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O protesto dos idosos, de amplitude nacional, reivindica aumento em suas pensões e o cumprimento, por parte do presidente Lucio Gutierrez, da determinação constitucional de reajustar as aposentadorias.

Rosita, como a maioria dos indígenas de Quito, não mora no centro moderno. A capital equatoriana, espremida entre as cordilheiras andinas, não foge à regra das metrópoles latino-americanas, que escondem e segregam seus pobres. Rosita vive em uma comunidade ao Norte da capital, em meio aos morros que cercam a cidade. O centro moderno, com seus hotéis luxuosos, bares, cybercafes e dezenas de pousadas, é uma área quase que exclusiva dos turistas - ou para quem tem dinheiro. Com vestimentas típicas e um chapéu preto, Rosita é cumprimentada por todos idosos. “Trabalhei 45 anos pavimentando ruas. Hoje, minha aposentadoria não basta para pagar minhas contas e comprar comida”, explica a equatoriana, ex-trabalhadora de uma empresa pública. Os aposentados no Equador não têm piso para seu rendimento mensal. Alguns recebem apenas seis dólares (cerca de R$ 20). “Gasto 50 dólares com luz, energia e água. Só consigo comer porque meu filho me dá dinheiro. E meu outro filho migrou para Espanha e me manda roupas”, contou Rosita.

Neoliberalismo

A luta dos aposentados (jubilados) equatorianos é mais que um conflito particular ou local. E talvez tenha sido obra do acaso para o governo de Lucio Gutierrez que o desesperado protesto dos idosos ocorresse às vésperas do início do Fórum Social das Américas. O conflito com os aposentados, que se arrastava há meses sem solução, rapidamente ganhou repercussão internacional. “Nosso dinheiro está sendo entregüe ao Fundo Monetário Internacional (FMI). O Congresso Nacional já aprovou um piso de 100 dólares para o salário mínimo e reajustes escalonados para quem ganha mais. Mas Gutierrez vetou o projeto porque diz que não foram identificadas as fontes de recurso”, explica Vicente Vargas, aposentado integrante do Comitê de Greve.

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Mais que um fato isolado, a experiência dos idosos deu rosto, suor e coragem às reivindicações de um movimento global que luta contra o neoliberalismo. “As políticas sociais e econômicas dos países da América Latina são definidas pelo pagamento da dívida externa”, avaliava Bervely Keene, da Campanha Jubileu Sul, em uma mesa de discussão do Fórum Social. Como disse Edgardo Lander, em uma conferência: “A idéia de que o Estado tenha responsabilidades sociais, como o serviço de água, educação e saúde é corrompida pelo neoliberalismo, que privatiza as relações sociais”. Ou, ainda, como defendeu José Nuñes, da República Dominicana, em um debate sobre migração: “O livre mercado dissocia a possibilidade do desenvolvimento econômico do desenvolvimento humano”.

Propostas

Fato é que um depois que começou o Fórum, o governo Gutierrez ameaçou recuar e atender a reivindicação popular. Claro, ainda não se sabe se Gutierrez vai cumprir a promessa, mas Rosita poderia voltar a comer. A pressão popular havia surtido efeito, como havia dito Lander: “hoje, está aberta a possibilidade de repensar o mundo. A construção e a resistência atravessam o país.” Ou como resumiu o sociólogo peruano Aníbal Quijano, sobre a busca por uma alternativa: “igualdade entre iguais é a redistribuição equitativa dos recursos humanos”.