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A Amazônia, região com maior reserva de água doce global (mais de 25% do total), concentra grande parte da biodiversidade do Planeta. Como são globais os efeitos climáticos da vasta Amazônia, o maior e o mais tropical dos ecossistemas, com 7,5 milhões de km2 (65% localizados no Brasil), o que lá ocorre é de interesse planetário.

Os amazônicos espaços foram retratados por Avélallemant em 1859 como um "mar de florestas num oceano de água doce". Para Mário de Andrade "a Amazônia é uma dessas grandezas tão grandiosas que ultrapassam as percepções do homem".

A amplitude de riqueza da Amazônia trouxe para ela uma cobiça também desmedida. A voracidade do capital, fortemente amparado no Estado brasileiro, dilapida irresponsavelmente o ecossistema e a população local. A região está a servir ao mercado mundial por meio das monoculturas do agronegócio e suas práticas de super-exploração (fenômeno comum na periferia do capitalismo), propiciando uma extraordinária acumulação com base em intenso abuso e desrespeito ao ser humano e a terra. Através da super-exploração o trabalho escravo continua presente, seja explicitamente, seja de forma não declarada e camuflada. Na Amazônia a organização do crime confunde-se com a própria organização do Estado.

Em 2005 as notícias que advém da Amazônia continuam nada agradáveis.

Desertificação. Em maio é divulgado o segundo maior índice de desmatamento da história moderna do Brasil, 26.130 km2 (a maior alta em 10 anos), dos quais quase 50% no MT. A destruição da floresta continua num ritmo alucinantemente acelerado: nos últimos 3 anos mais de 7,6 milhões de hectares amazônicos foram derrubados, tornando o Brasil responsável por significativa parcela do total de emissões de gases do efeito estufa. Aproximadamente 20% da Amazônia já foi irreversivelmente destruída, enquanto outros 30% sofrem forte pressão humana. Há mais de 90 mil km de estradas clandestinas na região.

A eliminação da floresta tem como principal vetor o boom da soja que, alimentando um insaciável mercado mundial, empurra a pecuária para dentro da floresta e amplia a exploração madeireira. O Brasil, maior exportador mundial de soja e de carne (e próximo a ser o maior na exportação de madeira: 36% da madeira amazônica é exportada), é também campeão no desmatamento. Porém, deveremos perder mercados, pois cada vez mais os países mais ricos estão banindo a importação de mercadorias produzidas predatoriamente.

A bomba florestal mato-grossense. Blairo Maggi, dono do Grupo André Maggi (principal exportador de soja do mundo com US$ 532 milhões de faturamento em 2003) e atual governador do MT, impulsiona o desenvolvimento a qualquer custo. A divulgação dos números do desmatamento na Amazônia levou o governador, conhecido como o "rei da soja" e outros apodos menos nobres ("rei do desmatamento", "estuprador da floresta") a ganhar do Greenpeace o Prêmio Motosserra de Ouro em 2005.

Corrupção. Em junho foi presa uma quadrilha que, através do desmatamento ilegal, derrubou no MT cerca de 2,5 milhões de metros cúbicos de madeira (carga de 83 mil caminhões) no valor aproximado de R$ 1 bilhão, levando para a cadeia o secretário de Meio Ambiente de Maggi, Moacir Pires.

Escravidão. Mais de 1.200 pessoas da Destilaria Gameleira, no município de Confresa (MT), ganharam a liberdade em junho, na maior operação de libertação de escravos já ocorrida no país. Em toda a região há ocorrência de trabalho escravo, além de prostituição infantil vinculada aos roteiros de pesca.

Assassinato. Chocou o mundo o assassinato de Ir. Dorothy Lang em 12 de fevereiro em Anapu (PA). Infelizmente não é um crime isolado, pois nos últimos anos voltam a crescer as impunes mortes de lideranças sociais na Amazônia.

Biopirataria. Outro lado desta barbárie é a biopirataria perpetrada por mega-empresas, levando ao patenteamento externo do cupuaçu, espinheira-santa, açaí, andiroba, copaíba, pau-brasil, pau-rosa, sapo kambô, guaraná ... Estima-se que os prejuízos nacionais por conta da biopirataria sejam da ordem de US$ 5,7 bilhões anuais.

Envenenamento. Conforme avança o agro-negócio, o intenso uso de agrotóxicos mata as águas dos rios e as bacias subterrâneas. Em vastas regiões amazônicas já não há mais o que pescar. Também o garimpo contamina os rios, gerando ainda o embate com os índios (como o registrado na exploração garimpeira de diamantes na terra dos Cinta Larga no nordeste de Rondônia e oeste do MT).

Neste estarrecedor quadro de banditismo e envenenamento, há alternativas, as quais passam, fundamentalmente, pela organização política dos empobrecidos e sua luta épica contra o capital em torno dum projeto nacional e latino-americano. Diante da inelutável exaustão do petróleo que salienta a óbvia vocação florestal da Amazônia, cabe buscar a exploração sustentável com técnicas de manejo florestal da biomassa tropical amazonense.

Pistas para compreendermos os amazônicos problemas e inspiração para enfrentá-los encontramos nas obras de Fiorelo Picoli ([email protected]), as quais desvendam as formas e estratégias da ação do capital em nossos trópicos.

Adital