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Prefiro um papa que defenda as mulheres adúlteras do moralismo exacerbado e não se escandalize quando, à beira de uma fonte, encontrar uma mulher que agora vive com seu sexto homem. Dobre-se a ela para dar-lhe de beber e, em vez de censuras, encha aquele coração voraz do amor de Deus.

Um papa que entre o direito à vida e a lei opte pelo primeiro, denuncie os ricos que oprimem os pobres e faça-os devolver em quádruplo o que roubaram. E tenha a ousadia de dizer ao homem abastado que desde jovem cumpre todos os mandamentos: “Falta-te tomar partido a favor dos pobres”.

Sonho com um papa despojado do fausto e peregrino pelos caminhos do mundo; cercado de pescadores e artesãos, de mendigos e portadores de deficiências; capaz de proclamar aos teólogos da ortodoxia que as prostitutas os precederão no Reino de Deus.

Peço ao Espírito um papa que agradeça a Deus ter escondido a revelação dos grandes e a concedido aos pequenos; proclame bem alto que são bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça e que, por essa razão, são perseguidos pelos poderosos; e ensine que não se deve governar como os tiranos que se fazem chamar de benfeitores, mas sim como aquele que serve.

Prefiro um papa que recrimine seus fiéis que se recusam a erradicar a fome das multidões e ensine que a partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano é a condição para que todos tenham vida e vida em plenitude. E não tenha preguiça de buscar a solidão dos montes para entregar-se ao amor de Deus na oração.

Desejo um papa que chore pela morte do amigo, demonstre misericórdia para os pecadores e não aprisione a Igreja num espiritualismo vazio, mas ensine que Pai Nosso é sinônimo de Pão Nosso.

Espero um papa que ouse escolher para seu sucessor um homem casado, inclua entre seu grupo mais íntimo mulheres chamadas Maria, Joana, Suzana, e se sinta rejeitado quando Marta deixá-lo a sós com Maria por ocupar-se com os cuidados da casa. Quero um papa que critique o governador que puniu o primo que o denunciou como corrupto e compare o rei à raposa. E não aceite que a casa de Deus se transforme em lugar de comércio e especulação financeira, tendo a coragem de cerrar as portas do Banco do Espírito Santo com sede no Vaticano. Permita o Senhor que, em breve, tenhamos um papa que acolha um oficial romano, uma mulher fenícia, um doutor da lei, sem pedir-lhes atestado de identidade religiosa nem negar-lhes favores.

O papa dos meus sonhos adota o pão, e não a cruz, como símbolo de sua fé, e faz da partilha da comida e da bebida um sacramento. Não teme ser preso, torturado e condenado à morte pelos poderosos que se arvoram em oráculos divinos e prefere a companhia dos pecadores que a dos supostamente santos.

Prefiro um papa que ouse condenar aos infernos o rico esbanjador e enviar aos céus um pobre mendigo repleto de chagas; abençoe como legítima a ocupação de uma lavoura de trigo por quem tem fome; e critique os que acumulam terras sobre terras.

Rogo para que nos seja dado, um dia, um papa capaz de fazer da Igreja luz no mundo, sal no alimento, fermento na massa, e onde o amor prevaleça sobre a disciplina, a misericórdia sobre a condenação, a alegria sobre a dor, a graça sobre o pecado, o perdão sobre a censura, a tolerância sobre a intransigência, o serviço sobre o autoritarismo.

Quero algo muito simples: um papa em cuja face, gestos, palavras e iniciativas, transpareça Jesus de Nazaré.