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Daniel Guaramac é um dos pais de família que teve de abandonar sua terra em Shushufindi (povoado da província de Sucumbíos, no Equador). O motivo: a contaminação causada pela extração de petróleo na Estação Aguarico pela transnacional estadunidense ChevronTexaco.

A mudança de residência não foi a única conseqüência da ação da companhia. Os oito filhos de Guaramac e sua esposa sofrem de enfermidades causadas pela contaminação por petróleo cru e por águas de formação (subproduto da extração). Feridas na pele, problemas estomacais, cardíacos, dores de cabeça. Sua esposa já teve quatro abortos e um filho morto aos cinco anos, vítima também da ação da transnacional. Luciano Vicente era seu nome. Certo dia, o garoto caminhava pela beira de um riacho, escorregou, acabou caindo na água e ingeriu um pouco de petróleo cru. Depois de seis meses, faleceu.

Daniel Guaramac semeava mamão e tinha porcos em seu terreno. Perdeu dez cabeças de gado, dez cavalos, algumas centenas de galinhas. O café que plantava não produz mais. Faz seis anos que vendeu sua terra e se mudou com a família para Guayaquil, maior cidade equatoriana localizada na região litorânea. Mas não consegue trabalho. Reclama da insegurança, das quadrilhas que perturbam seus fi lhos. Vive em uma casa que não concluiu por falta de recursos. Até hoje não se acostuma à vida urbana. “Até água tenho de comprar, o galão custa 80 centavos de dólar.”

Antes de sair de Shushufindi, Guaramac trabalhava como auxiliar de cozinha na empresa OKC, que pertencia à ChevronTexaco. Um dia chegando em casa, seu terreno estava tomado pelo petróleo. Teve que nadar até a porta, segurando a comida que trazia acima da cabeça. “Eu pensei que minha esposa estava afogada no petróleo, mas feliz- mente ela estava bem”. Não pôde ir trabalhar durante cinco dias, ilhado dentro de sua casa. Quando chegou à empresa, lhe despediram.

“Eu não quero ficar reclamando para que não digam que eu sou contra as companhias; apenas estou reivindicando o direito ao meu trabalho”, explica. Segundo ele, em nenhum momento a empresa fez recomendações sobre os males causados pela contaminação.

Terror Negro

Perto de onde vivia a família de Guaramac, a transnacional ChevronTexaco construiu e operou uma estação que explorou o petróleo da região entre os anos 1974 e 1990. Ali eram separados o óleo cru, a água de formação e o gás natural em dez poços.

Segundo a Frente de Defesa da Amazônia (FDA), nesse período de 26 anos, a transnacional extraiu mais de 47 milhões de barris de óleo cru, quase 12 milhões de água de formação e queimou ao ar livre cerca de dez milhões de pés cúbicos de gás. A água de formação, altamente tóxica, vertia diretamente a riachos que desembocam no Rio Aguarico, que atravessa o território habitado pelas comunidades indígenas Siona e Secoya. Os moradores sofrem hoje de diversas enfermidades como conseqüência (veja reportagem).

Esse rio é a única fonte de água para consumo das pessoas, animais e plantações. Essas populações originárias tiveram seu território reduzido, foram obrigadas a mudar seus costumes de vida e de alimentação. Representantes das comunidades de Siona e de Secoya e outros colonos da região entraram com um processo judicial contra a ChevronTexaco. Pelo “Juicio del Siglo” (Julgamento do Século), desde 1992, ambas as partes vêm fazendo inspeções técnicas em alguns locais da região. No total, serão 123 pontos inspecionados. Até agora 100% das analises químicas das amostras inspecionadas mostraram índices de contaminação que violam a lei nacional e internacional.

Ameaça de morte

Quatro representantes do processo contra a transnacional ChevronTexaco apresentaram uma petição frente à Comissão de Direitos Humanos da Organização de Estados Americanos (OEA) denunciando recentes ameaças de morte e roubos ocorridos no seus respectivos locais de trabalho. Respaldam esta petição o Centro por la Justicia y el Derecho Internacional (Cejil) e a Amazon Watch (Observatório da Amazônia, tradução livre).

O pedido de proteção aos direitos de livre trabalho se referem ao advogado Pablo Fajardo Mendonza, ao ambientalista Alejandro Ponce Villacís, integrante da equipe legal dos afetados pela contaminação, ao presidente da Frente de Defesa da Amazônia, Ermel Chávez, e ao coordenador do processo para a assembléia dos afetados, Luiz Yanza. “Os rios eram petróleo puro”