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A revolução desta vez será televisionada. É o que pretende a Telesul, o novo canal de televisão continental que nasceu para “romper com os latifúndios midiáticos” e “resgatar a história latino-americana”, até agora contada a partir dos olhos do Norte.

“Durante mais de 500 anos, estivemos cegos de nós mesmos. Sempre nos vimos com os olhos do Norte, em preto e branco”, afirmou Aram Aharanoriam, diretor geral da Telesul, dia 24 de julho, durante o lançamento do canal, em Caracas. A data não foi casual. Nesse mesmo dia, em 1783, nasceu o libertador Simon Bolívar, herói da independência de diversos países da América do Sul e mártir da luta pela integração dos povos do continente.

O novo canal pretende basear as informações e seus enfoques a partir da perspectiva latino-americana. Para o presidente Hugo Chávez, “o desafio da Telesul é entrar em sintonia com a alma e a mente dos povos e prender-se à verdade”. Para alcançar essa meta, o conteúdo dos programas dependerá fundamentalmente da participação da rede de colaboradores - constituída por produtores independentes e TVs comunitárias -, considerado pela direção do canal um dos pilares de sustentação do canal.“

Se a idéia é que possamos nos conhecer, seria arbitrário antecipar o que vamos transmitir. Vai depender do que os povos queiram contar”, explica Gabriela Fuentes, diretora de programação. Todo o conteúdo será bilíngüe. Haverá legendas ou tradução em português nas transmissões em espanhol e vice-versa.

EUA criticam

A “ameaça” da Telesul em romper a ditadura do pensamento único promovida pelas grandes cadeias de comunicação desagradou o governo de Washington “promotor” da democracia. A Câmara de Deputados dos Estados Unidos aprovou uma emenda que permite o início de transmissões de rádio e TV para venezuelanos. Os deputados estadunidenses justificaram a decisão como necessária para se contrapor a uma suposta onda de “antiamericanismo” da Telesul.

Na Venezuela, país onde os meios de comunicação promoveram um golpe de Estado, o novo canal também está incomodando. Nas semanas que antecederam o seu lançamento, a transmissão de um vídeo em que aparece Manuel Marulanda, o Tiro Certeiro, líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), foi suficiente para acusar a direção do canal de promover a guerrilha colombiana. “Isso mostra o quanto desconhecem a história dos nossos países. A Colômbia está em guerra há cinqüenta anos e não podemos negar essa realidade”, afirma Gabriela, em alusão ao início das ações da guerrilha.

Os ataques não pararam por aí. Para os jornais estadunidenses, a repetição do refrão “eta, eta, eta, é a Lua, é o Sol, é a luz de Tieta, eta, eta” - referência à canção “A Luz de Tieta”, de Caetano Veloso -, em outro vídeo de divulgação da Telesul, sinalizava apoio ao grupo extremista basco ETA.

O canal deverá seguir incomodando, sobretudo em programas como o Telesurgentes, espaço aberto para a luta dos sem-terra do Brasil, dos índigenas bolivianos ou das madres argentinas. Por enquanto, a Telesul transmitirá quatro horas inéditas de programação reprisadas ao longo das 24 horas que permanece no ar. Os planos são de aumentar para oito horas até setembro.

Os noticiários terão como premissa a investigação e a contextualização da notícia. Sua produção será feita pelos jornalistas da Venezuela e pelas outras oito sucursais distribuídas no continente. A TV é financiada pelo governo venezuelano, da Argentina, Cuba e Uruguai.

“Nosso norte é o Sul” Para assistir a Telesul

A transmissão da programação do novo canal é feita via satélite e pode ser captada por antenas parabólicas no continente americano, Europa ocidental e norte da África. Para captar o sinal, é preciso instalar um receptor digital de satélite e uma antena parabólica (custo estimado de R$ 950) e sintonizar no satélite NSS 806.

Algumas TVs Comunitárias já instalaram esse receptor e assumiram o desafio de retransmitir o sinal da Telesul. É o caso das TVs de Brasilia, Niterói, Rocinha, Porto Alegre e Paraná. A programação também pode ser vista pela internet, por meio da página da TV Educativa do Paraná (http://www.pr.gov.br/rtve)