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Como manda o ritual, Karol Józef Wojtyla é chamado três vezes por seu nome de batismo, mas já não responde. O carmelengo (cardeal que assume interinamente a administração da Igreja) bate sutilmente na testa de João Paulo II com um martelo de prata e diz: “O papa está morto”.

Em Roma, são 21h37 do dia 2 de abril de 2005 quando encerram-se os 84 anos de vida e quase 27 anos de pontificado do primeiro papa não-italiano, em quase 500 anos. O 263º sucessor do apóstolo Pedro.

Os indícios da vocação marqueteira de Wojtyla apareceram em outubro de 1978, quando foi escolhido papa. Ao assumir o nome de João Paulo II, sob o pretexto de homenagear seu antecessor, ele absorvia em sua pessoa, numa só tacada, o legado de Paulo VI e de João XXIII - dois papas progressistas que patrocinaram mudanças radicais na Igreja.

Caça às Bruxas

“Num primeiro momento, se esperava que João Paulo II reforçasse o Concílio Vaticano 2º, apesar de que Wojtyla, no próprio Concílio, havia manifestado atitudes teologicamente fechadas”, diz o bispo dom Pedro Casaldáliga, um dos apoiadores da Teologia da Libertação. De acordo com ele, as coisas começaram a ficar mais claras quando João Paulo II se posicionou contra a revolução sandinista na Nicaraguá.

“Ele era uma fi gura de caráter forte, que se sentia no dever de salvar a unidade e a integridade da Igreja. Mas para isso trabalhava de um modo um pouco áspero, tenso, criando essa sensação de controle, de centralização, de desconfiança, mantendo uma Cúria feita à sua imagem e semelhança: conservadora teológica e canonicamente”, completa Casaldáliga.

O próximo Papa

Segundo Frei Betto, um dos teólogos da libertação, a rigor, qualquer católico do sexo masculino é virtual candidato e poderá vir a calçar as sandálias do Pescador: “Mesmo um leigo pode ser eleito. Nesse caso, será imediatamente ordenado padre e bispo, como ocorreu com João XIX (eleito em 1024) e Benedito IX (eleito em 1032)”.

Como essa possibilidade é nula, o próximo papa, em tese, será o cardeal que melhor lidar com os seguintes temas: evangelização, crise da fé e das vocações, herança do Concílio Ecumênico Vaticano 2º, colegialidade nas decisões da Igreja, papel da mulher e dos leigos, questões de ética e bioética e moral sexual. Não deve ser um papa tão novo quanto João Paulo II, escolhido aos 58 anos, pois há a tradição de alternância entre pontificados longos e curtos.

“Esperamos que seja um papa da América Latina, da África ou da Ásia”, declara Frei Betto. “Um homem que abra, na Igreja, o debate em torno dos temas congelados por João Paulo II: células-troncos, moral sexual, celibato facultativo, papel da mulher na Igreja, uso de preservativo, epidemia da Aids, movimento ecumênico, decréscimo no número de fiéis e padres. Sobretudo, um papa que sobreponha o Evangelho ao direito canônico, o amor à lei, a misericórdia à disciplina, a justiça às conveniências, a alegria à dor, a liberdade à opressão”, finaliza Frei Betto.

O importante, na opinião de dom Casaldáliga, não é que o papa seja de um lugar ou de outro: “O que conta é sua visão, sua postura, sua atitude. Pode ser alguém do Terceiro Mundo, mas de tendência conservadora. Também pode ser um africano, mas é importante que seja um africano, africano, não um africano ocidentalizado”.

Sobre as chances de dom Claúdio Hummes se tornar o próximo papa, dom Casaldáliga lembra que ele também é “um homem da Cúria Romana”. Canonicamente, é mais conservador, apesar de ter tido papel importante, em Santo André, na época da ditadura militar, quando deu respaldo às reivindicações dos operários.

Brasil de Fato