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“O resultado demonstra que uma liderança mais decidida tem respaldo popular muito forte. O discurso de que é preciso ceder muito para manter apoio popular é uma idéia falsa. Podemos ter programas políticos muito mais avançados na região”, avalia Theotônio dos Santos, professor do curso de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O referendo foi um chamado à participação política. Como o voto não é obrigatório, os pleitos eleitorais costumam ter apenas 40% dos 14 milhões de eleitores. Mas, dia 15, quase 10 milhões participaram do referendo. “O resultado demonstra o crescimento da base social das forças de centro-esquerda e esquerda na América Latina. O índice de 58%, obtido por Chávez, é bem maior do que a esquerda conseguia historicamente. Allende (Salvador Allende, ex-presidente socialista chileno) teve 33% e, depois, chegou a pouco mais de 40%”, lembra Santos.

Esperança popular

Para a deputada Maninha (PTDF), presidente da Confederação Parlamentar das Américas (Copa), que foi à Venezuela como observadora internacional, a vitória de Chávez carrega um simbolismo que será sentido no Brasil: “O país deve aprender que não precisa se submeter a uma política econômica ortodoxa. É preciso implementar reformas profundas”. Outro observador internacional, o ator Marcos Winter, ficou impressionado pelo “sentimento de uma parcela esmagadora da população, historicamente marginalizada, de que existe de fato a possibilidade de uma vida melhor e mais justa”. Winter visitou comunidades pobres e se interessou pelo “projeto barrios”, um programa de educação universal. Para dom Tomás Balduíno, presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o processo pode se irradiar pelo continente. “A escolha dos venezuelanos tem um grande significado porque Chávez se tornou um símbolo de libertação. A mística bolivariana retoma a inspiração de Simon Bolívar, hoje, contra a colonização do mercado e da política que pesa cada vez mais sobre a América Latina”, opina. Segundo ele, a Venezuela era uma fazenda controlada por poucas famílias e a burguesia local não se conforma com a mudança de rumo do país. Dom Tomás ressalta que o desafio, agora, é buscar a reconciliação para se evitar o aprofundamento da divisão interna.

Esse foi o sentido das declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que defendeu a reconciliação política. Para o brasileiro, as diferenças devem ser resolvidas dentro do processo democrático. Lula disse que ficou satisfeito com a confirmação dos resultados do referendo pelos observadores internacionais.

João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), considerou o referendo decisivo para a geopolítica do continente. “Uma derrota do Chávez abriria espaço para a mudança da política do governo Bush para a América Latina, com uma nova ofensiva da direita a partir da consolidação de sua hegemonia nos Andes (já controlam o governo do Equador e da Colômbia). Seria aberto um novo ciclo conservador de pressões sobre Bolívia, Peru, Argentina e também Brasil”, analisa.

Durante os dias que antecederam o referendo, o MST e a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) realizaram vigílias em embaixadas dos Estados Unidos e da Venezuela em apoio ao presidente venezuelano. Para o coordenador do MST, a Venezuela caminha na direção de uma etapa de transformações: “O processo de mudanças sociais que se iniciou com a vitória eleitoral de Hugo Chávez é muito complexo e contraditório, mas inaugurou uma nova forma de fazer política em comunhão com as massas. Empobrecidas por cem anos de desmandos das elites com o petróleo e manipuladas pelo bipartidarismo da direita, as massas deram um basta. E embora não estejam organizadas de forma institucional, colocaram em marcha um processo de mudanças sociais impressionante”.