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Basta percorrermos um pequeno trecho do território de Chiapas, ao sul do México, para descobrir os conflitos que marcam atualmente a luta zapatista. À beira de uma estrada sinuosa, entre montanhas, o município autônomo zapatista de Polhó e comunidades ao seu redor apresentam uma realidade complexa, porém visível a qualquer visitante.

Ali estão cerca de 8 mil indígenas tzotziles desalojados das suas terras, desde 1995, reflexo da ação paramilitar. Hoje, vivem ao lado de um acampamento do Exército mexicano, com os soldados interferindo na sua vida e cultura.

Este foi o território ao qual o Brasil de Fato teve acesso para saber como está o movimento nas comunidades zapatistas após o alerta vermelho emitido pelo comando do Exército Zapatista de Libertaçao Nacional (EZLN), em 19 de junho. É certo que os comunicados dos dias seguintes afastam a chance de uma ofensiva militar dos insurgentes. Na verdade, suas bases de apoio passavam por uma consulta interna, finalizada no dia 26 de junho, na qual uma nova forma de ação do movimento foi aprovada por unanimidade.

O alerta vermelho e o desmonte das cinco Juntas de Bom Governo seriam uma medida preventiva contra uma possível investida do governo mexicano de Vicente Fox nestes tempos de reestruturação interna. "O alerta foi necessário, pois não havia garantia de segurança por parte do Estado", avalia Sebastián Gomez Perez, da organização civil de povos indígenas Las Abejas.

Localizado numa zona de Chiapas conhecida como Altos, Polhó constitui uma forte base de apoio do EZLN. A entrada do município esteve fechada nestes dias para gente de fora e os moradores evitavam sair de casa, como relata Pedro Arriaga, vigário da Diocese de San Cristóbal de Las Casas, que promove auxílio aos refugiados e ingressou no local.

Arriaga analisa o alerta vermelho a partir de dois prismas: primeiro, como ressurgimento do EZLN frente à sociedade mexicana e internacional, no contexto de proximidade das eleições presidenciais, marcadas para 2006. O gesto dos zapatistas seria uma medida contra a invisibilidade promovida pelo governo Fox. Uma estratégia pública, aliás. Em entrevista recente, o presidente mexicano comentou que o conflito em Chiapas era ’coisa do passado’.

"O alerta volta a colocar na consciência nacional e internacional as demandas zapatistas e denuncia também o tema dos refugiados", considera Arriaga. Além disso, a consulta interna constitui um espaço para a participação dos jovens integrantes das bases de apoio zapatistas - aqueles que ainda eram crianças na época do levante de 94. Baseado no seu convívio em comunidades, o vigário afirma: "Com a consulta, os jovens se dão conta de que estão em uma situação viva".

Tensão constante

Vizinha a Polhó, a comunidade de Acteal (onde foi possível a entrada do Brasil de Fato) está separada em dois espaços: o primeiro deles ocupado por famílias indígenas zapatistas que optaram pela autonomia; o outro, poucos quilômetros à frente, por famílias "priístas", tributárias de ajuda governamental.

A parte zapatista é logo reconhecida pela presença da "Coluna da Infâmia", escultura erguida em homenagem aos 45 indígenas de Acteal mortos em 97 em ação do grupo paramilitar Paz y Justicia. A maioria das vítimas foi mulheres, crianças e idosos. O ambiente parecia calmo no primeiro dia de visitas ao povoado, 24 de junho. A população promovia um evento celebrando o término do período escolar. Porém, antes de chegar ao local, quem vinha pela estrada era fotografado e filmado por soldados posicionados dentro do acampamento do Exército mexicano.

Sebastián Gomez Perez, da organização local Las Abejas, comenta que apesar de o alerta vermelho não estar sendo esperado, a situação na região atualmente é crítica. Presentes em 10 comunidades desta área, os paramilitares voltaram a fazer ameaças, apoiados por partidos como o PRI e o PRD. Contam, ainda, com a conivência e a passividade dos soldados do governo. E, por absurdo que pareça, muitas vezes os paramilitares dividem o mesmo povoado com os zapatistas, em um clima de tensão permanente.

Além de impunes após a matança de Acteal, os repressores têm o seu arsenal guardado em casa. No dia 9 de junho, troca de ofensas e rumores de ação dos paramilitares do grupo Paz y Justicia forçaram 15 famílias zapatistas da comunidade de Quintana Roo (município de Sabanilla) a abandonar suas casas por alguns dias. A presença de acampamentos militares enclausura a liberdade dos indígenas: "As mulheres são molestadas quando caminham sozinhas. O Exército se apodera do acesso à madeira e a água, afetando a cultura indígena, pois nossa cosmovisão diz que todos podem ter acesso à água, o que faz parte do rito das comunidades", lamenta Perez.

Outra peça-chave dessa "guerra de baixa intensidade" - como muitos classificam o atual momento de Chiapas - foi o anúncio da Secretaria de Defesa Nacional sobre a destruição de 44 plantações de maconha em território zapatista (nos dias 15, 16 e 17 de junho). Logo depois, o próprio governo desmentiu a informação, reconhecendo que não havia famílias zapatistas na área investigada. "Mas esse é um pretexto para o governo entrar em território zapatista", opina Perez.

Tzotziles - Etnia que representa cerca de um terço da população indígena mexicana Juntas de Bom

Governo - Órgãos populares de consulta e administração, criados para mediar a relação dos municípios autônomos e coordenar a prestação de serviços (educação, saúde, produção, etc.). São compostas por representantes dos municípios autônomos.

Priístas - Simpatizantes do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que se manteve 70 anos no poder até as eleições de 2000

Uma autonomia não reconhecida

Uma autonomia não reconhecida Os dez primeiros anos da luta zapatista foram dedicados ao "fogo": ou seja, à preparação para o levante de 1994, quando declararam guerra ao governo, em um conflito armado de dez dias. Depois, a palavra teve lugar na estratégia dos rebeldes chiapanecos. O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) aproximou-se da sociedade civil e, desde 1996 até hoje, busca a aprovação cons- titucional dos Acordos de San Andrés, que incluem o tema da autonomia para a organização política e econômica indígena. Mas, em 2001, o governo de Vicente Fox aprovou uma lei para os povos indígenas descaracterizada, sem reconhecer os acordos.

Daí a razão, dois anos depois, da criação zapatista das cinco Juntas de Bom Governo para resolverem assuntos internos das comunidades zapatistas e organizarem a colaboração organização das juntas, além de integrar mais a sociedade civil em seus processos de análise interna. O exercício da autonomia e o formato democrático das Juntas incomodam o governo oficial, além de tocar em interesses de grupos transnacionais.

"Não queremos ser um outro país, mas sim o direito a ter nossa cultura reconhecida. O governo se incomoda com a autonomia porque perde o controle sobre as comunidades. A terra é a única garantia do índio. Quando ele está endividado, tem que vendê-la para governo ou empresas. E é justamente isso que o governo quer", observa Sebastián Gomez Perez, da organização local Las Abejas. Acordos de San Andrés - Proposta formulada a partir do diálogo entre zapatistas, sociedade civil e povos indígenas. Os acordos, assinados pelo em governo federal, em 1996, reconhecia a cultura e a autonomia indígenas. No entanto, nada foi colocado em prática. Os zapatistas decidiram, então, fazer valer o acordo por conta própria.