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Joseph Ratzinger

O cardeal alemão Joseph Ratzinger, de 78 anos, é o novo líder da Igreja Católica. Ratzinger, considerado o braço direito de João Paulo II, foi eleito nesta terça-feira (dia 19) o 265º papa da história e adotará o nome de Bento XVI. Para quem esperava um papado menos conservador, a escolha de Ratzinger foi frustrante.

O novo papa foi, durante 23 anos, guardião da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, órgão sucessor do Tribunal da Inquisição (foi renomeado em 1908 pelo papa Pio X), e principal centro de ataque às idéias da Teologia da Libertação e de setores progressistas da Igreja Católica.

Ratzinger reprimiu com força teólogos como Leonardo Boff, sob o argumento de que eles estariam se afastando da verdadeira doutrina da Igreja. Assim como João Paulo II, o novo papa tem posições conservadoras sobre temas como controle da natalidade, diálogo entre as religiões, prevenção da aids, homossexualismo e papel das mulheres na igreja.

As declarações de Ratzinger sobre esses temas expressam bem o tom de seu conservadorismo. Ele considera, por exemplo, a homossexualidade como “uma depravação e uma ameaça à família e à estabilidade da sociedade”. Em 2003, Ratzinger preparou uma campanha mundial contra a legalização da união civil homossexual, pedindo aos políticos católicos de todo o mundo que se pronunciassem de forma clara contra leis que favorecessem uniões deste tipo. No terreno político, a trajetória do novo papa é marcada por uma ferrenha postura anticomunista, como era também a de João Paulo II.

Em 1968, Ratzinger ganhou prestígio no Vaticano ao travar uma luta contra as idéias marxistas e ateístas que ganhavam espaço entre a juventude naquele período. Considerado uma espécie de mentor intelectual de João Paulo II, Ratzinger é visto por seus pares como um dos teólogos mais inteligentes da Igreja Católica. Fala dez línguas, possui sete doutorados honorários e é pianista, admirador de Beethoven.

“Igreja Católica, mãe de todas as igrejas”

Em sua primeira aparição na Basílica de São Pedro, o novo pontífice pediu orações ao mundo. “Queridos irmãos e irmãs, depois do grande João Paulo II, os cardeais escolheram a mim, um simples, humilde trabalhador da vinha do Senhor”, disse Ratzinger a milhares de fiéis que se concentravam na Praça de São Pedro. “Deus sabe trabalhar com instrumentos insuficientes”, acrescentou, referindo-se à sua nova condição e seus limites.

Nomeado cardeal em março de 1977, pelo papa Paulo VI, Ratzinger terá agora a tarefa de conduzir a Igreja Católica no momento em que ela é pressionada, interna e externamente, a rever algumas de suas posições sobre seu próprio modo de funcionamento, sua estrutura de poder e sua relação com temas contemporâneos como combate à aids, métodos contraceptivos e sexualidade. Se prevalecerem as posições históricas de Ratzinger, há pouca chance de ocorrer alguma mudança neste terreno.

No tema do diálogo inter-religioso também aparecem declarações polêmicas de Ratzinger, para quem “a Igreja Católica é a mãe de todas as igrejas cristãs e, por isso, outras igrejas não devem ser consideradas irmãs da Igreja Católica”. Ou então no caso do escândalo envolvendo acusações de pedofilia contra religiosos católicos norte-americanos, quando o novo papa disse “estar convencido que as notícias freqüentes sobre padres católicos pecadores (pedófilos) fazem parte de uma campanha planejada para prejudicar a Igreja Católica”.

Mas há quem acredite que o conservadorismo de Ratzinger não implicará necessariamente um papado conservador. Representante dos setores progressistas da Igreja Católica, Dom Mauro Morelli observou que a igreja está sendo desafiada pela história e por um tempo novo e o novo papa deverá enfrentar estes desafios.

Cardeal conservador, papa inovador?

Na mesma linha de argumentação, Fernando Altmeyer, professor de teologia da PUC-SP, disse que, quando uma cardeal se torna papa ele encarna outro personagem. “O seu papado poderá ser diferente do de João Paulo II. Não que rompa com a tradição intelectual; essa será a mesma. Mas uma coisa é padre, outra coisa é teólogo, outra é cardeal e outra é ser papa. Quando ele senta naquela cadeira, agora ele é Bento XVI. Há uma simbologia da alteração do nome, inclusive, que fará outro personagem. Podemos ter surpresas positivas e não só as que a maior parte das pessoas esperam”, disse Altmeyer à Carta Maior. Ele recorda, ainda, que, “como jovem professor em Munique, Ratzinger era um cara alegre, que ia pra escola de bicicleta”.

“Foi o teórico da tese de Leonardo Boff. Uma pessoa agradável, aberta e liberal. Quem sabe ele volta à juventude. Isso às vezes acontece por conta do cargo. Ele disse ontem que a igreja não precisa de um homem duro; então o papa pode ser um pastor. Se obedecer isso que disse, será algo importante. O mundo não precisa de novo Bush, mas de um novo pai”, acrescentou Altmeyer.

Por outro lado, o teólogo admitiu que não esperava a escolha de Ratzinger. “Só tenho uma palavra para avaliar a escolha do novo papa: surpresa. Me surpreendo porque ele era um grande cardeal eleitor, no jargão eclesiástico. Ou seja, carregava, por ser o homem forte de João Paulo II, um número imenso de votos. Mas que esses votos fossem dele mesmo, achei impressionante. A imprensa já havia prognosticado, mas eu achava um exagero, até porque a mídia indicou vários sucessores, até brasileiros”.

Comentando o significado da escolha de Ratzinger para os setores progressistas da Igreja Católica, como a Teologia da Libertação, Altmeyer disse que é preciso aguardar a primeira encíclica de Bento XVI. Essa encíclica, segundo ele, “é uma espécie de programa de governo, para verificar que palavra de ordem ele vai tomar. Na de João Paulo VI, o diálogo foi seu primeiro pronunciamento. Em João Paulo II, foi para que o ser humano não tivesse medo, que este seria o foco da sua ação. Creio que o novo papa poderá representar uma nova fase. Qual vai ser a palavra de honra? Será doutrina? Aí teríamos a mesma coisa. Será o mundo da África, ao qual os europeus são sensíveis? Por enquanto, estou na expectativa de qual vai ser sua encíclica”.

O significado do nome “Bento”

Uma tendência do novo papado pode ser detectada a partir da escolha do nome feita por Ratzinger. São Bento, de Núrsia, (480-547) fundador da ordem beneditina, foi escolhido como padroeiro da Europa, o que levou alguns analistas a afirmarem que uma das prioridades do papado de Bento XVI será a “recristianização da Europa”, como disse, por exemplo dom Antônio Celso de Queirós, vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Após as invasões bárbaras, os mosteiros de São Bento foram responsáveis pela manutenção da cultura latina e grega e pela evangelização da Europa. O último papa a adotar o nome Bento foi o italiano Giacomo della Chiesa, entre 1914 e 1922. Conhecido como o “papa da paz”, Bento XV tentou, sem sucesso, negociar a paz durante a Primeira Guerra Mundial. Seu pontificado foi marcado por uma reforma administrativa da igreja, possuindo um caráter de abertura e de diálogo. A dúvida que fica é: Bento XVI está mais inspirado em São Bento (a defesa da cultura européia contra as invasões bárbaras) ou em Bento XV? Em ambos, talvez.

Para o teólogo e padre belga, José Comblin, que vive no Brasil, a indicação de Ratzinger não vai provocar nenhuma mudança para a América Latina. Há outros problemas que preocupam o cardeal Ratzinger, diz Comblin, como a teologia da pluralidade das religiões e a relativização de todas as religiões e do cristianismo.

“É isso que o preocupa mais, porque há várias escolas na Europa e Ásia nesta linha. A tensão está polarizada não mais para a América Latina, porque nós não oferecemos mais perigo e nenhum risco. O risco estaria na Ásia. A convivência com religiões do Islã e outras asiáticas e do Extremo Oriente é difícil. E as escolas européias entraram nesta linha. A infiltração dentro da Igreja Católica era a preocupação dos últimos anos e deve continuar sendo”, declarou à Carta Maior. E se a América Latina deixa de ser um lugar de preocupação central para a Igreja, os adeptos da Teologia da Libertação não devem se preocupar com novas repressões.

A Teologia da Libertação morreu?

E a razão é simples, assinala Comblin. “A tese oficial em Roma é que a Teologia da Libertação morreu, então não há mais problemas”. O novo pontificado, prevê, “será a continuação de João Paulo II, que já havia dito que a Teologia da Libertação estava morta”. “A igreja no Brasil é, em sua maioria, conservadora. Portanto, tem tudo para apoiar o novo papa. Os movimentos mais fortes são mais conservadores, como a renovação carismática. Eles estarão muitos felizes com essa escolha. Tem minorias que podem se sentir mais aflitas. Mas é difícil prever como vão reagir”. Para o teólogo, a escolha de Ratzinger foi uma surpresa: “não se esperava a eleição de Ratzinger. De certo modo, não devia ser uma surpresa tão grande. Sabia-se que a maioria dos cardeais tem uma mentalidade muito medrosa ante o mundo atual, com muitas preocupações com a identidade da Igreja, vendo-a cercada de perigos e ameaças. Mas mesmo assim pensei que teríamos uma escolha mais equilibrada. Era normal que Ratzinger tivesse 40, 50 votos, mas dois terços não era algo previsto”.

Comblin não é otimista quanto às possibilidades de mudanças nas orientações gerais do Vaticano. “Para saber como reagir, temos que deixar as coisas acalmarem um pouco. Em uma semana vamos ver; ele vai tomar as primeiras decisões que vão mostrar qual é seu programa e sua atitude. Não se pode antecipar o que ele vai resolver e como vai enxergar as coisas. Mas aos 78 anos é difícil mudar. Há 40 anos ele está neste combate, desde os anos 60, numa constância. Já era assim quando bispo na Alemanha. Não é agora que vamos prever uma mudança”. Diante deste quadro, ele concluiu com realismo: “temos que nos adaptar a essa situação. Será necessário reagir e se reorganizar. Havia muitos movimentos que esperavam certas mudanças e agora é claro que isso fica adiado”.

Agencia Carta Maior