JPEG - 18.8 kb

Bagdá, sexta-feira, 4 de março, começo da noite: um grupo de soldados americanos começa a instalar, a cerca de 700 metros do aeroporto internacional (ex-Saddan Hussein), um checkpoint. Todos os carros são parados. Ao longo do dia vários atentados haviam sacudido a cidade, causando 22 mortes. Um carro com quatro pessoas, a 40 km/h, se aproxima do aeroporto. Um potente holofote é lançado contra o veículo, enquanto o motorista grita: somos italianos! Os soldados atiram.

Giuliana Sgrena, jornalista refém há um mês, é ferida e seu libertador, o agente italiano Nicola Calipari é morto enquanto protegia Giuliana com o próprio corpo. Uma única bala, das cerca de 300 disparadas contra o veículo, atinge Nicola, da direita para esquerda, de cima para baixo, entrando pelo cabeça e saindo próxima da orelha. Nicola estava morto... nascia um herói nacional.

Despreparo e insegurança

A situação de segurança no Iraque deteriorou-se profunda e rapidamente após as eleições de 30 de janeiro de 2005, contrariando fortemente as manifestações de otimismo de Washington. Não só o país não se constituiu em uma democracia pelo simples fato de terem acontecidos as eleições - precárias, parciais e excludentes - como ainda as operações dos diversos grupos da resistência acirraram-se fortemente. A distribuição de baixas atuais é a seguinte: de um total de 1.681 mortos ocidentais, 1.516 são americanos, 84 ingleses, 19 italianos, 16 ucranianos, 14 poloneses, 11 espanhóis e outros tantos distribuídos pelos países da Coalizão.

O número de baixas civis continua sendo um mistério, já que o comando militar americano “tem por norma não contar vítimas civis”. Contudo, instituições confiáveis, falam em cifras entre 15 e 30 mil mortos. O Human Rights Watch fala em um mínimo de 16.381 até um máximo de 18.662 vítimas civis. Também o número de seqüestrados em poder da resistência é indeterminado, com o desenvolvimento de uma impressionante “indústria” de seqüestros.

Evidentemente ocidentais, e cidadãos dos países membros da coalizão ocupante, são os alvos principais. Nestes casos pode-se levar à humilhação dos países ocupantes, como foi o caso da Coréia do Sul, jogando a opinião pública do país contra o governo.

Entretanto, existe uma disseminação muito ampla dos seqüestros, visando pura e simplesmente produzir dinheiro, num país devastado pela guerra e paralisado pela resistência armada. Milhares de homens com treinamento militar, oriundos das forças armadas, da guarda republicana e dos serviços secretos de Saddam Hussein foram sumariamente “despedidos” pelos americanos. A maioria passou para a clandestinidade, inclusive levando consigo suas armas.

Em vez de aquartelar tais homens, mantê-los sobre controle e estrita vigilância, os americanos ofereceram à resistência um impressionante plantel de manpower. Mesmo que tardiamente, e de forma claudicante, tenha iniciado um processo de restauração das forças armadas iraquianas, o mal já estava feito. A maior parte dos quadros operacionais - sargentos, tenentes, capitães e majores - já havia adotado a resistência como nova bandeira. Os velhos, ridículos e cruéis generais de Saddam foram para cadeia, enquanto a massa de soldados vaga desamparada. Entre estes, a Coalizão tenta armar seu exército e sua polícia, tornando tais homens - em filas de alistamento, de exames de saúde ou simplesmente em busca de informações - em vítimas indefesas de carros-bomba de seus antigos superiores.

A maioria aceita ir para o novo exército por simples necessidade. São quase os únicos pagando cash no local. A maioria foge descaradamente ante qualquer ameaça de embate direto - como em Mossul, em novembro passado - ou simplesmente muda de lado aos gritos de Allah Akbar! . Um número crescente adere ao exército da Coalizão para repassar informações para a resistência, localizando-se estrategicamente no coração do inimigo. Outros, principalmente na nova polícia, simplesmente vendem as informações - em especial sobre comboios e postos de controle - ou repassam as informações, colocados sobre a pressão do terror insurgente. Muitos checkpoints organizados pela polícia são encomendados pela resistência, visando facilitar o seqüestro de ocidentais ou políticos locais.

Reféns: a nova moeda iraquiana

Não se trata somente de seqüestros políticos. Estes são, claro, os mais mediáticos, que despertam maior clamor da imprensa e movimentos de solidariedade. Na verdade, existe uma indústria contínua de seqüestros. Ao sul do país, na “pacificada” região de Basra - bem como em todo o Iraque - diariamente meninas de 10 até 16 anos são seqüestradas nas escolas, nas ruas e nas lojas comerciais. Um florescente mercado de meninas estende-se por todos os emirados do Golfo Pérsico, onde crianças são “vendidas” por quantias que variam de US$ 10 até US$ 30 mil. Em alguns casos são irmãos, inclusive meninos, que são seqüestrados. Muitas destas crianças são repetidamente estuprados antes da venda.

No caso dos ocidentais, a ação dos seqüestros atende a diversos fatores. Alguns, como no caso dos seqüestros de Daniel Pearl (no Paquistão) e Tom Berg (no Iraque), tratam pura e cruelmente de “castigar” os americanos, humilhando e chocando a opinião pública. Objetivo: a retirada incondicional do país. Em outros casos, trata-se de criar meios de pressão, mobilizando a opinião pública do oponente contra seu próprio governo, como no caso dos seqüestros de cidadãos da Coréia do Sul, Japão e Itália. Na maioria, e não de forma exclusiva, é um mecanismo de “caixa” visando produzir recursos para a resistência. De qualquer forma, a mensagem passada é clara: nenhum ocidental é bem-vindo no Iraque hoje.

O ponto central da estratégia da resistência até aqui observada reside na construção de um quadro de insegurança geral. Com o atual grau de violência no país todos os esforços para a reconstrução institucional e econômica do Iraque são praticamente inúteis. A resistência iraquiana - mais de trinta grupos diferentes estão em ação hoje - sabe perfeitamente que é incapaz de derrotar militarmente a coligação encabeçada pelos EUA. Assim, buscam o que Clausewitz chamou de “ponto de gravidade” do inimigo: a base de apoio que quando tocada desarma o equilíbrio do adversário.

Os resistentes iraquianos, como foi o caso dos Vietcongs entre 1964 e 1975, entendem que o ponto de gravidade dos EUA é político e não militar. Assim, cabe promover o maior número de ações possíveis, marcadas por ataques pontuais e retiradas rápidas, evitando uma batalha decisiva onde a superioridade de meios americana seria arrasadora. Procuram coordenador dois objetivos: provocar o maior número de baixas possíveis e evitar a reconstrução econômica do país, causando grande ônus financeiro aos americanos.

Tais objetivos poderiam levar a população americana, a médio prazo, a exigir a retirada das tropas. As exportações de petróleo, por exemplo, caíram abaixo da época de Saddan Hussein, em pleno funcionamento do bloqueio ocidental imposto ao país, com os constantes ataques ao sistema de extração e transporte de petróleo.

Giuliana Sgrena: uma arma no coração de Berlusconi

É neste contexto que devemos entender a imensa popularidade dada ao seqüestro da jornalista italiana, do Il Manifesto, Giuliana Sgrena, uma mulher valente, de orientação política de esquerda e de 56 anos, presa no Iraque. A resistência percebeu claramente que a morte de Giuliana seria um imenso dano à imagem do governo de direita de Silvio Berlusconi, já acossado por ações legais e repudiado por uma ampla maioria da população italiana no tocante ao apoio aos EUA no Iraque.

Assim, o seqüestro de Giuliana obrigou Roma a uma dura negociação. Como já havia duas experiências anteriores, com soluções felizes, a resistência teve completa credibilidade para negociar e, ao mesmo tempo, aumentou sua “mão”. Exigiu uma quantia elevada - fala-se em mais de US$ 1.300 mil, além de uma “exigência” política, que iria concretizar-se no prazo de uma semana após a libertação de Giuliana.

A Itália optou, assim, e logo após a perda de 11 bersaglieri, por uma presença discreta e eficiente no cenário de guerra. Civis, com forte formação em ciências humanas, autônomos simultaneamente em relação ao Ministério de Relações Exteriores italiano e em relação ao comando militar americano, e capazes de tecer uma ampla rede de contatos com todos os setores envolvidos no conflito iraquiano, passaram a dirigir os procedimentos de libertação de reféns.

A Itália decidia-se por negociar. Foi uma dura decisão para o governo do Cavalieri Berlusconi. Não havia consenso político suficientemente denso no país para justificar as cenas de decapitação como as que se deram cruelmente com Pearl ou Berg. A Itália, que não fora atacada pelos mujahidin, não vivera qualquer 11 de setembro, não tinha estômago para ver seus filhos sacrificados como carneiros numa cerimônia religiosa.

A decisão italiana, após a libertação das “due Simoni” (Simona Torreta e Simona Pari, seqüestradas no final de 2004 e resgatadas pelo serviço secreto italiano), contrariava frontalmente a política de segurança americana no Iraque.

Desde de o primeiro momento do seqüestro a decisão era pela negociação. O fato do jornal Il Manifesto ser de ferrenha oposição ao governo de direita em Roma e crítico do engajamento italiano numa “guerra de Bush”, impunha maiores constrangimentos. Berlusconi, e seu ministro do exterior, o “pós-fascista” Gian Carlo Fini, não poderiam aparecer como tendo abandonado uma mulher, ativista política, nas mãos dos mujahidins iraquianos. Estes, por sua vez, estavam decididos a fazer a Itália pagar caro sua amizade especial com a América.

É neste contexto que Nicola Calipari assume as negociações para libertar Giuliana Sgrena.

Nicola Calipari: um simples policial

Nicola nasceu no conturbado sul italiano, em Reggio Calábria, em 26 de junho de 1953. Estudou Direito, o que o habilitou a fazer a carreira policial, na qual ingressou por concurso em 1979. Servindo em Genova, Cosenza e Roma adquiriu uma conhecida fama de pessoa humilde e humana, embora rigoroso no cumprimento de missões e tarefas. Mesmo no variado submundo romano passou a ser respeitado por prostitutas, pequenos delinqüentes, adolescentes de rua e vendedores ambulantes, ao mesmo tempo que os colegas policiais o consideravam como um irmão. Cultivava relações de respeito e profissionalismo com a imprensa romana. Cooperou largamente com a Interpol, o que permitiu familiarizar-se com a vida em outros países e aperfeiçoar o aprendizado de idiomas.

Em 2002 ingressou no Sismi/Serviço de Inteligência Militar. Era um passo decisivo e difícil. Nos anos 70 e começo dos 80, o Sismi estivera envolvido em corrupção e transações políticas anti-democráticas, vigiando a esquerda italiana e vendando informações para magnatas nacionais e estrangeiros. A função de Nicola era profissionalizar a experiência do Sismi, fundando um novo departamento: o Serviço de Operações no Exterior..

O novo departamento, para evitar as transações burocráticas, o uso político e mesmo a intromissão na vida privada dos cidadãos foi colocado diretamente sob a chefia do Gabinete de Governo, tornando o Primeiro-Ministro (chefe do Executivo) responsável direto por suas ações.

Era nele que Silvio Berlusconi confiava em sua hora da agonia. Nicola já estava casado, com Rosa Maria, com quem tinha dois filhos: uma moça de 19 anos e um ragazzo de 13 anos. Não se enganava com as tensões permanentes no interior do Sismi e de seus departamentos: “Sei que o Sismi tem uma história constelada de opacidades, de desvios institucionais, de espionagem ao serviço dos poderosos”, afirmava ele. Mesmo assim, acreditava plenamente que o Serviço era indispensável e que deveria ser trazido para a área de luz das democracias modernas.

Neste sentido, desdenhava claramente o “secretismo” enquanto cultura oficial dos serviços e considerava a discrição importante mas, após as operações, considerava impositivo a divulgação dos relatórios e a prestação de contas junto ao poder legislativo, representação da nação, afirmando que “nossa informação deve circular o máximo possível”, posto que o secretismo “só defende interesses particulares, não a segurança nacional”.

Desde 2004 estava no Iraque, onde passara a conhecer o terreno e inteirar-se dos meandros da resistência. Ao liberar três seguranças privados italianos presos pela resistência, conseguiu - através de arranjo pessoal - que os soldados americanos encarregados de vigiá-lo aceitassem a encenação de um “assalto” para justificar o desaparecimento do dinheiro (os soldados americanos também são alvo de seqüestros, goste ou não o governo em Washington). A “malandragem” de Nicola deu certo, porém irritou profundamente aqueles que gostariam de impedir o pagamento de resgates.

Em seguida negociou com sucesso a libertação das “duas Simonas”, voluntárias sociais aprisionadas pela resistência.

Nicola: mudando a política da Itália

O caso seguinte foi a libertação de Giuliana Sgrena, seqüestrada em 4 de fevereiro. O caso de Giuliana mostrou-se bem mais complexo, difícil e enredado em intrigas internacionais. Nenhum dos recursos italianos no local, embaixada ou comando militar, podiam ser acionados. Vários setores militares eram contra as negociações e os serviços diplomáticos estavam monitorados.

Toda a movimentação de Nicola e seus dois companheiros, no Iraque, tivera que ser clandestina, escapando da vigilância americana e sem garantias em torno de alguns “apoios” italianos no local, profundamente ligados aos EUA.

O “canal” principal de negociação foram os antigos membros do serviço de espionagem de Saddam Hussein. Conhecidos ainda no tempo do regime baasistas - eram responsáveis pela checagem de contatos, inclusive comerciais -, passaram a servir de ponte entre serviços ocidentais - e aí agia Nicola - e a resistência. Qual o grau de autonomia de tais “transmissores” resta uma incógnita. Sua chegada a eles se fazia por uma diáfana rede de delinqüentes comuns, contrabandistas e marginais de todo tipo: “é um erro pensar que existem separadamente delinqüentes comuns, resistência armada e terrorismo, porque no terreno iraquiano todos estão mesclados e, às vezes, uma mesma pessoa são as três coisas a uma só vez”, diria Nicola.

A partir de tal metodologia de campo, Nicola negociou a libertação de Giuliana, de um cativeiro de exato um mês (4 de fevereiro até 4 de março de 2005). Organizou sua saída do país, atravessando Bagdá - onde sempre estivera Giuliana - levando-a até o aeroporto. Há apenas 700 metros da liberdade, acenderam-se os holofotes do checkpoint americano. Nicola assumiu, pela última vez, suas funções: cobriu com o próprio corpo Giuliana Sgrena.

No serviço religioso na basílica de Santa Maria dos Anjos em Roma, em face à família, contida e com olhos aéreos, Simona Torreta falou de Nicola: “uma pessoa maravilhosa, uma pessoa simples. Foi quem me libertou”. Tal qual as prostitutas, travestis e camelôs de Roma, todos eram unânimes em concordar: em momento algum Nicola usou de sua coragem e generosidade, em função pública paga pelo povo italiano, para auto-promoção ou para alpinismo social ou carreirismo político. Seu chefe imediato, o homem que lhe ordenara ir para o Iraque, em face ao corpo declarava: “Nicola, como se diz em toda Itália, tu eras simplesmente um policial, responsável, prudente, um homem que inspirava confiança, tranqüilidade. Hoje toda nação te agradece”.

Após a cerimônia, enquanto o chanceler italiano considerava a nota americana “lamentando” o “incidente” como insuficiente, o primeiro-ministro Berlusconi anunciava um calendário de retirada da Itália do Iraque. Mais tarde, pressionado diretamente por Bush, recuará, abrindo grave crise política e de credibilidade.

Enfim, Nicola Calipari (Reggio, 1953-Bagdá, 2005): l’eroe più vero e più umano.