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O clima no país é de tensão e expectativa. Na consulta popular em que mais de 14 milhões de venezuelanos terão de optar por encurtar ou não o mandato do presidente, as pesquisas de opinião realizadas no país, apontam que o presidente Chávez ganhará o referendo com no mínimo 10% de vantagem sobre os adversários.

Na pesquisa da North American Opinión Research no mês de agosto, a única que Chávez excede essa margem, o presidente vence o referendo por 63% de votos contra 32% dos eleitores que preferem antecipar seu mandato. Apenas 5% responderam que deixariam de votar, o que seria um salto histórico de participação, já que a média de abstenção nas eleições chega a 30% do eleitorado.

Para tirar Chávez do palácio Miraflores a oposição terá que conseguir no mínimo 3,76 milhões eleitores e superar o número de votos a favor de Chávez no dia do plebiscito. Caso consigam essa maioria, novas eleições serão convocadas em 30 dias, da qual Chávez poderá se candidatar à reeleição.

Guerra de informação

Além de protagonizarem o primeiro processo de revogatório de um chefe de Estado, os venezuelanos pela primeira vez vão participar de uma eleição eletrônica, um dos fatores que preocupa pela possibilidade de manipulação dos dados. As máquinas foram testadas e aprovadas pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE). O presidente da Junta Nacional Eleitoral, Jorge Rodríguez, garante que as máquinas estão "blindadas" contra fraude. O chefe da missão da Organização dos Estados Americanos (OEA), Valter Pecly Moreira, também creditou o bom funcionamento das máquinas.

No entanto, o processo de transmissão de totalização dos votos será feito pela central de telecomunicações Cantv, ligada à oposição. Para o sociólogo Edgardo Lander o controle da informação pode ser uma das estratégias dos setores contrários ao governo para tentar reverter os resultados. "Apesar dos testes positivos com as máquinas esse processo nunca foi utilizado. Não podemos prever a seguridade na transmissão dos dados. Podem simular falhas na eletricidade, problemas técnicos imprevistos e isso comprometer o resultado", avalia Lander.

A oposição, por sua vez, tem utilizado os meios de comunicação para criar um cenário de que o governo é quem pretende cometer fraude e impedir que seja respeitada a opinião dos venezuelanos. "Essa é um dos argumentos que a oposição poderá utilizar caso seja derrotada", comenta Lander, ao indicar que a desmobilização da oposição durante toda a campanha pré-referendo não foi despropositada. "Não se pode negar a força da oposição que tem em seu poder os meios de comunicação e o apoio da administração Bush. Eles não vão admitir mais uma derrota. A tranquilidade e a falta de uma campanha representativa faz parte de sua estratégia", alerta.

Confronto

Diante da impossibilidade, ou da estratégia, de mobilizar seus apoiadores para confrontar o amplo apoio popular de Chávez, o líder da opositora Coordenadora Democrática, Enrique Mendonza, disse que às duas horas do domingo anunciará um resultado prévio do plebiscito, no que pode representar uma declarada confrontação às regras do CNE, único órgão habilitado a transmitir os resultados do plebiscito. "Isso significa que estão preparando um cenário de desassossego para que ocorram várias alterações e não se reconheça o árbitro eleitoral", critica o presidente do CNE, Francisco Carrasquero.

Se isso ocorrer e as informações parciais contrariarem o resultado final, seja pelo "sim" ou pelo "não", o confronto entre chavistas e oposição será praticamente inevitável, já que a maioria dos eleitores de Chávez pretendem ficar nas ruas, após a votação, até que o CNE anuncie o resultado. "Um anúncio antecipado pode gerar um cenário violento antes mesmo do final da votação", comenta Lander.

Nas ruas a população que já presenciou atos de violência promovidos por setores da oposição como os assassinatos durante o golpe de 11 de abril e das barricadas de fevereiro desse ano, sabem que esses grupos estão prontos para mais um confronto. "O que eles querem é criar um clima de ingovernabilidade para justificar uma intervenção dos Estados Unidos. Não vamos permitir isso", comenta o taxista Nectali Gutierrez.

Pressão militar

Além de um possível confronto nas ruas, está prevista uma manobra marítima no Canal do Panamá, entre os dias 10 e 16 de agosto. Se trata da Operação Panamax 2004, que simulará um atentado terrorista contra o Canal com navios da Argentina, Chile, Colombia, República Dominicana, Estados Unidos, Honduras, Perú e da própria Venezuela.

Para o historiador Samuel Moncada, o exercício militar não é mera coincidência. "Aconteceu o mesmo em 11 de abril de 2002, quando ocorreu o golpe militar. É uma evidente pressão dos EUA durante o processo decisivo do referendo", avalia.

Para Edgardo Lander nenhuma possibilidade pode ser descartada quando se está em jogo o projeto dos Estados Unidos para o continente . "O que está em questão é a manutenção de um governo que tem sido referência aos movimentos sociais da América Latina. Se esse governo for derrubado será mais uma derrota para todos aqueles que já se decepcionaram com Gutierrez no Equador e com a timidez do governo Lula no Brasil", avalia o sociólogo que faz um chamado: "Em 15 de agosto todos têm que estar sob alerta".