Para quem estava em Porto Alegre, era visível o desconforto em relação ao governo de Lula.

Foi-se o tempo em que o Partido dos Trabalhadores era uma força hegemônica no Fórum Social Mundial. Em suas realizações primeiras, grande parcela dos participantes, de dentro e fora do país, de alguma forma nutria pelo PT alguma (ou muita) simpatia. A capital gaúcha era uma espécie de “modelo”, que ao seu modo estampava a novidade, o que a época se chamava “o modo petista de governar”. E o PT aparentava representar o novo.

Hoje, findo o 5º Fórum Social, tudo estava diferente: Porto Alegre não é mais a capital política do PT e este partido já está longe, muito longe de ser algo “novo”. Todos conhecemos seu “novo modo” de governar o país, cópia turbinada da moderação servil do tucanato. E Lula, bem recebido em 2003, teve que sofrer uma operação de blindagem, para deixar seus críticos de fora e garantir para sua claque os lugares que deveriam ser livres. E desse modo tentar evitar as vaias e apupos ao artífice do Planalto. Não foi por outro motivo que, dessa vez, Lula não se atreveu a falar para todo o Fórum, como em 2003, pois seria certamente alvo de apupos de muitos e variados tipos. Mas, se a blindagem oficialesca teve alguma eficácia, deixando as oposições de fora do ato, foi melancólica a referência de Lula às múltiplas dissidências que furaram o bloqueio governista. Ao invés de tratá-las seriamente, como expressão de uma real dissidência e mesmo erosão em curso no PT - cuja base social migra das classes trabalhadoras organizadas para o campo anódino dos seguidores de marketing e de slogans -, Lula falou dos “filhos do PT que se rebelaram”. E asseverou, de modo primevo: “É próprio da juventude. Um dia eles amadurecerão e à casa retornarão” (Jornal do Brasil, 28/01/2005) E de lá saiu correndo, voando para Davos, para se encontrar com Tony Blair, Bill Gates e seus novos amigos e admiradores.

Para quem estava em Porto Alegre, era visível o desconforto em relação ao governo de Lula. Esse desconforto oscilou da inquietação e incômodo, passando pela oposição de muitos e repulsa de vários. Será enorme simplificação imaginar que o descontentamento e mesmo a revolta contra Lula é coisa de alguns “radicais”. As derrotas eleitorais em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Salvador, não foram acidentais. A erosão em curso no PT é muito mais profunda e há, dentre os descontentes, muitos filiados ao PT que mantêm a dignidade e coerência e não encontram outro caminho senão externando um desconforto profundo com os rumos de Lula e seu (des)governo.

Que erros Lula cometeu em sua cantilena? Primeiro, desconsidera que lá estavam muitos que se solidarizaram com aqueles que foram expulsos do PT, como Heloísa Helena, Luciana Genro, Babá, cujo crime foi o de terem mantido a coerência contra a subserviência que avassalou o governo. E eles não parecem dispostos a voltar ao PT, uma vez que encabeçam com pujança e despreendimento a criação do PSOL que fez uma bela estréia junto ao Fórum Social, mostrando que vai dar trabalho ao PT e à direita nos próximos anos, uma vez que quer unir a pujança das lutas sociais com a potência da força política.

Lá estavam também muitos militantes que anunciaram sua desfiliação do PT, como expressa o forte manifesto encabeçado pelo economista Plinio Arruda Sampaio Jr. e o sindicalista da CUT Jorge Martins, ambos de larga tradição dentro do PT, liderando uma lista com mais de uma centena de assinaturas, que ainda vão influenciar muitos outros militantes.

E lá estavam também tantos e tantas que atuam nas diversas tendências de esquerda do PT, muitos dos quais decidiram comunicar sua desfiliação do partido, ou para se somar à criação do PSOL, ou para auxiliar de outro modo na reconstrução da esquerda, destruída pela falência cabal do projeto de esquerda, presente na origem do Partido dos Trabalhadores. Lá estavam ainda antigos militantes do PT que há mais de uma década estão agrupados no PSTU e também não há nenhuma evidência de que voltarão ao envelhecido PT. Portanto, imaginar, como fez Lula, que se trata de “rebeldia infantil”, “imaturidade”, “falta de paciência”, “ruído”, é uma simplificação triste, de quem um dia já foi o mais importante representante do nosso solo social. Coisa que se perdeu completamente no passado. E é por isso que se pode compreender o que Lula e seu governo foram fazer em Davos: ao contrário das pulsões que brotam das lutas sociais de Porto Alegre, o PT (como o New Labour da velha Inglaterra) preferiu a companhia das transnacionais, do FMI, do Banco Mundial, da OMC. Em vez de discutir como construir “um outro mundo possível”, foi ajudar a preservar o “velho mundo”. Lula parece completar finalmente sua maioridade, estampada no completo desvertebramento de seu governo, no qual não cabem os “meninos rebeldes” do Fórum Social.

Dá para entender, então, porque, diferentemente da fala crítica e da escrita refinada de Saramago, que em Porto Alegre discorreu acerca das peripécias dos “homens duplicados” -da qual Lula é o exemplo mais recente e contundente- o artífice e seu governo talvez prefiram a garatuja de Paulo Coelho, que lá estava programado para confortar as almas dos “velhos de espírito”, fortalecendo a “auto-estima” dos magnatas com sua escrituração de “auto-ajuda”. Provavelmente, cobrando em diamantes.