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Celebra-se este ano o quarto centenário de uma obra literária que foi talvez a que mais marcou o Ocidente: o célebre Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra. Escrito em plena passagem do século XVI para o XVII, em pleno período entre o Renascimento e o Barroco, o Quixote - como todo grande texto literário - escapou da intencionalidade de seu autor, criou asas e brilhou com luz própria.

Esta preciosa jóia da literatura castelhana soube conquistar o mundo inteiro e é talvez, com a Bíblia, a obra que se traduziu em mais idiomas. Dom Quixote de La Mancha apresenta com a maestria e o gênio de Cervantes um feliz retrato do povo espanhol e, mais ainda, uma descrição bela e certeira da alma ocidental. Seus personagens são verdadeiros arquétipos de categoria universal. A figura do Quixote tornou-se símbolo e paradigma do idealismo que acredita que a realidade é mais do que apenas os cinco sentidos possam tocar e perceber, e sai pelo mundo para resgatar valores como honra, liberdade, grandeza, nobreza e retidão.

Seu alter-ego e fiel escudeiro, Sancho Pança - que é tão gordinho e baixo de estatura, próximo ao chão e à terra quanto seu amo é alto e esguio, voltado para as alturas do céu e do grande ideal cavalheiresco - representa o espírito prático, o realismo. A prática bondade e a canina fidelidade de Sancho não deixam que o ideal e a imaginação criativa se percam em estéril ilusão, mas ajuda a que fecundem o mundo, devolvendo ao ser humano a capacidade de sonhar e almejar sempre mais além dos limites que lhe impõem sua carne, vulnerabilidade e mortalidade.

O quarto centenário do Quixote nos interpela por alguns caminhos que me parecem ser extremamente importantes nos dias de hoje. Por um lado, relembra a nós, humanos, nossa vocação à nobreza, à plenitude e à liberdade. O engenhoso fidalgo Alonso Quijana, que sai de sua aldeia natal em busca de aventuras acompanhado por seu fiel Sancho Pança, tem um coração maior que o mundo. Aos olhos dos que o acompanham em sua saga, é um louco. Aos olhos afetuosos e fiéis de Sancho, também.

Luta com moinhos de vento, afirmando até o fim que são perigosos gigantes. Vê na suja e prostituída camponesa Aldonza a bela e nobilíssima dama Dulcinéia del Toboso, a quem entrega seu coração e sua espada, jurando defender sua honra e protegê-la com a própria vida. Coração e mente sempre estimulados por um ideal maior que o mundo, Dom Quixote expõe sua loucura sem pejo nem timidez, sendo constantemente advertido e moderado por Sancho.

Impossível não lembrar de outro ser humano que marcou a história porque um dia, na Galiléia, resolveu sair pelo mundo contando parábolas, fazendo milagres e entregando a vida por todos e todas, sem ter onde reclinar a cabeça. A Jesus de Nazaré também foi impetrado o qualificativo de louco e até aqueles que o acompanhavam mais de perto chegaram a duvidar de sua sanidade mental, declarando-o “fora de si”.

Enquanto Dom Quixote é uma criação literária genial, Jesus de Nazaré é uma pessoa histórica, que marcou o mundo e ao morrer, vítima da fidelidade ao amor que lhe queimava o coração e não o deixava cessar de estar “fora de si” no amor e no serviço aos outros, foi visto e reconhecido como ressuscitado, vivo para sempre e Filho de Deus. Aqueles que o seguiram participaram de seu destino de serem considerados loucos. E tão loucos eram e são que isso é para eles e elas motivo de alegria e consolação.

O quarto centenário do Quixote nos traz de volta o desafio de Jesus de Nazaré, que no fundo é o desafio inerente à condição humana criada por Deus: ser livre o suficiente para não deixar de desejar, de sonhar, de amar, mesmo sendo tido e havido por nécio e louco aos olhos de todos. Segundo Dom Quixote, vale a pena, pois “a liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que aos homens deram os céus; com ela não podem igualar-se os tesouros que encerra a terra nem o mar encobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode advir aos homens” (Quijote II, 58).

Que o centenário do Quixote nos relembre a importância de sermos loucos o suficiente para crer que o amor é possível e vale a pena entregar a vida por ele. Que a força desse personagem prototípico nos ajude a sair do marasmo em que nos lança a sociedade neoliberal e não desistir de perseguir moinhos de vento, resgatar a dignidade de oprimidos e acreditar que a loucura é muitas vezes mais razoável que a razão mesma.