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Roberto Marinho se imortalizou como um dos mais destacados homens de negócios do Brasil. Empreendedor obstinado, visionário, transformou o jornal herdado de seu pai aos 26 anos no epicentro de um dos mais espetaculares conglomerados de comunicação de nosso tempo.

Mas Roberto Marinho foi mais que isso. A partir do surgimento da TV Globo, na década de 60, ele se converteu num dos homens mais influentes do país e passou a imprimir sua marca na cultura brasileira, como nenhum outro antes o fizera, dando novos contornos aos nossos costumes, aos nossos sonhos e até mesmo às nossas fantasias, como bem assinalou a escritora Nélida Piñon.

Seus produtos jornalísticos, suas novelas, todo o universo por ele criado para entreter, informar e educar, ancorado no estrondoso alcance da televisão, acabou por se integrar ao nosso cotidiano, ao nosso inconsciente coletivo e ao nosso modo ver o mundo.

A partir desta semana, o público paulistano e todos os visitantes que passarem pela cidade de São Paulo terão a oportunidade de conhecer uma outra faceta deste extraordinário personagem: a de grande colecionador de arte.

Hoje, terça-feira, o Museu de Arte Moderna de São Paulo abre em sua sala principal a mostra O Século de Um Brasileiro - Coleção Roberto Marinho, com 150 obras selecionadas entre os mais de 1.300 trabalhos amealhados pelo jornalista desde 1931, data em que começou a montar sua pinacoteca particular.

A coleção é um passeio pelo melhor da produção brasileira do início do século XX aos dias atuais, com trabalhos de Aldemir Martins, Tarsila do Amaral, Ismael Nery, Lasar Segall, Di Cavalcanti, Guignard, Volpi, Iberê Camargo e Burle Marx, numa lista interminável de grandes nomes de nossas artes visuais.

O acervo que será exposto ao público, foi sendo construído , em grande parte, com base nas relações afetivas mantidas por Roberto Marinho com os artistas de seu tempo. Esta relação fraterna com pintores e escultores o levou a adquirir peças de nomes que só muitos anos depois viriam figurar entre os consagrados da arte brasileira.

Muitos dos trabalhos por ele reunidos foram produzidos, inclusive, diante de seus olhos. Ele costumava frequentar os ateliês do Candido Portinari, de quem se tornou grande amigo, e de José Pancetti, que ficava atrás do prédio de O Globo, no Rio, entre outros, numa época em que não havia ainda a figura dos marchands para intermediar as relações com os compradores.

O fabuloso recorte desta coleção que agora chega ao público paulistano está repleto de pontos altos. No MAM, o público poderá admirar várias peças que encantaram Roberto Marinho e muitas das obras que enfeitaram os salões de sua casa no Cosme Velho, onde o jornalista passou a maior parte de sua vida recebendo nomes ilustres da intelectualidade, do mundo da política e dos negócios.

Entre os destaques estão a tela “O Boneco”, de Pancetti, que comovia profundamente Roberto Marinho, evocando memórias de sua infância, o quadro “Mulheres na Rua”, de Di Cavalcanti, que enfeitava a sala de estar de sua residência, bem como “Kaddish”, de Lasar Segall, que também estava entre as obras as peças de sua predileção.

Neste percurso imperdível, o público também poderá admirar obras que traduzem momentos históricos da vida brasileira, como, por exemplo, a primeira metade do século XX, onde se travou a dura batalha dos artistas para firmar as noções de brasilidade entre nós, superando os academicismos europeus reinantes até então.

Os visitantes do MAM também poderão se encantar com o melhor do abstracionismo brasileiro, com peças de Manabu Mabe, Tomie Ohtake e as coloridíssimas telas de Jorginho Guinle.

Passear pelo universo da coleção que estará exposta no MAM até 22 de maio, é uma maneira de recompor a história de um país em transição. É também uma maneira de conhecermos um pouco melhor este homem de fala mansa e gestos elegantes que esteve no centro dos acontecimentos mais importantes do país nos últimos anos. Com esta coleção, mais uma vez temos a oportunidade de espiar o Brasil, guiados pelo olhar atento de Roberto Marinho.