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O corpo do papa João Paulo II chegou à Basílica de São Pedro nesta sexta-feira (8) e foi sepultado nas grutas vaticanas. O local escolhido foi a cripta ocupada por João XXIII até o ano 2000, data em que foi canonizado. O sepultamento ocorreu durante uma cerimônia a portas fechadas, na qual foram admitidos apenas membros da chamada "família pontifícia" e altos prelados.

Agora, o evento mais aguardado no Vaticano será o Conclave, a reunião dos cardeais que começa dia 18 e definirá o novo papa. Para o professor de Teologia das Religiões na Universidade Federal de Juiz de Fora Faustino Teixeira, as “perspectivas [dessa escolha] não são muito alvissareiras”. “O quadro geral do episcopado mundial foi quase em sua totalidade formado no contexto de uma dinâmica institucional restauradora e centralizadora”, diz ele, que é é doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e colaborou com a Carta Maior durante a cobertura do 5º Fórum Social Mundial. A seguir, leia a entrevista exclusiva concedida por Faustino Teixeira.

- Qual o balanço do pontificado de João Paulo II?

- Sob o ponto de vista da dinâmica institucional, o pontificado de João Paulo II foi marcado por um grave processo de centralização da igreja católico-romana e uma definida afirmação de identidade, que provocou um abafamento da autonomia das conferências episcopais, cerceou ou bloqueou o desenvolvimento das pastorais mais comprometidas com os processos sociais e reprimiu a dinâmica criativa da reflexão teológica.

Mas não se pode negar, ao mesmo tempo, a significativa presença de gestos proféticos de João Paulo II, sobretudo no âmbito da ação externa da igreja, seja na luta em favor da paz e contra a guerra, seja no empenho ecumênico e no diálogo inter-religioso. Gestos novidadeiros e paradigmáticos aconteceram em eventos diversificados como a Jornada Mundial de Oração em Assis (1986), no encontro com os jovens muçulmanos em Casablanca (1985), na visita à sinagoga de Roma (1986) e ao monumento de Gandhi, na Índia (1985), bem como na importante peregrinação à terra santa (2000).

Há que lembrar, igualmente, a profética e ousada oposição do papa contra a invasão do Afeganistão e a guerra no Iraque, na contramão de uma cruzada americana em favor do choque de civilizações. Muitos desses gestos causaram perplexidade e oposição da cúria romana e levaram o papa a viver uma certa situação de “solidão institucional”, como lembrou o vaticanista Giancarlo Zizola. O pontificado é marcado por esta aporia: gestos proféticos que se contrapõem a precisas e infelizes escolhas institucionais.

- Qual o balanço da cobertura da mídia a partir de sua morte?

- É de fato impressionante a cobertura que vem sendo dada pela mídia, e também chama a atenção o grau de envolvimento das pessoas, religiosas ou não, em torno da morte do papa. De fato, com João Paulo II o papado ganhou inusitada projeção universal. Num tempo de marcada violência e de fascínio pelo mal, ele se afirmou como autoridade moral de grande importância, e isto positivamente. Não sem razão, Carlos Heitor Cony expressou que o papa firmou-se como “ícone branco do Ocidente”, um porta voz profético da luta em favor da paz.

Mas há ainda um outro fator de sua trajetória pessoal que é muito importante: a dimensão mística de sua personalidade, a atenção permanente à vida de oração. É no segredo desta raiz mística que se firmou sua convicção sobre a sacralidade da dignidade humana. Num tempo marcado pelo “pensamento débil”, pela “crise das narrativas” e pelas relativizações, o papa vem reforçar o sentido de uma relação positiva com o sagrado, que fornece um referencial e fundamenta a dinâmica vital.

Não há como apagar da memória a força de seus gestos, de suas orações, dos silêncios dolorosos, como aconteceu em Israel diante do memorial de Yad Vashem, dedicado aos seis milhões de judeus mortos na trajédia da Shoah, bem como na visita ao campo de refugiados palestinos de Dheisheh. Em sua rica biografia sobre o papa, o jornalista Bernard Lecomte assinalou que “se tivesse que ficar apenas uma foto do ponficado de João Paulo II” seria a do papa em Jerusalém, no muro das lamentações, com sua veste branca contrastando com as grandes pedras claras e reluzentes, grávidas de história. Por um minuto o papa permanece só diante das grande pedras.

Apóia sua mão trêmula sobre a pedra, a acaricia e permanece em silêncio: busca comungar do fluido que emana deste lugar simbólico. Depois de percorrer com o olhar cada fissura das pedras, deposita sua mensagem com o pedido de perdão. Gestos como estes falam muito mais forte do que os documentos reticentes, e são capazes de ampliar os horizontes e revelar aberturas inusitadas.

- Duas imagens deste pontificado se fixaram: João Paulo II, o papa conservador, antiaborto, antipreservativos, anti-homossexualidade, por exemplo; e João Paulo, o papa hipermoderno, o papa midiático, do diálogo inter-religiões, das críticas à guerra do Iraque. Qual o legado, afinal, deste papa para o futuro da Igreja.

- De fato, estamos diante de um João Paulo II “bifronte”, como fala Zizola, de gestos proféticos que se contrapõem, dolorosamente, a precisas escolhas institucionais. Mas a memória capta sobretudo os traços que fazem avançar e que apontam a horizontes novos. Nesse sentido, o legado mais importante não se relaciona com as atitudes intransigentes e anti-modernas de sua dinâmica institucional, mas com seus gestos grávidos de futuro, como sua opção pela paz e radical aversão à guerra. Diante do corpo diplomático, em janeiro de 2003, expressa sua radical oposição à guerra no Iraque: “a guerra é sempre uma derrota para a humanidade”.

- Estivemos juntos recentemente na cobertura do Fórum Mundial de Teologia e Libertaçào, onde ficou patente a extraordinária riqueza dos temas atualmente abordados neste campo: feminismo, mutissexualidade, pluralismo geográfico. Há um contraste enorme com a estreiteza presente nas interpretações da cúpula de cardeias que ditam as normas políticas a partir do Vaticano. Isto não é um abismo problemático parao futuro da Igreja?

- Nada mais salutar e urgente para a teologia do que um espaço precioso e garantido para o seu aprofundamento livre e sua criatividade hermenêutica. Nestes quase 27 anos de pontificado foram inúmeros os teólogos que sofreram punições injustas e violentas, tanto no campo da teologia moral, da teologia da libertação e da teologia do pluralismo religioso. Mas apesar do difícil contexto da conjuntura eclesiástica internacional, inúmeros teólogos e teólogas de todas as partes do mundo continuam teimosamente vivos no seu projeto de repensar a fé a partir de novos contextos e novos desafios. O Fórum Mundial de Teologia e Libertação foi uma expressão desta criatividade.

- Duas avaliações correntes: João Paulo II centralizou a Igreja em torno do papado e de Roma, preservando a sua unidade; a Igreja está perdendo contato com a juventude, os temas contemporâneos de liberdade comportamental, com a necessidade de transformações sociais, e por isso está perdendo fiéis. Há contradição nestas avaliações?

- De fato, pesquisas importantes têm demonstrado o crescente distanciamento dos jovens das práticas religiosas instituídas. Na Itália, importâncias pesquisas realizadas pelo educador Mario Pollo têm indicado que as novas gerações, entre 18 e 24 anos estão cada vez mais distanciadas da fé católica. No Brasil, são significativas as conclusões de uma pesquisa sobre o perfil da juventude brasileira, e as análises tecidas pela socióloga Regina Novaes a respeito dos jovens “sem religião”.

Ela mostra com muita clareza o crescimento dos adeptos de “formas não institucionais de espiritualidade” e o declínio histórico do catolicismo no Brasil. São questões que não podem ser descartadas nas discussões que cercam as indicações para o novo pontificado. O distanciamento de uma parcela significativa da juventude das instituições tradicionais produtoras de sentido guarda um preciso significado e um alerta para a igreja, com sua tradicional dificuldade de acompanhar os desafios do tempo.

- Quais as perspectivas para a eleição de um novo papa?

- As perspectivas não são muito alvissareiras... O quadro geral do episcopado mundial foi quase em sua totalidade formado no contexto de uma dinâmica institucional restauradora e centralizadora. O risco de continuidade na política eclesiocentrada é grande. Mas há que acreditar em possibilidades alternativas. A igreja católico-romana não pode manter-se distanciada dos grandes desafios da história. Daí a importância de manter aceso o espírito do Vaticano II, que abriu frestas de liberdade no campo eclesial. O descompasso com o tempo aumentará ainda mais o fosso que separa a juventude da igreja.

- As avaliações em torno da escolha do novo pontífice centram-se em questões de natureza política no sentido mais estrito: será ele do terceiro mundo, será conservador, será progressista, será moderado, etc. Mas recentemente estiveste cobrindo o eixo das espiritualidades no Vo. Fórum Social Mundial em Porto Alegre. Qual a situação da Igreja e dos estudiosos dos temas de religião quanto a este tema no mundo de hoje?

- O nosso tempo está desgastado com a presença invasiva de novos e problemáticos “valores”, associados ao mundo do trabalho capitalista; valores que abafaram ou relegaram a um sendo plano valores sociais milenares relacionados às tradições religiosas. O que hoje predomina são os “valores” da racionalidade do mercado, como a competição, a produtividade, o sucesso, o individualismo e o consumismo.

A sede de espiritualidades que se verificou em vários espaços temáticos do Fórum Social Mundial, e em particular no espaço K, traduz uma nova busca, uma revolta contra um mundo desencantado, carente de valores e utopias.

A retomada das espiritualidades expressa o protesto contra um mundo carente de sentido e de referenciais de navegação. As cruciais questões relacionadas ao cuidado, à cortesia e hospitalidade acompanham esta nova sensibilidade. Em certo sentido, a figura carismática do papa recolocou esta questão para o nosso tempo.

Agência Carta Maior