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Renúncia presidencial na Bolívia. Protestos paralisam as estradas do país. Possibilidade de intervenção do Exército contra os manifestantes pode desencadear onda de violência. Essas notícias voltaram a ocupar as manchetes dos jornais há pouco mais de três semanas, mas não causaram mais surpresa.

A grave crise social e política vivida pela Bolívia se agravou de tal maneira, desde as últimas décadas do século passado, que tornaram cíclicas as ondas de manifestações que paralisam o país e, não raro, desembocam em atos de violência que cada vez mais abalam as instituições políticas locais.

Nenhuma análise deste cenário pode desconsiderar suas causas econômicas. A Bolívia, país mais pobre da América do Sul, vive uma situação de fragilidade econômica que faz com que mais da metade da população viva em estado de pobreza. A economia primário-exportadora sempre privilegiou uma elite caudilhesca criola, enquanto os indígenas, que junto com os mestiços perfazem cerca de 85% da população, amargaram desde o período colonial uma situação de exclusão social.

Porém, procuradas as causas para compreender o quadro gerado a partir dos anos 90, quando os movimentos sociais indígenas assumiram o papel de principais protagonistas no conflito social, fato até então inédito, vê-se como o discurso cultural pela revitalização da identidade indígena foi fundamental na coesão alcançada por aqueles movimentos.

Cocaleros

Um dos principais atores da nova cena política foi o movimento cocalero, nascido como oposição à campanha de erradicação dos plantios da folha de coca, levada a cabo pelo governo boliviano e apoiada pelos EUA.

Em seu discurso, os cocaleros defendiam a folha de coca por seu valor de hábito cultural remanescente do antigo império inca, e que ainda hoje é ligado aos usos e costumes das populações andinas. A pressão do governo dos Estados Unidos para a erradicação da coca, vista como uma afronta à soberania nacional, apenas serviu para fortalecer o discurso indígena com um forte componente antiestadunidense, o que contribuiu para o crescimento do Instrumento Político para a Soberania dos Povos/Movimento ao Socialismo (IPSP/MAS), braço político do movimento, entre os setores urbanos, em especial os estudantes e sindicatos de esquerda.

Porém o MAS e os cocaleros são apenas parte do cenário, a que buscou por meio da via político-partidária chamar a atenção para suas demandas. Outros movimentos, em especial os ligados à etnia aymara, correm à margem das vias e instituições políticas tradicionais e têm um discurso cultural ainda mais forte do que o do MAS.

NACIONALISMO Ancorados em instituições como a Taller Oral de Historia Andina (Thoa), os aymara querem, entre outras coisas, a restituição do ayllu, a estrutura de organização territorial básica das populações andinas, comunidades autônomas baseadas em laços de parentesco, em um sistema de produção comunitário e com formas autônomas de autoridade. A Thoa prega um nacionalismo indígena com aspirações à soberania, o Kollasuyo, cujo símbolo máximo é a whipala, a multicolorida bandeira inca que é o principal símbolo visto nas manifestações populares do país.

O fortalecimento do discurso étnico-cultural e a revalorização da contribuição indígena para a construção social da Bolívia são elementos importantes e necessários para um país onde as etnias indígenas foram historicamente vítimas da exclusão social.

Ao se apoiarem em elementos culturais comuns à grande maioria da população do país, e que evocam um passado glorioso para as comunidades andinas, os movimentos sociais indígenas alcançam uma inédita coesão e força para exigir o acesso a níveis mínimos de cidadania. E têm a expectativa de que seu passado de glórias lhes dê o direito de esperar um futuro feliz, e de lutar por desfrutá-lo.

Marcelo Câmara é professor de Geografia e mestrando de pós-graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul com a tese “Os Movimentos Sociais Indígenas e a Construção de Identidades Sócio- Territoriais na Bolívia”

Brasil de Fato