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Eduardo Rodríguez

Não é usual que um membro da Corte Suprema acabe presidindo uma república. Eduardo Rodríguez é o primeiro caso em 83 governos que teve Bolívia. O fato de que o presidente e vice-presidente eleitos tenham renunciado e que os chefes de senadores e deputados não lhes substituíram mostra uma profunda crise.

Até a tarde da quinta-feira parecia que Hormando Vaca, líder do Senado, seria proclamado presidente. No entanto, a coligação que ia apoiar-lhe cedeu, depois da morte de um manifestante. Ante o temor que milhares de enaltecidos impedissem a sessão no congresso, Vaca preferiu resignar-se.

A ascensão de um novo presidente será usada para diluir muitos protestos, ainda que os radicais propõem “assembléias populares”, marchas e bloqueios até “nacionalizar o gás”.

Rodríguez convocará a prontas eleições nas quais Samuel Doria Medina e “Tuto” Quiroga tentarão um mandato firme para que a ala centro-direita venha colocar ”ordem”, enquanto Evo Morales deverá ser o “Lula” boliviano.

Eleito novo presidente boliviano

Na véspera da sessão do Congresso que deveria eleger o novo presidente boliviano no El Alto, organizações sindicais e indígenas fundaram a Assembléia Popular. Elas sustentam que este mecanismo seja um embrião do novo Estado trabalhista camponês.

Há 34 anos, formou-se um "parlamento popular" com o mesmo nome. Logo após, o general Hugo Bánzer impôs uma ditadura (1971-1978). Para os radicais, urge desenvolver este soviet e derrubar o "conciliador" Evo Morales, pois somente uma insurreisção como a de 1952 poderia conseguir a nacionalização do gás.

Para a centro-esquerda, faz-se uma provocação "ultra-esquerdista", porém que acaba por servir à ultra-direita.

Para a direita, isto deve ajudar a convencer a classe média e empresarial da necessidade de com que a antiga "mega coalisão" de partidos liberais volte ao poder, trazendo um presidente de "mão de ferro". O parlamento boliviano inicialmente não pôde reunir-se devido ao protesto em massa. Vaca teria perdido o apoio de um dos três grandes partidos que lhe apoiavam no congresso.

Um setor da direita quer para já um governo “de ordem”, mas o outro concebe que Vaca seria um presidente tão impopular que acabaria provocando outro levante popular. O ex-presidente Quiroga deseja novas eleições para poder ganhá-las e ter autoridade para impor-se.

O fato de um mineiro ter sido morto por militares atiçou a ira popular. A extrema esquerda deverá usar esse incidente se colocar numa “dualidade de poderes” como acontecido em 1952, 1971 e 1985. Enquanto os sindicatos e as juntas do Alto fundaram uma Assembléia Popular como um “soviet” e “embrião de um Estado obreiro camponês”, Evo Morales se distancia destes, mostrando seu desejo de se chegar constitucionalmente à presidência via eleições e fazendo um governo “tipo-Lula”, que faça transformações populistas, mas mantendo a institucionalidade e o mercado.

A eleição de Rodríguez como presidente constitucional mostra o alto grau de crise do país. Os partidos da “mega-coligação” (que governaram a Bolívia entre 1985 e 2003) não puderam voltar à presidência e acrescente-se que na linha de sucessão estavam primeiramente os líderes, dos senadores (Vaca) e dos deputados (Cossío).

A designação de Rodríguez deverá ser usada como fator para que se dissipem os protestos, evitando que se expanda o “poder dual trabalhista”, e que este venha obrigar Santa Cruz a não ir para um referendo e “normalizar” país ao convocar novas eleições.

Em seu discurso inicial Rodríguez mencionou que os hidrocarbonetos são da Bolívia, mas deixou clara a possibilidade de nacionalização a outros poderes ou ao processo eleitoral.

Enquanto Evo Morales tentará dissipar os protestos, espera-se ver a capacidade que terão os setores radicais para manterem os bloqueios e se, o movimento social se “acalmarão”, dando ao novo mandatário um período de “trégua”.

Adital_ Tradução: Pepe Chaves