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Tabaré Vázquez

Nos últimos dias, tem-se falado muito do mal-estar das bases da Frente Ampla, das desfiliações massivas e do suposto divórcio que existe entre a direção e os militantes. Estranhamente, muitas destas "informações" vêm daqueles que, em nome de um suposto pós-modernismo, referem-se à militância e às identificações ideológicas como fatos do passado, como refugos atávicos que qualquer esquerda moderna deveria ter jogado na lata de lixo faz tempo.

Desconfortos e divórcios

O ponto álgido desta tensão foi o debate no Parlamento da autorização solicitada pelo Executivo para que a Armada participasse na Operação UNITAS. Foi, realmente, um momento traumático que não deixou a esquerda muito bem. De fato, somente a conduta adotada pelo deputado Chifflet representou o sentimento da maioria dos frentistas. Uma das chaves desta situação é que o governo deverá aceitar as críticas e procurar corrigir posições e estilos de trabalho não-participativo que não contam com respaldo na força política. A militância da Frente Ampla, por sua vez, terá que multiplicar sua atuação em defesa das conquistas que, pouco a pouco, este governo possa ir alcançando. E gerar outras.

O que não podemos fazer é estimular a incompreensão e a desmobilização. Grande parte do que resta para ser feito vai precisar de luta. Confronto de idéias, crescimento da mobilização popular, denúncia dos privilégios, desmoralização dos remanescentes autoritários que sobrevivem no Estado e todo o resto. E como é que tudo isto pode ser feito, a não ser agindo com união? O que está em jogo

Acho que deveria estar claro para todo o mundo que uma coisa são os erros e discussões internas com o nosso governo e outra coisa os benefícios que as forças de direita esperam obter dessas circunstâncias. O que está em jogo é o aprofundamento fundamental que significou a conquista do governo por parte da esquerda nas eleições de 31 de outubro. Nesse ponto, houve um corte transcendental na história do país.

Se o fato de ter nas mãos as ferramentas do governo é uma experiência nova e perturbadora para a esquerda, estar longe delas é desesperador para aqueles que sempre ocuparam os espaços de privilégio. Mesmo que, por enquanto, sejam apenas simbólicos, os efeitos da intempérie são sentidos como um perigo grave. Um programa popular e os fatores do retrocesso

Não há dúvidas quanto ao caráter popular do programa que anima este governo, a busca dos dirigentes, nos grandes e pequenos temas, por soluções favoráveis para os mais pobres, para os trabalhadores e para os excluídos. Alguns desses passos são relativamente pequenos diante da gravidade da situação, como os esforços feitos por meio do Plano de Emergência. Mas eles têm um significado profundo, que está no fato de que pela primeira vez um governo reconhece a gravidade da miséria existente e tenta corrigir os problemas nos elos mais fracos.

A gratuidade da passagem escolar na ampla região metropolitana é uma conquista importante. Quanta briga custaram, e quantas pauladas, há 30 ou 40 anos atrás, as reduções de preço das passagens, obtidas pela luta dos estudantes!

Outros fatos têm uma importância ainda maior, como a convocatória dos Conselhos de Salários, que representam centenas de milhares de trabalhadores. Agora, de modo marcante e pela primeira vez, incluindo também as empregadas domésticas. Novos sindicatos, grêmios mais fortes, maiores desafios para transmitir às novas gerações tudo o que tem sido aprendido em décadas de lutas. No mesmo sentido aponta a decisão de amparar o exercício dos direitos sindicais, a negativa de despejar os locais ocupados pelos trabalhadores no exercício do direito de greve.

Essas diretrizes são ainda, em certo sentido, virtuais. Mas constituem passos decisivos em um processo importante de fortalecimento organizativo da classe trabalhadora. E isto constitui um fator-chave em um processo de acumulação de forças.

A organização e a luta dos trabalhadores é um fator que tende a trazer uma certa ordem ao conjunto do acontecer político. Aquilo que organiza é progressista. O que divide e desmoraliza, não é.

Os prós e os contras de "não revolver as águas"

Ao mesmo tempo, existem fatores de estancamento em vários planos. Os mais importantes são os compromissos assumidos com o FMI, que estão sendo cumpridos com uma precisão digna de melhor causa. A aposta feita no investimento privado estrangeiro, defendida como sendo o "único caminho", ameaça fazer abortar qualquer projeto de país produtivo.

Das arquibancadas do neoliberalismo chegam grandes elogios, mas eles não são, nem serão nunca, nossos aliados. São representantes dos interesses dominantes em um mundo cada vez mais injusto e com imposições cada vez mais difíceis de suportar, principalmente para os países periféricos, como o nosso.

A linha gradualista, o propósito de não "revolver as águas", aos olhos dos defensores da ordem imperial é uma postura que pode, durante um período, ser útil: desativar o clima de "alarme público", o nervosismo provocado pelo medo diante da "iminência do caos" no caso de que esquerda chegasse ao governo. A direita tentou tudo isso e, mesmo assim, não conseguiu retirar o apoio popular do governo. Contudo, uma linha com arestas polêmicas como a que vem sendo desenvolvida exige uma participação maior do corpo ativo da massa frente-amplista. É isso que estão exigindo, principalmente, as mudanças que ainda estão virão. Este pode até ser um governo de mudanças leves e lentas, mas não pode deixar nenhuma dúvida de que será um governo de mudanças. Uma ação destinada a reverter a corrente de entreguismo e empobrecimento legado pelas administrações anteriores.

E o que ainda está por vir

Boa parte das batalhas que se perfilam no horizonte exigem uma mudança no grau de participação popular na vida e nas decisões políticas. Uma mudança do clima público. Para vencer os vícios do Estado burocrático será necessário um estado de debate e com espírito fermentoso no campo popular, que hoje parece não existir.

A aplicação de um novo modelo para a saúde, por exemplo. Ou a aplicação de uma reforma tributária a favor da redistribuição da renda, que irá requerer debates internos e externos. E dado que é preciso vencer resistências, serão necessárias as mobilizações populares. Ou a luta contra os grupos de gestão aliados ao privilégio, que sobrevivem nas empresas públicas. Ou a consagração de leis que terminem com o entrave e o perigo que significa a sobrevivência da doutrina da segurança nacional nas Forças Armadas. Ou o apoio às fábricas que, agora ou no futuro, estão sendo ou serão gerenciadas pelos próprios trabalhadores.

O desânimo e a divisão são um luxo que não podemos nos permitir.

Para todas essas "batalhas de idéias" e políticas será necessário contar com mais informação, mais vida orgânica das organizações populares, mais cidadãos que participem nos debates.

Vejamos, por exemplo, o projeto de mudanças profundas contido no programa do governo em matéria de saúde. Hoje, no debate nacional, quem tem mais peso? Os profissionais que enriqueceram fazendo da medicina um próspero negócio ou o milhão de uruguaios que carece de qualquer tipo de assistência? A pergunta já traz a resposta. Ao mesmo tempo, será que a existência de uma situação de injustiças e desigualdades em um direito humano essencial como é a saúde, não convoca a nós, membros da Frente Ampla, a ficar do lado daqueles que serão beneficiados pelo novo esquema da saúde?

Ou, dito de outro modo, com certa independência de forma em que o governo conduz o processo, existem algumas obrigações que são nossas. Obrigação de exigir informação e debate dos nossos próprios companheiros, obrigação de juntar forças para avançar nas transformações de caráter igualitário e justo.

Tem havido erros. Algumas porcelanas quebradas. Mas o mundo não acaba aí. Isto aqui está recém começando. Ainda tem muito abacaxi para descascar e não podemos nos dar ao luxo do desânimo e da dispersão.

Publicado originalmente no jornal "La República", de Montevidéu, em 17 de outubro de 2005

Tradução: Naila Freitas - Verso Tradutores