JPEG - 13.6 kb

Você já passou pelo poder? Alguém já tentou comprá-lo oferecendo-lhe 30 mil por mês e mais um milhão de bônus ao final do ano? Se não, você ainda não foi testado se é corrupto ou não.

"A corrupção é uma prática da direita". Quantas vezes ouvimos e lemos essa afirmação! Como explicar, então, que companheiros que caminharam conosco, sempre tiveram ideologia de esquerda agora estejam envolvidos com corrupção? Como explicar que militantes de longos anos, de tanto sofrimento, diante das primeiras benesses do poder já tenham se tornado corruptos? Por que uns continuam íntegros, mesmo no poder, e outros não? Nunca foram de esquerda? Está a esquerda imune às tentações do poder e à corrupção?

Não está. A corrupção é antropológica, não apenas ideológica. Está entranhada na alma humana. A sedução do poder, o dinheiro fácil, a vida confortável mexe com a cabeça, o coração e a alma de qualquer um. Nenhum de nós está imune. A resistência à corrupção, à acumulação, às seduções do poder é uma mística diária. Não basta ter sido honesto um dia na vida, um período da vida. O desafio é ser íntegro sempre. A questão é colocar no mesmo nível o nosso interesse em relação aos das demais pessoas.

Tem gente no Congresso, não de esquerda, talvez de centro, que não é corrupta. Sei da história de um senador, que ao enfrentar problemas familiares, vendeu seus bens, entrou para a ordem terceira dos franciscanos, é um homem íntegro no trato da coisa pública, mas não é de esquerda.

Nem Jesus escapou às tentações do poder. Aquele encontro dele com Satanás no deserto é símbolo para os cristãos de todas as tentações do poder. Mas ele resistiu. Esses dias fiquei surpreso em uma diocese da Paraíba, quando o bispo processou dois padres na justiça comum porque usaram o dinheiro da paróquia para comprar carros particulares e não quiseram devolver o dinheiro aos paroquianos.

Também a instituição católica tende a fazer espírito de corpo com seus corruptos, mas esse bispo não. Quem levou a prática do mensalão para o Congresso foi um "bispo evangélico". Portanto, religiosidade nominal também não imuniza ninguém à corrupção.

Por outro lado, temos assessores na CPT, ateus convictos, que renunciaram a qualquer acumulação de dinheiro, vivem de seu trabalho e trabalham de graça para os movimentos populares, com uma vida muitas vezes sacrificada e íntegra. Não querem o poder, não querem acumular, sentem-se felizes em servir ao povo mais deserdado do país. É aí que nos encontramos, ateus e cristãos.

Por outro lado, não sejamos ingênuos com essa moral farisaica da elite, da mídia e da direitaça brasileira. É aquela moral que engole camelo e côa mosquito. Tapam os olhos para os 150 bilhões de dólares escoados na bandidagem do Banestado por empresários, banqueiros e políticos e prestam atenção nos três mil reais do cara dos Correios.

Pegam pesado em 400 mil reais da marcha do MST e fecham os olhos para os juros e a extorsão que é a dívida pública brasileira, simplesmente porque dela se beneficiam. O Brasil precisa muito mais que superar a corrupção, precisa construir estruturas de justiça, que redistribuam renda e patrimônio.

Portanto, ser corrupto não é apenas para a direita, não é apenas para os pecadores. A integridade no trato da "res publica" é uma questão de ética profunda, seja religiosa ou não. É um desafio pessoal e coletivo para toda a vida.

Portanto, só depois de mortos outros dirão se fomos corruptos ou não.

Adital