse que o referendo deveria ocorrer em 15 de agosto. O CNE deve anunciar nos próximos dias a data em que será realizado o referendo.

A data do plebiscito é crucial para a oposição. Se a votação ocorrer após 19 de agosto, quando se completa metade do mandato presidencial, e Chávez for revogado, o vice-presidente é quem continuará o mandato até 2007. Antes desta data, caso a oposição consiga os cerca de 3,8 milhões necessários para revogar o presidente, novas eleições devem ser convocadas em 30 dias depois do pleito.

«Vamos vencer o referendo. Queremos outro governo para trazer igualdade para a Venezuela. Não dá para seguir assim, alimentando os mais humildes, esses tem que trabalhar», afirma o publicitário Aron Alvarez que caminhava junto com a esposa e seu filho pela Avenida Francisco Miranda, zona nobre da cidade, onde vivem grande parte dos opositores do governo.

Alvarez, que diz ter participado da guarimba, protesto que em fevereiro deste ano deixou ao menos 7 mortos e dezenas de feridos e ilhou parte da população leste-caraquenha por quase uma semana, admite que a oposição ainda não apresentou um projeto alternativo ao governo Chávez, mas «estão trabalhando» para isso. «Queremos uma Venezuela livre e vamos conseguir», afirma.