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Em 2001, quando a primeira edição do Fórum Social Mundial aconteceu em Porto Alegre, a grande imprensa brasileira - e grande parte da internacional também - só se deu conta da importância do encontro quando ele já se desenrolava na capital gaúcha. Foi a mídia alternativa que levou os debates e reivindicações dos 20 mil participantes do I FSM para a sociedade. De 2002 pra cá, o número de jornalistas da grande mídia e da alternativa credenciados para o encontro só faz crescer, assim como o próprio Fórum.

Para a próxima edição, que acontece de 26 a 31 de janeiro, dos cerca de 150 mil participantes esperados, já são 3.500 os profissionais de comunicação inscritos junto à organização. Vindos de 60 países, eles e seus veículos serão os grandes responsáveis por levar a mensagem de um outro mundo possível para os cinco continentes.

Garantir que essa informação chegue de forma completa e não distorcida aos quatro cantos do planeta é um desafio perseguido pelo Conselho Internacional do FSM desde sempre. São clássicos, aqui mesmo no Brasil, os exemplos do jornalismo que, defendendo o pensamento único, ridicularizou o Fórum Social Mundial e suas bandeiras.

Preocupada com este problema - e na esperança de tentar evitá-lo ou pelo menos minimizá-lo no V FSM - a Novib, organização que representa a Oxfam International na Holanda e que é uma das principais financiadoras do Fórum Social Mundial, convocou uma série de veículos de comunicação e de entidades da sociedade civil que lidam com o tema da mídia para desenvolverem uma estratégia para melhorar a imagem do Fórum em todo o mundo.

A Novib trabalha em parceria com outras onze organizações irmãs da Oxfam e com mais de três mil entidades locais, apoiando projetos de desenvolvimento, promovendo campanhas mundiais de conscientização e mobilização contra a pobreza e fazendo lobby junto a governos e organizações multilaterais como a OMC e o Banco Mundial. Em 2003, financiou um total de 120 milhões de euros em projetos. Um fundo administrado pela Oxfam doou 550 mil euros para o Fórum Social Mundial no ano passado.

Da iniciativa da Novib, surgiu o I Fórum Mundial da Informação e da Comunicação, agendado para o dia 25 de janeiro, véspera do FSM, também em Porto Alegre. Planejado em setembro de 2004, em uma reunião realizada em Roma, na sede da IPS (Inter Press Service) - uma agência de notícias alternativas -, que contou com a presença de ativistas, entidades e veículos que discutem a comunicação desde o I FSM, o Fórum Mundial da Informação e da Comunicação ganhou corpo e uma proposta mais ampla. Além se ser um espaço para informar melhor os jornalistas que já tiverem chegado a Porto Alegre acerca do processo Fórum Social Mundial, sua complexa rede de articulações, seu funcionamento e seus objetivos, o novo encontro também debaterá politicamente o tema da comunicação.

“É um Fórum específico para discutir o que significa a comunicação e a informação para este processo que o Fórum Social Mundial desperta. Vemos a comunicação como um grande espaço de ação política, como uma nova arena de disputa. Para nós que lidamos com a sociedade civil, que estamos preocupados como o FSM repercute na mídia, a comunicação é um espaço particular. Será então uma discussão mais ampla, a partir de uma visão política do problema”, explica Candido Grybowsky, diretor geral do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), uma das organizações brasileiras proponentes do evento.

O “problema” a que se refere Grybowsky - e do qual o próprio Fórum Social Mundial é uma das principais “vítimas” - é a crescente concentração e homogeneização dos meios de comunicação, que têm levado, progressivamente, à consolidação do pensamento único tão combatido pelos militantes do FSM. Em paralelo à essa concentração e homogeneização, os meios públicos impressos, de rádio e TV sofrem de um sucateamento brutal - mesmo no dito primeiro mundo, vide o futuro incerto do principal canal público internacional, a BBC (British Broadcasting Corporation) -, enquanto o mundo passou a tratar a informação e a comunicação como mercadorias.

O I Fórum Mundial da Informação e da Comunicação se propõe a discutir este quadro e a levantar alternativas para modificá-lo. Uma delas é a criação de observatórios de mídia, que façam um monitoramento público do que vem sendo publicado pela imprensa e garantam a pluralidade de visões em suas coberturas. Não é à toa, portanto, que o Media Watch Global, nascido em Porto Alegre durante o III FSM, é um dos organizadores deste Fórum.

Outro caminho é o fortalecimento dos meios alternativos de informação, muitos dos quais estarão presentes ao encontro, e a possível formação de uma rede entre eles. Trata-se de uma idéia que já vem sendo discutida há tempos nos corredores do Fórum Social Mundial e que tem boas chances de se concretizar este ano.

“Mas o Fórum não é exclusivo da imprensa alternativa e das entidades que o estão organizando. É aberto a todos os envolvidos com mídia. Queremos envolver todos os que se comprometem com o espírito do FSM e tentar formar uma rede entre eles, para que ela seja o braço da comunicação do Fórum”, explica o diretor do Ibase. “A comunicação do Fórum está melhor que nos outros anos, mas é preciso montar uma operação de guerra para viabilizar a informação útil para quem faz a cobertura do FSM”, acredita.

Se os resultados forem positivos, o Fórum Mundial de Informação e Comunicação pode se transformar num processo próprio e continuar acontecendo em paralelo aos FSMs - como já acontece com os Fóruns de Parlamentares, de Juízes e de Autoridades Locais, que terão novas edições este ano em Porto Alegre.

O papel da sociedade civil

A relação entre a sociedade civil, a informação e a comunicação será o tema de abertura do Fórum do dia 25. Segundo os organizadores - e partindo do princípio de que a comunicação é um espaço de disputa contra-hegemônica e, portanto, não apenas de especialistas - a luta por uma mídia mais democrática e plural só ganhará força quando todos os setores da sociedade estiverem envolvidos nesta briga. Por isso, uma das mesas de debates do Fórum abordará a Campanha CRIS (Communication Rights in the Information Society), que, internacionalmente, carrega a bandeira do direito à comunicação.

A CRIS nasceu de conjunto de ONGs e movimentos que já lutavam pela democratização da comunicação como uma proposta de uma articulação internacional para interferir nos rumos da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação (CMSI), realizada pela ONU para discutir os rumos e as mudanças advindas desta nova concepção de sociedade. A primeira fase da cúpula aconteceu em novembro de 2003, em Genebra, e a segunda se realiza no final deste ano, em Tunis, na Tunísia.

No Brasil, a CRIS surgiu oficialmente em agosto do ano passado como uma articulação de entidades, redes e movimentos que lutam pela efetivação plena do direito à comunicação e com o objetivo de incidir em diversos campos da área. Na pauta, a luta por políticas públicas e pela sensibilização da sociedade brasileira para esse tema. Já são cerca de 40 grupos com focos de atuação em áreas completamente distintas, como o Movimento Nacional de Direitos Humanos, o Grupo de Trabalho da Amazônia, a Rits (Rede de Informação do Terceiro Setor) e a Associação Mundial de Rádios Comunitárias.

“O direito à comunicação reconhece o direito individual e coletivo de que sejamos todos produtores de informação, para além de espectadores e leitores. Portanto, não basta ter liberdade de expressão, nem ter acesso a uma boa gama de fontes de informações. É preciso atuar contra as diferenças econômicas, sociais e políticas que fazem tão poucos terem condições de ser produtores de informação”, explica João Brant, membro do Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social, uma das entidades que compõem a coordenação da CRIS Brasil.

Para Brant, só é possível interferir no quadro absolutamente desigual da comunicação brasileira se a sociedade civil buscar estratégias conjuntas, na definição de uma agenda comum. “A convergência de mídias torna cada vez mais anacrônica a fragmentação das lutas. É preciso aglutinar os setores que lidam com a luta pela pluralidade e diversidade na mídia, os que buscam o direito de apropriação das Tecnologias de Informação e Comunicação, os que defendem os direitos das rádios comunitárias, os que se organizam pelo software livre, os que reivindicam um sistema de propriedade intelectual que favoreça a socialização do conhecimento e os que batalham por diversidade cultural”, acredita.

Proporcionar espaços para a construção desta agenda própria, que consiga identificar elementos comuns em meio a tantas especificidades, é apenas um dos objetivos do Fórum Social Mundial que se aproxima. E que terá às suas vésperas, no I Fórum Mundial de Informação e Comunicação, um pontapé importante para um setor essencial na luta por uma sociedade mais justa e igualitária