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Depois de um encontro com Lula que adentrou a madrugada, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, recebeu, na manhã desta sexta (12), representantes de movimentos sociais ligados à Via Campesina (rede internacional de organizações camponesas) em um rápido encontro informal.

Sem uma pauta definida, lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), entre outros, saudaram Chávez com um pequeno ato.

O encontro dos movimentos com o chefe de Estado venezuelano foi marcado por reiteradas manifestações de apoio, de ambas as partes, ao presidente Lula. Na saída do hotel onde recebeu as lideranças sociais, Chávez fez questão de valorizar a reação do presidente frente à crise. "À noite me reuni com Lula e notei-o mais fortalecido do que nunca. Quero dizer a todos os lutadores brasileiros que, nestes últimos anos, Lula tem sido a expressão deste movimento de massas, de forte presença em todo o país. É importante que os brasileiros não percam de vista o estratégico, que apontem para o futuro", discursou.

Chávez também reafirmou que Lula está sendo alvo de uma ofensiva que segue uma lógica de ataque a qualquer ação mais forte contra os interesses dos EUA e das “elites”, comum na América Latina. “Hoje se reúnem diversos setores das elites brasileiras para tratar de reduzir, render e quebrar Lula. Mas um homem como Lula não se quebra nem se rende", concluiu.

Aos movimentos sociais, Hugo Chávez fez um pequeno relato sobre sua conversa com o colega brasileiro. "Estamos trabalhando em um acordo para construir uma nova refinaria para o Brasil em Pernambuco. Mas também viemos oferecer ao Brasil algo de grande valor, um bloco petroleiro para ser explorado pela Petrobrás, que tem quase 50.000 milhões de barris de petróleo de reserva". O estadista acrescentou que o tema ocupou metade das quatro horas de conversa entre ele e Lula, mas não se limitou à projetos na área petrolífera e abarcou questões como a gestão do gás natural, tema que vem provocado tensão na Bolívia.

Demonstração de amizade

O apoio do chefe venezuelano a Lula neste momento de crise foi visto com bons olhos pelos movimentos. "Viemos dar as boas vindas como movimento social ao presidente Chávez. Achamos que foi bom ele ter vindo neste momento difícil do presidente Lula, neste momento em que há uma tentativa clara por parte da elite nacional de desestabilizar o governo e ao mesmo tempo interromper seu mandato", afirmou João Paulo Rodrigues, da Coordenação Nacional do MST.

Para Rodrigues, o presidente venezuelano pode contribuir no enfrentamento da crise brasileira por ter enfrentado uma tentativa de golpe e interrupção de seu mandato. Sobre a situação do governo, Rodrigues foi cauteloso. "Achamos que há indícios fortes de que houve corrupção, de que houve um monte de erros por parte da direção do PT, em especial no que tange o tema do financiamento de campanhas. Agora, isso não justifica que a oposição tente a todo custo impedir que o presidente Lula continue governando", defende.

O MST, garante Rodrigues, está acompanhando atentamente o desenvolvimento dos fatos, quer a apuração e a punição dos culpados, mas mantém a cautela. “Achamos que o momento não é de tomar grandes decisões como movimento social. O momento é de aguardar pra ver de perto os desdobramentos que a CPI pode apresentar e o que vai sair de fato, de verdadeiro, neste conjunto de denúncias que têm aparecido nos meios de comunicação".

Apesar dos problemas

Sobre a radicalização de setores que já pedem o afastamento do presidente, o coordenador do MST considera que, apesar de todos os problemas do governo, a queda de Lula pode gerar um retrocesso no país. "Nós não temos certeza de que, se sair o governo Lula, serão o PSOL e o PSTU que vencerão e não setores da direita", diz João Paulo Rodrigues. "O MST está em alerta e não vamos admitir que ocorram radicalismos para que haja um pedido de impeachment sem que sejam apresentadas provas contundentes”.

Para os movimentos que integram a Via Campesina, no entanto, o apoio à Lula depende também da sinalização de mudanças no rumo do governo, principalmente na área comandada por Antônio Palocci e Henrique Meirelles. "O Lula, para ter o apoio do povo, precisa dar um sinal claro de mudança de rumos na política econômica e na questão social, pois sem isso vai ser difícil encontrar apoio popular", defende Gilberto Cervinski, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Este será o principal recado que os movimentos prometem dar ao governo no próximo dia 16, quando a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) promove um grande ato em Brasília. A atividade, que reafirma a Carta aos Brasileiros, também apresentará pautas específicas dos movimentos de moradia e estudantil, cujas entidades serão as principais mobilizadoras para a atividade.

Carta Maior