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Desde que ocupou as manchetes dos grandes jornais mundiais em função dos violentos protestos de rua em Gênova, em 2001, quando o jovem ativista Carlo Giuliani foi executado pela polícia italiana, a reunião de cúpula do G-8 (grupo dos sete países mais ricos mais a Rússia) têm se esforçado em mostrar um rosto mais simpático e preocupado com as dores do mundo.

Como principal eixo do encontro deste ano, que acontece de 6 a 8 de junho em Gleneagle, Escócia, o anfitrião e primeiro ministro britânico Tony Blair vem destacando o combate à pobreza na África e o debate sobre mudanças climáticas, estas últimas supostamente grandes fomentadoras da primeira. Blair também tem falado na necessidade de os países do G-8 cumprirem as Metas do Milênio da ONU para o Desenvolvimento Sustentável, e aplicarem os 0,7% do PIB para ajuda humanitária aos pobres -meta também estipulada pela OBU - até 2015. Por fim, Blair chegou a aventar a possibilidade de cancelamento de 100% das dívidas que 62 países pobres têm com instituições financeiras como o Banco Mundial.

As pautas que falam da determinação de acelerar o processo de reformas políticas, econômicas e sociais no Oriente Médio e Norte da África, e a proposta de parceria global de ação contra-terrorista e dos princípios de prevenção a que “terroristas, ou aqueles que os protegem, obtenham acesso a armas de destruição em massa”, como armas químicas, biológicas e de longo alcance, pouco são debatidas publicamente.

Resumidamente, a questão do Oriente Médio e Norte da África será tratada de forma que se assegure, através das reformas propostas, “que estes países ocupem seu lugar de direito num mundo moderno, democrático e globalizado”. O que são estas reformas não está claro, mas é provável que a já consolidada hegemonia americana sobre as políticas, a economia e as forças armadas nos países do sul do Mediterrâneo não se altere (leia mais no especial Fórum Social Mediterrâneo).

Mas segundo a imprensa inglesa, os EUA dificilmente serão persuadidos a abraçar a proposta de aumentar a disponibilidade de recursos para os países pobres comprando títulos previstos pelo International Finance Facility (mecanismo criado pelo tesouro britânico em função das Metas do Milênio, no qual seriam lançados no mercado de capitais títulos que teriam como garantia a manutenção de fluxos de ajuda humanitária em grande quantidade), um dos pontos que Blair quer apresentar novamente à Cúpula.

Por outro lado, todos os porta-vozes do G-8 foram unânimes em afirmar que qualquer negociação sobre liberalização de mercados, regras de comércio internacional e outras questões macro-econômicas serão discutidas na cúpula da Organização mundial do Comercio (OMC), que acontece em dezembro deste ano em Hong Kong. O que deixa claro que não há disposição para discutir as reais raízes da pobreza, como alardeado.

Os EUA, que já se negaram a assinar o Protocolo de Quioto sobre mudanças climáticas, também avisaram que não aceitam negociar nada que interfira no desenvolvimento de suas indústrias e no seu crescimento econômico, sobrando, então, a proposta de que os países do G-8 ao menos invistam no desenvolvimento de tecnologias menos poluentes, outra proposta dos ingleses.

Em relação aos acordos de contra-terror e anti-proliferação de armas de destruição massiva, os países do G-8 devem investir nos tratados internacionais e nas instituições que tratam da questão, adotar medidas efetivas que garantam segurança na produção, armazenagem e transporte destas armas, adotar medidas de maior controle de fronteiras, medidas legais e cooperação internacional referentes a identificação e prisão de terroristas e traficantes de armas, com instalação de sistemas de alta segurança e treinamento especializado de pessoal, e exportação de tecnologia e pessoal para países que não têm “expertise suficiente” para assegurar estas metas.

Por fim, outro assunto não menos complicado será o combate à produção e tráfico de drogas no Afeganistão, país que, desde a ocupação americana, aumentou em cerca de 90% a produção de ópio e em apenas três anos depois da queda do regime Taliban, se transformou em um “narco-Estado” responsável pelo fornecimento de 87% da heroína mundial, além de outras drogas, como afirma a Secretaria de Estado da Inglaterra. Para debater a questão, o G-8 deve contar com a presença do Ministro das Relações Exteriores do Afeganistão, Abdullah Abdullah.

Crentes...

Nos dias que antecederam o início da cúpula, Edimburgo, capital da Escócia, se transformou em campo de batalha entre policiais e manifestantes avessos à própria idéia do “poder econômico-militar hegemônico representado pelo G-8”, mas também foi palco de manifestações pacíficas dos que pediram mais atenção aos problemas de pobreza do mundo.

Os segundos tomaram Edimburgo no último sábado com cerca de 120 mil manifestantes trajando branco, evento da campanha “Make Poverty History” (Faça da pobreza história) organizado por uma coalizão de ONGs. Segundo a Action Aid, organização que deverá lançar o relatório "Não Produza Pobreza: o que o G-8 deve fazer para transformar a pobreza em história" na Cúpula, o objetivo da campanha é “solicitar ao G-8 apoio a comércio justo, empenho por mais e melhor ajuda, cancelamento da dívida, combate ao HIV/Aids e enfrentamento das mudanças climáticas no terceiro mundo”.

Para chamar a atenção dos líderes do G8, a Action Aid levará representantes dos países mais pobres para encontro, “com a missão de dar voz a povos do Hemisfério Sul e inserir na pauta suas demandas e reivindicações”.

"Se o G8 quer ir além da retórica vazia, é hora de fazer compromissos concretos e substanciais em relação a comércio, à ajuda e à dívida”, afirma Adriano Campolina, diretor da Action Aid no Brasil e um dos poucos brasileiros representantes da sociedade civil no encontro.

A Campanha Global pela Educação, aliança mundial de redes nacionais e regionais de educação, sindicatos e ONGs atuantes em mais de 150 países, também enviou a Tony Blair cerca de 3,5 milhões de bonecas simbolizando jovens e crianças que não têm acesso à educação. “O objetivo da ação foi o de constranger o G8 pelo descumprimento de suas promessas em relação à educação no mundo, mostrando o impacto negativo do modelo econômico hegemônico para a área e para outras políticas sociais”, diz um documento da organização no Brasil.

...e descrentes

“Sábado foi o dia da marcha do ‘Make Poverty History‘. Mesmo considerada conceitualmente - milhares de pessoas brancas, vestidas de branco, andando em círculos por quatro horas com faixas do tipo ‘mais e melhor auxilio financeiro para a África‘ - [a ação] foi provavelmente uma das coisas mais aborrecidas de que já ouvi falar”.

O relato de um militante brasileiro em Edimburgo, participante do grupo dos que estão na cidade “para fechar a cúpula, não para fazer ‘lobby‘, porque eles [os líderes do G-8] são por definição nao-‘lobbyaveis‘”, ilustra o clima dos ativistas anti-G-8 que tomaram as ruas da cidade em protestos e se confrontaram com a polícia escocesa e inglesa (um contingente de cerca de 10 mil homens) na segunda-feira (4), e que teve um saldo de dezenas de presos.

Sobre o movimento das ONG, os ativistas mais radicais, que também bloquearam uma base submarina da marinha britânica em Faslane, perto de Glasgow, não pouparam críticas. “Eles estão legitimando o G-8, estão recuperando o [primeiro ministro Tony] Blair de todo o impacto negativo da guerra no Iraque, preparando a sucessão para Gordon Brown (chanceler britânico), e repartindo a África entre eles de novo. Cada país africano perde em barreiras tarifarias em um ano o equivalente a todo o auxilio que eles estão oferecendo”, segue o relato do brasileiro sobre a opinião de um amigo.

Protestos e uma conferência paralela devem seguir até o dia 8. “Não estaremos apenas falando não ao militarismo e à opressão, ou às guerras sob pretexto de que outros tenham acesso a armas de destruição em massa. Não estaremos apenas dizendo não a políticos que exigem que outros cumpram acordos e leis internacionais que eles mesmos ignoram. Não estaremos apenas denunciando o comportamento criminoso de se gastar tanto dinheiro em armas enquanto meio mundo morre de fome. Não estaremos apenas denunciando a hipocrisia de falar de pobreza sem falar da guerra. Estaremos fazendo tudo isso, mas não estaremos apenas usando palavras. Também promoveremos ações práticas, diretas e não violentas a respeito de tudo isso”, diz um manifesto

Carta Maior