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Para ele, é emblemática a frase de Jorge Bornhausen, senador do PFL: "Nós agora vamos nos livrar dessa raça por muitos anos"

Para o professor a maneira de falar da esquerda como raça é um ranço profundo da UDN mais reacionária de onde vem Bornhausen. Não se trataria, portanto, nesta crise, de um retorno da situação anterior, ou seja, de uma presidência tucana civilizada. É o retorno do recalque mais boçal do Brasil, da UDN de 1952, que diz que pobre é pobre, porque pobre é burro. Tudo isso é o resultado de eleger um encanador e uma empregada doméstica para morar no Alvorada, pensa-se.

É precisamente esta mentalidade que segundo ele pode levar a uma onda reacionária de raiva do pobre, de raiva do trabalhador, o que é algo extremamente grave para sociedade brasileira, que, embora marcada por uma das situações mais graves de desigualdade no mundo, vinha dando passos importantes na consciência política que apontavam para uma sociedade socialmente mais equilibrada.

De fato, a partir de movimentos sociais que emergiram nas últimas décadas, vinha-se cristalizando na opinião pública uma cultura política nova que tinha nitidamente os traços das características fundamentais das instituições políticas modernas:

- 1) Em primeiro lugar a consciência de que o Estado não é dono do direito, mas deve estar a seu serviço e deve ser ele mesmo por ele regido. É isto que constitui o assim chamado Estado de Direito e o esforço de sua efetivação é um passo gigantesco para uma sociedade profundamente autoritária que viveu grande parte de sua história recente em ditaduras;

- 2) A idéia de que o Estado moderno deve ser um Estado territorial soberano;

- 3) O Estado moderno é um Estado nacional: é uma nação de cidadãos, que assumem seu destino político em suas mãos, o que implica uma integração cultural, uma nova forma de identidade coletiva, que torna possível uma solidariedade no nível dos cidadãos;

- 4) Por fim, a consciência que cresceu de que o Estado moderno é um Estado de direito democrático e social: o Estado se fundamenta nos direitos do homem e do cidadão, isto é, em direitos políticos, civis e sociais universais, que garantem autonomia privada e política. Todos os seres humanos são portadores da mesma dignidade e do mesmo valor. Isto implica que o ser humano é portador de direitos inalienáveis que lhe são inerentes simplesmente por ele ser pessoa. Eles são constitutivos de sua existência pessoal e enquanto tais se constituem a exigência básica de qualquer processo civilizatório uma vez que só a efetivação destes direitos realiza o ser humano como ser livre.

Desta forma, os direitos humanos constituem o núcleo a partir de onde toda a vida social deve ser organizada e o fim do Estado democrático é a defesa e a promoção destes direitos.A constituição estatal democrática é uma ordenação legitimada pelo próprio povo através da formação livre da opinião e da vontade. Da diferença entre a desigualdade fática e a igualdade jurídica se justifica o estado social para assegurar a todos condições decentes de vida. Seria uma tragédia se o resultado desta crise significasse a perda desta nova cultura política.

Adital