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Tabaré Vázquez

Após ter vencido as eleições presidenciais em 2004, a esquerda uruguaia conquistou uma nova e importante vitória neste fim de semana. A coalizão liderada pela Frente Ampla venceu as eleições regionais em Montevidéu, principal colégio eleitoral do país, e em outros sete departamentos do país. O Partido Nacional (Blanco), que tinha 13 governos departamentais, caiu para 10, e o Partido Colorado, que governava cinco departamentos, obteve apenas uma vitória, no Departamento de Rivera.

O resultado das eleições aprofunda a mudança no mapa político do país. A Frente Ampla, que até 2004 governava apenas Montevidéu, venceu em locais importantes, como Maldonado, Rocha, Salto, Paysandú, Florida, Treinta y Tres e Canelones. Nas eleições regionais de 2000, a Frente Amplia venceu apenas em Montevidéu, enquanto o Partido Nacional foi vitorioso em 13 departamentos e o Partido Colorado, em cinco. A Frente Ampla conquistou sua quarta vitória consecutiva em Montevidéu, onde vivem 40% dos 3,3 milhões de habitantes do país. Seu candidato, Ricardo Erlich, venceu com quase 60% dos votos. Em segundo lugar ficou Pedro Bordaberry, do Partido Colorado, com cerca de 26% dos votos.

O novo prefeito de Montevidéu

Ehrlich, ex-reitor da Faculdade de Ciências da Universidade da República, é um cientista respeitado em todo o país, responsável pela instalação, em Montevidéu, do Instituto Pasteur de Paris, um centro de pesquisa que reunirá cientistas do Mercosul. Filho de poloneses, com 56 anos, militou na juventude no Movimento de Libertação Nacional (MLN-Tupamaros) e esteve preso durante um ano, antes de 1973 (ano do golpe militar). Libertado, foi viver na Argentina e depois foi estudar em Paris onde se graduou em Física. Deste modo, Montevidéu, depois de ser governada por um médico (Vázquez), um arquiteto (Mariano Arana, hoje ministro da Habitação), agora será administrada por um físico.

O Partido Nacional, que governava o país até o ano passado, recebeu apenas 10,1% dos votos. Ao contrário do que ocorria nos últimos anos, quando vencia na capital mas perdia no interior, a Frente Ampla venceu em regiões de peso econômico como Maldonado (onde está localizado o balneário de Punta del Este), Canelones (segundo departamento em quantidade de habitantes), Rocha, Paysandu e Salto. Até então essas regiões eram redutos eleitorais de blancos e colorados.

As candidaturas da Frente Ampla obtiveram, em seu conjunto, mais da metade dos votos de toda a população uruguaia. O presidente da Corte Eleitoral, Carlos Urruty, declarou que as eleições transcorreram num clima de total normalidade e tranqüilidade. Segundo estimativas iniciais, 84% dos uruguaios aptos a votar participaram do pleito.

A principal novidade foi o deslocamento de votos no interior, dos partidos de centro-direita (Blancos e Colorados) para a coalizão de centro-esquerda, organizada pela Frente Ampla. Os blancos governavam 13 departamentos e caíram para 10; os colorados, por sua vez, tinham cinco departamentos e passarão a ter apenas um.

Resultado fortalece Tabaré Vázquez

O resultado do pleito fortalece a posição do presidente Tabaré Vázquez que amplia sua base de apoio no interior do país. Vázquez já anunciou que convocará os candidatos eleitos para uma reunião com o objetivo de discutir novas estratégias de desenvolvimento para os departamentos. A extensão da vitória da Frente Ampla surpreendeu a maioria dos analistas políticos uruguaios que já esperavam um fortalecimento dos partidários de Vázquez, mas não na intensidade em que ocorreu.

As pesquisas realizadas antes das eleições regionais previam a vitória da Frente Ampla em até seis departamentos. Acabou ganhando em oito, esfacelando ainda mais as bases dos tradicionais partidos Blanco e Colorado. Eles são responsabilizados pelos uruguaios pela grave crise econômica que iniciou em 1999 e atingiu seu ápice em 2002. O Partido Colorado teve, nestas eleições regionais, a pior votação de sua história.

As maiores surpresas ocorreram nos departamentos de Flórida e Trinta y Três, ao norte e a oeste de Montevidéu, tradicionais redutos dos blancos. Nem os dirigentes da Frente Ampla nutriam muito otimismo sobre possibilidade de vitória nestas regiões. Outros redutos blancos que foram para as mãos da esquerda foram os departamentos turísticos do leste do país, Maldonado e Rocha, assim como o de Paysandu, na região norte.

Os colorados, por sua vez, sofreram pesadas derrotas em Salto e Canelones, ao norte da capital. Os blancos estão sendo considerados os maiores derrotados nas eleições, pois perderam três dos 13 departamentos que governavam. Os colorados, apesar de só terem vencido em um departamento, tiveram uma boa votação em Montevidéu, o que sinaliza, ao menos, alguma perspectiva para o futuro.

A Frente Ampla enfrenta agora o desafio de colocar em prática as propostas de mudanças sociais e econômicas feitas na campanha e dirigidas principalmente para um terço da população que vive na linha da pobreza e enfrenta o drama do desemprego, da fome e da falta de perspectivas. As eleições deste domingo consolidaram o giro à esquerda e viraram definitivamente uma página da história do país.

Se quiserem sobreviver politicamente, os partidos conservadores tradicionais precisarão repensar profundamente sua agenda política que recebeu um novo e sonoro “não” da população uruguaia.