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Militares paraguaios e norte-americano promovem esta semana a sétima operação humanitária no país vizinho, desta vez no estado (departamento) de La Cordillera, 80 Km a leste da capital Assunção. Os trabalhos começaram segunda (7) e prosseguirão até quinta-feira, levando à população assistência médica de 20 militares dos Estados Unidos. Até o fim do ano estão previstas mais 13 operações deste tipo, aprovadas em maio pelo Congresso paraguaio em meio a duras críticas internas e externas. Os governos do Brasil e da Bolívia já manifestaram preocupação com a presença de tropas dos Estados Unidos na região, apesar da versão sempre repetida por paraguaios e norte-americanos de que tudo não passa de ajuda humanitária.

A cooperação militar dos Estados Unidos no Paraguai durará pelo menos até 31 de dezembro do ano que vem, segundo o acordo firmado, e desconfia-se que tenha objetivos militares estratégicos na região, a começar pela chamada “tríplice fronteira” entre Brasil, Paraguai e Argentina, onde é predominante a presença muçulmana nas cidades de Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Puerto Iguazu, com ligações com grupos revolucionários como o Hezbollah, Hamas e outros. Mas a preocupação do governo norte-americano com a região tem décadas: pelo menos desde os anos setenta, sua embaixada em Assunção abriga um efetivo militar de 400 pessoas, o maior da América Latina.

Outro foco do crescente interesse norte-americano nesta parte do território sul-americano é o Aqüífero Guarani, principal reserva de água potável da América Latina e muito possivelmente do mundo todo, que se espalha pelo subsolo dos três países já mencionados, mais o Uruguai. A maior parte desta reserva, ou 71%, está localizada em 1,2 milhão de Km2 do território brasileiro, 19% estão na Argentina, 6% no Paraguai e 4% no Uruguai. A importância estratégica deste manancial é vital para a humanidade, atestam relatórios das Nações Unidas sobre a água doce no século 21.

A recente passagem do presidente George Bush pela América do Sul, para a Cúpula de Mar del Plata e para o churrasco em Brasília, voltou a chamar a atenção para o intercâmbio militar de seu governo com o exército paraguaio, e em especial para as preocupações bolivianas, porque a principal pista de pouso e decolagem dos aviões norte-americanos está localizada em Marechal Estigarribia, no Chaco paraguaio, distante pouco mais de 250 Km do seu território. A pista tem 3.800 metros de extensão, capacidade para a operação dos aviões B-52 e Galaxy, suporta o desembarque de material bélico pesado e é o centro da base militar com instalações suficientes para 16 mil homens. As preocupações bolivianas são compartilhadas com os vizinhos, em maior ou menor grau, conforme suas ligações com os Estados Unidos, mas são sensíveis em todos os governos do subcontinente, mesmo o paraguaio, que não aprova integralmente o acordo militar.

Presença marcante

A presença norte-americana em vários países sul-americanos se traduz oficialmente em mais de 1.500 militares espalhados pelas embaixadas, outras representações diplomáticas e 20 guarnições entre bases aéreas e de radar espalhadas do Caribe colombiano ao Chaco paraguaio. Os EUA instalaram na embaixada em Assunção a mais poderosa estação de rastreamento de sinais de rádio e espionagem eletrônica na América do Sul, segundo informações do pesquisador Anibal Miranda, autor do livro “Dossier Paraguay: Los Dueños de Grandes Fortunas”. Montada pela CIA ainda na ditadura Stroessner, deposto em 1989, a estação serve atualmente para coleta e troca de informações sobre o narcotráfico.

Três bases militares dos Estados Unidos formam o tripé montado a partir de 1999, quando foi desativada a base no Panamá, para combater o tráfico de cocaína da América do Sul para o território norte-americano: Manta, no Equador, distante 320 quilômetros da Colômbia, Rainha Beatrix, em Aruba, e Hato, em Curaçao. Juntas, podem realizar duas mil missões anuais de rastreio e interceptação de aviões, empregando aviões-espiões, aviões de transporte, caças F-16 e aviões-radar Awacs. Toda esta estrutura é destinada, na essência e na forma, a combater o narcotráfico, mas nada impede que se volte contra outros alvos, caso os Estados Unidos sofram novos ataques como os de 11 de setembro de 2001.

Contribuem para a ascendência dos EUA em toda a América Latina e em especial nas áreas de expressiva presença árabe muçulmana a fragilidade institucional e a precariedade material locais, quase sempre apontadas como os grandes propulsores da corrupção nos setores responsáveis pela expedição de documentos, vistos, licenças e demais exigências burocráticas.

No Paraguai, onde vistos para coreanos são conseguidos à razão de 800 dólares e para árabes por 900 dólares, uma mulher foi presa no Chaco com 13 passaportes falsos; a consulesa interina em Salta, na Argentina, concedeu mais de 500 vistos irregulares ao preço unitário de 900 dólares; e o consulado em Miami emitiu vistos para mais de 20 libaneses que jamais pisaram o solo norte-americano (três figuravam na lista de possíveis terroristas internacionais do FBI).

Os governos de Brasil, Argentina e Paraguai firmaram o “Protocolo Especial de Assistência Jurídica Mútua em Assuntos Penais para a Tríplice Fronteira”, visando a dar maior agilidade e transparência às ações oficiais na área, inclusive com a colaboração da Interpol e do governo norte-americano, em cujo território se movimenta boa parte do dinheiro sujo obtido através de corrupção, contrabando de armas e tráfico de drogas. Mas iniciativas desse calibre não são suficientes para tranqüilizar o governo dos Estados Unidos e menos ainda para sufocar sua vocação intervencionista ao redor do planeta.

Carta Maior