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Infelizmente, não é possível falar ou escrever sobre outra coisa. A lama que se derramou, viscosa e putrefata, sobre várias instâncias do governo e do Congresso Nacional nos salpica a todos.

Olhamos estupefatos as cínicas declarações de parlamentares eleitos pelo povo brasileiro e pagos com o dinheiro do contribuinte. Inteiramo-nos de que, qual meninos ricos e mimados, recebem gorda mesada - o mensalão - que lhes permite vida nababesca e uma poupança para um futuro tranqüilo.

O governo se mobiliza e dá explicações, os que se pronunciaram e tiveram seus segredos publicamente desvelados desaparecem de circulação, partidos e homens públicos se justificam. Rancores e raivas se desatam e vêm à tona, tornando o clima político ainda mais irrespirável. A corrupção, com seu poder contaminador, espalha cheiro de podridão por todo lado.

Neste momento, todos os cidadãos se sentem interpelados em seu sentimento mais profundo de pertença ao país. Não ajuda a ninguém este estado de coisas, e muito menos lutar para prolongá-lo e ver inutilmente o fogo arder e a tudo consumir. Só uma atitude imediata, feita de transparência e verdade sem concessões, poderá produzir algum efeito e restaurar a credibilidade do povo em suas instituições.

O episódio da ida de Jesus ao Templo de Jerusalém, em Jo 2,13-22, nos ajuda a refletir sobre o que acontece no proscênio da vida política brasileira. Ao deparar-se com os vendilhões que montam suas bancas e fazem do lugar sagrado uma casa de comércio e - em palavras do próprio Jesus - “um covil de ladrões”, o manso mestre de Nazaré toma o chicote, derruba mesas e expulsa do Templo quem nele não deveria estar.

Com sua atitude forte e decidida, Jesus quer purificar o Templo e defender o povo que ama (simbolizado na figura das ovelhas presentes na cena) da exploração e corrupção de que são vítimas. Portanto, retira as ovelhas do Templo, de um falso redil, dos grupos que pretendem usar a religião para enganar e explorar. Embora sendo um judeu piedoso, para quem o Templo muito representava, Jesus se preocupa mais com as pessoas que são atingidas pelo que ali se passa.

Assim gostaríamos de ver a atitude do governo. Não tão preocupado em justificar-se, em preservar-se, em defender e acobertar os correligionários e o partido. Mas em retratar-se diante do povo, que foi lamentavelmente lesado, vergonhosamente espoliado, enganado em sua boa-fé. E mais: não hesitando em tomar as medidas mais duras e fortes que se fazem necessárias para tirar as coisas a limpo, varrer para longe as nuvens que encobrem a verdade, tornar patente seu desejo de que a verdade brilhe e a transparência reine na apuração das denúncias feitas.

Há uma violência gritante em um sistema corrupto. Tal como no tempo de Jesus, a corrupção que envolvia o Templo e explorava a piedade religiosa do povo, principalmente dos mais simples, parece reproduzir-se agora, diante de nossos olhos, jogando sombras espessas e perturbadoras sobre os bastidores do governo do presidente Lula, que representou a esperança para homens e mulheres cansados de sofrimento e de derrotas.

Contra essa violência maior, Jesus respondeu com uma atitude enérgica e firme. Isso fazendo, não legitimou o uso da violência, pois o que move Jesus é o amor pelo ser humano. Esse foi o “zelo” que o consumiu e o fez agir de tal modo, derrubando mesas, expulsando os desonestos e levando para longe as ovelhas que não queria ver contaminadas.

Atitude semelhante esperamos todos de nossos governantes. Enfrentar a situação com coragem e intrepidez. Não ter medo de apurar até o último resquício da corrupção. Apresentar os dados claros e transparentes ao povo que merece uma explicação e não pode continuar a ser miseravelmente enganado por homens públicos sem escrúpulos. Não têm cabimento, em meio à gravidade da situação que o país vive, alucinadas fugas para escapar dos confrontos que exigem respostas; covardes discursos que disfarçam sob o manto das meias palavras omissões ou recusas em assumir a verdade; protecionismos pusilânimes que encobrem amigos e situações.

O Evangelho ensina que só a Verdade liberta. O povo brasileiro espera ansioso a manifestação sem disfarces dos fatos em toda a sua extensão. Só isso poderá resgatar a esperança que há três anos vencia festivamente o medo nesta sofrida Terra de Santa Cruz.