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Dom Pedro Casaldáliga

D. Pedro Casaldáliga, 77, punido durante o pontificado de João Paulo 2º por sua atuação progressista como bispo de São Félix do Araguaia (MT), não acredita numa mudança significativa na igreja: "Minha impressão é que a imensa maioria dos cardeais é de uma linha mais ou menos conservadora, de continuidade".

Casaldáliga diz que a igreja foi "dura" e "injusta" com os teólogos da libertação e que as ações em favor das minorias, pelas comunidades eclesiais de base, foram vistas pelo Vaticano com "desconfiança" e "reticência".

No sábado à noite, ele rezou pelo papa: "Tenho confiança de que ele está na glória". Sofrendo do mal de Parkinson, a mesma doença que afligiu João Paulo 2º , hipertenso e sobrevivente a várias operações e a 18 ataques de malária, d. Pedro Casaldáliga mantém o bom humor. Diz que é um "cavalo velho, um pouco cansado".

O bispo espanhol relembra o encontro com o papa de origem polonesa, após ter sido interrogado por cardeais no Vaticano. Karol Wojtyla o abraçou e disse em português: "É para que veja que não sou nenhuma fera".

- Qual é a sua esperança em relação ao futuro pontificado?

- Vou ser bem sincero. Eu não tenho esperança de uma mudança significativa. Minha impressão é que a imensa maioria dos cardeais é de uma linha mais ou menos conservadora, de continuidade, sobretudo no [aspecto] teológico, no canônico, dentro da igreja. Mas cada papa tem um estilo. De vez em quando acontecem surpresas...

- O sr. tem pregado uma revisão do exercício do papado e do poder da Cúria. Quais seriam as principais mudanças?

- Fundamentalmente, que o Vaticano deixasse de ser Estado. O papa deixaria de ser chefe de Estado. Que a Cúria se simplificasse o mais possível, e se concedesse mais autonomia às conferências episcopais, às igrejas particulares, ou seja, as dioceses, as prelazias. Que se estimulasse o ecumenismo, um diálogo entre as religiões e entre as culturas, sobretudo no Terceiro Mundo.

Que houvesse uma atitude de sensibilidade máxima com o sofrimento da humanidade, de cooperação com todas as entidades que lutam pela justiça, pela paz, pela ecologia. E que se atendesse melhor às reivindicações dos leigos, sobretudo no que se refere à mulher. Uma confiança maior com respeito aos servos que abrem caminhos, seja na Teologia da Libertação, na teologia feminista, na teologia negra, na teologia indígena, no diálogo interreligioso.

- Como foi o pontificado de João Paulo 2º, nesse aspecto?

- No pontificado de João Paulo 2º, a Cúria foi dura. E às vezes, com todo o respeito, acho que foi até injusta com os teólogos da libertação, da inculturação e do diálogo interreligioso.

- O pontificado muito longo é ruim para a missão da igreja?

- Eu continuo achando que os papas, como os bispos, deveriam renunciar numa idade determinada. Eu não acredito em cargos vitalícios, nem na sociedade nem na igreja.

- Quais foram os reflexos da igreja de João Paulo 2º sobra a sua prelazia e sobre a sua atividade?

- Só desconfiança com respeito à Teologia da Libertação. E só reticência com respeito às comunidades eclesiais de base. Houve um relacionamento tenso entre o Vaticano e a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros]. Entre a igreja da libertação da América Latina e o Vaticano. Por outra parte, o próprio papa mandou à assembléia da CNBB aquela famosa carta na qual dizia que a Teologia da Libertação era não só útil, mas necessária.

- Como foram os seus contatos pessoais com ele?

- Estive com ele em várias ocasiões. Fiz uma visita, depois de ter escrito uma carta longa. Foi na década de 80...

- Como ele o recebeu?

_ - Com bastante atenção. Eu já havia sido interrogado pelos cardeais sobre vários pontos. O papa tinha todo dossiê das minhas interrogações. Conversamos um pouco...

- O que ele disse?

- Ele teve um gesto. Num momento determinado, ele abriu os braços, como quem quer mostrar o desarme, e falou, em português: "É para que veja que não sou nenhuma fera".

Folha de Sao Paulo