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Atribui-se a Pedro Aleixo a observação de que o esperto julga-se tão esperto que acaba atolado na própria burrice. Considera-se intelectualmente superior àqueles que o cercam. Desse salto alto encara-os com um misto de superioridade e desdém. Superioridade por orgulhar-se de levar vantagem. Desdém por ver aquele pai de família ralando anos a fio para ganhar, de salário mensal, uma quantia que o esperto abocanha em poucas horas.

O esperto corrompe e se deixa corromper, porque sua burrice o convence de que jamais será pego de calça na mão. Sabe que não é um ladrãozinho pé-de-chinelo que furta na esquina. Nem o mafioso de arma pesada em mãos, trocando tiros com a polícia. O que o diferencia do bandido é que faz questão de passar por honesto aos olhos de quem o cerca. Seu jogo é sutil, refinado, maquiavélico. Não bate de frente com a lei. Procura contorná-la, burlá-la, agindo por cima ou por baixo dela, sem confronto.

O esperto adora labirintos. Não mete a mão diretamente na cumbuca do dinheiro. Prefere sujar a alma do que as mãos. Assim, inventa mecanismos pelos quais o dinheiro sai legalmente do Tesouro nacional, a cavalo em robustos faturamentos aprovados na viciada roleta das licitações e, ao ingressar na malha bancária, gera filhotes bastardos.

Na prática cínica de suas maracutaias, se vangloria por tudo funcionar tão bem. Não se considera criminoso, mas esperto. Nessa cegueira, nem percebe que tece em volta uma rede de cúmplices ativos e passivos. Só toma consciência disso quando desaba seu frágil castelo de cartas. Então, secretárias, motoristas, contínuos, antes tidos como cegos, surdos e mudos, mostram-se mais vivos do que nunca. Até porque esperam que a fritura do esperto não respingue neles.

O esperto não é apenas o político malversador ou nepotista, o diretor de estatal que embolsa verbas com invejável assepsia ou o publicitário que nada de braçada em orçamentos superfaturados. É também o síndico que se aproveita de uma sobra contábil não percebida pelos condôminos; o gerente que desvia mercadorias; o caixa de banco que se vale da distração de um correntista; o padre que utiliza como seu os fundos da paróquia.

Evita-se criar espertos através de rígida educação ética. Meu pai era servidor público. Suas funções lhe permitiam entrar gratuitamente em cinemas. Fazia questão de pagar o bilhete. Trabalhou por um dia na rede bancária privada. Escalado, como advogado, para arrestar os bens de uma inadimplente, preferiu retornar com a carta de demissão a tirar de uma pobre costureira sua máquina Singer. E minha mãe me ensinou que o pobre é tão digno como o rico e, ao sumir um objeto na casa, é preferível desconfiar da própria memória que da faxineira.

Todo esperto traz dentro de si um arrogante, um alpinista social, um invejoso. Ele quer subir rápido na vida, ostentar bens que tanto ambiciona, refestelar-se em sua gorda conta bancária, morar em casa vistosa e andar em carro do ano. É essa burrice que denuncia fácil o esperto, pois os próprios familiares sabem que ele não ganha o suficiente para amealhar riqueza que parece brotar da lâmpada do Aladim.

O esperto tem horror a pobre e à pobreza, exceto como figuras de retórica. Nunca o convidem a ir à periferia ou subir uma favela. Se gosta de viajar, prefere o circuito Elizabeth Arden Paris, Londres e Nova York. Se é chegado ao meio rural, cria cavalos e freqüenta rodeios. E adora andar na moda, com roupas de grife e sapatos lustrosos.

Todo corrupto acreditou-se esperto um dia. E a corrupção é um vírus presente em todas as instituições. Na Igreja Católica, muitos se lembram do caso Marcinkus e do Banco Ambrosiano. O corrupto acredita que a causa que defende justifica os meios pelos quais opera. E na sua obtusidade julga que seus cúmplices comungam o mesmo idealismo, quando na verdade tratam de multiplicar os dígitos de suas fortunas.

É benéfico à nação expor via TV, em tempo real, as inquirições das CPIs. Isso ajuda a criar vergonha na cara, temer passar pelo mesmo pelourinho, talvez inibindo muitos que andavam à beira da tentação. E é inútil os partidos, agora, tramarem um acordão. O eleitor não está cego. Exige a reforma política, prometida mas ainda não cumprida. As urnas de 2006 haverão de depurar o joio do trigo, malgrado a esperteza de alguns que ainda não se convenceram de sua burrice e insistem em se agasalhar sob o manto de suposta impunidade.

Bem que o Evangelho alerta em sua divina sabedoria: "Tudo o que disserdes às escuras, será ouvido à luz do dia; e o que falardes nos quartos, será proclamado sobre os telhados" (Lucas 12,1-3)