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Os zapatistas anunciaram uma nova caminhada em sua trajetória de luta. Os pontos essenciais da Sexta Declaração da Selva Lacandona, divulgada em julho, sinalizam uma intenção de unir a luta indígena com a de outros trabalhadores, começando com encontros com a sociedade civil neste mês de agosto.

Escrita pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena (CCRI) do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), a declaração adiciona um elemento a mais no intenso período de disputa política no México, um ano antes das eleições presidenciais, marcadas para 2006.

O Partido de Ação Nacional (PAN), do presidente Vicente Fox, entra desgastado no pleito, sobretudo por manter a política neoliberal vigente no país desde 1982. Já o Partido Revolucionário Institucional (PRI) - que, em 2001, viu seu domínio político de 71 anos ser interrompido - tem a chance de voltar a vencer devido à estrutura criada em tantos anos de mando.

Ruptura

O Partido da Revolução Democrática (PRD), por sua vez, investe em Andrés López Obrador, político que conquistou apoio popular massivo durante seu governo na Cidade do México. Seus simpatizantes guardam a esperança de que Obrador adote políticas fora da lógica neoliberal. Obrador, no entanto, não goza de prestígio com os zapatistas (veja reportagem).

A nova estratégia dos rebeldes de Chiapas visa intensificar o diálogo com outros movimentos sociais. Em 2001, houve uma ruptura na relação entre a classe política mexicana e o ELZN. Apesar da intensa mobilização zapatista expressa na “Marcha pela Dignidade Indígena”, o recém-eleito presidente Fox e os outros poderes constitucionais não atenderam às reivindicações. Depois, os senadores do PRD, PRI e PAN aprovaram uma lei indígena ignorando os acordos de San Andrés e, em 2002, o Judiciário rejeitou os mais de 300 questionamentos contra esta nova lei indígena, fragmentada e criada pelos partidos.

Esse período de silêncio zapatista foi interrompido com a decisão de criar as Juntas de Bom Governo. Agora, os rebeldes anunciam uma nova etapa dessa retomada do diálogo. O promotor social Jorge Santiago, da organização Desenvolvimento Econômico-Social dos Mexicanos Indígenas (Desmi), interpreta a Sexta Declaração como uma proposta de mudança estrutural e pacífica. “O EZLN enfrenta uma situação de cerco. Por todos os lados, há grupos paramilitares. Há uma necessidade de superar essa realidade”, diz.

A formação de uma nova força política, não-partidária, no cenário mexicano traz como novidade a proposta de criação conjunta desse movimento. Para Santiago, a diferença ocorrerá se o EZLN for o vetor dessa nova força, mas não o ator principal, pois o que ocorreu em outros momentos foram convocações do EZLN à sociedade civil, como os encontros contra o neoliberalismo.

“A novidade histórica dessa atitude é que enxerga essa totalidade no México, e a vê enquanto força. No dia 16 de setembro (data quando serão divulgados os primeiros acordos das reuniões entre o EZLN e sociedade civil) cada um pode voltar para o seu Estado e atuar ali”, finaliza.

Contribuição

O pesquisador e capacitador em comunidades, Onésimo Hidalgo, da organização Centro de Investigações Econômicas e Políticas de Ação Comunitária (Ciepac), observa que López Obrador, de fato, tem o apoio da sociedade civil, demonstrado em abril deste ano, durante o “desaforo”. No entanto, essa aprovação é dada individualmente, já que os partidos estão desacreditados.

Hidalgo acrescenta também que não há garantias de que Obrador obedecerá ao povo, se for eleito, e altere a uma política de alinhamento com Washington. O pesquisador recorda que, ainda como governador, o político do PRD privatizou o serviço de água potável e implementou uma política linha dura, inspirada na experiência estadunidense (Tolerância Zero).

Mas não poderia haver uma divisão entre os que apóiam o zapatismo e os que estão com o Obrador? “O EZLN deve ter habilidade e fazer essa ponte ao recorrer ao país. Pois há gente que está com Obrador, mas com os olhos fechados, e outros que também estão com ele, mas não são contra o zapatismo”, afirma.

Acordos de San Andrés - Proposta de lei indígena formulada a partir do diálogo entre zapatistas, sociedade civil, povos indígenas e governo. Assinados pelo governo federal em 1996, os acordos não foram postos em prática. Juntas de Bom Governo - Criadas para coordenar a prestação de serviços (educação, saúde, produção) em território zapatista, além de mediar o contato com a sociedade civil nacional e internacional.

Desaforo - Marcha que reuniu um milhão de pessoas na Cidade do México contra a tentativa da Procuradoria Geral da República de impedir López Obrador de se candidatar à Presidência.

6ª Declaração da Selva Lancadona

  1. Quem somos: Nós zapatistas do EZLN levantamos as armas em janeiro de 1994 porque vimos a quantidade de maldades que nos fazem os poderosos (...). Por isso, nos dissemos “Basta!”, ou seja, que já não vamos permitir que nos desprezem e nos tratem pior que os animais (...)
  2. Onde estamos agora: O EZLN tem resistido a 12 anos de guerra, de ataques militares, políticos, ideológicos e econômicos, de cerco, de perseguição, de hostilidades (...) Mas há coisas, as mais importantes, como as demandas pelas quais lutamos que não foram completamente atingidas (...)
  3. Como vemos o mundo: O capitalismo está mais forte agora. (...) O capitalismo da globalização neoliberal se baseia na exploração, o roubo, o desprezo e a repressão aos que não se deixam. Ou seja, igual antes, mas agora globalizado, mundial (...)
  4. Como vemos o México: Nosso país está governado pelos neoliberais. (...) os governantes que temos estão destruindo nossa Nação, nossa Pátria mexicana. (...) Por exemplo, fazem leis como as do Tratado de Livre Comércio (TLC), que passam a deixar na miséria muitos mexicanos, tanto campesinos e pequenos produtores, porque são “devorados” pelas grandes empresas agroindustriais (...)
  5. O que queremos fazer: Queremos dizer a todos os que resistem e lutam com seus métodos e em seus países, que não estão sós (...) no México o que queremos fazer é um acordo com pessoas e organizações apenas de esquerda, porque pensamos que é apenas na esquerda política, onde está a idéia de resistir contra a globalização neoliberal, e de fazer um país onde tenha, para todos, justiça, democracia e liberdade (...)
  6. Como vamos fazer: Faremos mais relações de respeito e apoios mútuos com pessoas e organizações que resistem e lutam contra o neoliberalismo e pela humanidade (...) e a todos e todas que resistem em todo mundo, dizemos que façam outros encontros intercontinentais (...). No México, vamos seguir lutando pelos povos indígenas, mas não só por eles nem só com eles, mas por todos os explorados e despossuídos do país (...) vamos construir um programa nacional de luta claramente de esquerda (...) Também vamos levantar uma luta por uma nova Constituição, ou seja, novas leis que levem em conta as demandas do povo mexicano (...)

Das montanhas do sudeste mexicano Comitê Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional México, no sexto mês do ano de 2005