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O que começou como um boato ganhou agora atenção oficial. A União Européia iniciou investigações para esclarecer se a CIA violou os direitos humanos e a Convenção de Genebra no território europeu. No início de novembro, o jornal Washington Post publicou um artigo falando sobre a existência de prisões secretas da CIA em vários países, onde estariam detidos ilegalmente supostos terroristas. Essa história já vinha circulando há algum tempo, ganhando maior credibilidade a partir de sua publicação nos Estados Unidos.

Os governos da Polônia, Romênia, República Checa, Geórgia, Armênia e Letônia negaram a existência de tais prisões em seus territórios, mas o desmentido não foi considerado suficiente pelas autoridades européias, que decidiram então abrir um processo oficial de investigação sobre a denúncia. O suíço Dick Marty foi encarregado de chefiar a investigação sobre as informações divulgadas pelo Washington Post. A organização Human Rights Watch apontou os governos da Polônia e da Romênia como colaboradores da CIA. Imagens de satélite estão sendo utilizadas para verificar a existência ou não de tais prisões secretas.

Um outro escândalo envolvendo a agência de inteligência norte-americana é sobre o uso de aviões secretos, transformados em prisões voadoras, para o transporte de acusados de terrorismo sem nenhum tipo de garantia jurídica. Tais aviões transportariam pessoas de países como Afeganistão e Iraque até os Estados Unidos e à base de Guantánamo, em Cuba. Vários destes vôos teriam feito escalas em aeroportos europeus.

Autoridades da Força Aérea austríaca e o jornal alemão Berliner Zeitung afirmaram que o aeroporto de Frankfurt, o mais importante da Alemanha, seria o principal ponto na rota dos aviões da CIA entre 2002 e 2004. A imprensa espanhola também noticiou que o aeroporto de Palma de Mallorca serviu como escala nestas viagens durante os concorridos meses de verão, quando o movimento de turistas é muito intenso. A Casa Branca disse ao governo espanhol que não violou nenhuma lei do país e silenciou sobre o caso de Frankfurt.

Sucessão de escândalos

O presidente George W. Bush vive um dos períodos mais críticos de seu governo, atingido por uma sucessão de denúncias e escândalos envolvendo colaboradores diretos. As denúncias sobre a existência de prisões secretas reavivaram as revelações sobre a prática de torturas nas prisões de Abu Grabi e Guantánamo. Como se não bastasse o próprio pesadelo em que se tornou o Iraque, com um saldo de mais de dois soldados norte-americanos mortos e pelo menos 16 feridos - um número que não pára de crescer a cada dia – as novas denúncias só fazem aumentar a oposição à guerra dentro dos EUA. E a situação se agrava também no terreno da política interna.

Recentemente, um dos principais aliados de Bush, Tom De Lay, foi obrigado a renunciar à liderança republicana no Congresso, acusado de corrupção. Karl Rove e Lewis Libby, assessor de Bush e chefe de gabinete do vice-presidente Dick Chenney, respectivamente, foram acusados de crime federal por revelar a identidade de uma agente secreta da CIA, esposa do embaixador Joe Wilson.

Recentes pesquisas mostraram Bush com os piores índices de aprovação desde seu primeiro governo, oscilando entre 30 e 39%. Também contribuíram para essa queda a demora no socorro das vítimas do furacão Katrina, em Nova Orleans. Há duas semanas, Bush sofreu mais uma pesada derrota com a condenação, na Organização das Nações Unidas (ONU), do bloqueio a Cuba por 182 países (95,3% do total de países que integram a ONU). Na Cúpula das Américas, realizada em Mar del Plata, a proposta de retomar o projeto da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) foi rechaçada com fortes manifestações dos presidentes da Argentina, Nestor Kirchner, e da Venezuela, Hugo Chávez. Mas a maior evidência da crescente rejeição da população ao seu governo foi a derrota dos candidatos republicanos na disputa eleitoral pelos governos de Virginia e Nova Jersey.

Em uma matéria intitulada “Até quem votou no presidente Bush duvida dele”, o jornal New York Times destaca a queda acentuada do governo republicano. Uma pesquisa USA Today/CNN/Gallup, realizada em meados de novembro, revelou que apenas 37% dos norte-americanos aprovam Bush, seu menor índice de aprovação desde que assumiu a presidência. Há um ano, Bush tinha 55% de aprovação. Logo após os atentados de 11 de setembro de 2001, a sua aprovação era de 90%. Outra pesquisa, realizada pela Associated Press/Ipsos, também em novembro, constatou o mesmo índice de 37% de aprovação, com um acréscimo negativo.

Apenas 42% dos entrevistados disseram acreditar que Bush é honesto, uma queda significativa considerando os 52% que tinham essa opinião no início deste ano. Vários entrevistados disseram não acreditar na honestidade de Bush em função das mentiras contadas à população no período que precedeu a invasão do Iraque (as famosas e nunca encontradas armas de destruição em massa de Saddam Hussein).

Bombas contra Al Jazira?

Na semana passada, mais um caso veio se somar a onda de denúncias contra a administração Bush. O jornal inglês Daily Mirror publicou o teor de um memorando que relata uma conversa entre Bush e o primeiro-ministro britânico Tony Blair, onde o presidente norte-americano teria revelado sua intenção de bombardear a rede de televisão Al Jazira, do Catar. Segundo o Daily Mirror, Blair teria convencido Bush de desistir do ataque, alegando que ele teria conseqüências catastróficas no Oriente Médio.

O diretor da Al Jazira, Wadah Khanfar, já solicitou ao governo britânico a divulgação do relatório confidencial que detalharia os planos dos EUA para o ataque à sede da emissora, em Doha. O caso gerou uma nova dor de cabeça para o governo Blair. Após o vazamento do teor do relatório secreto, a Procuradoria-Geral do Reino Unido advertiu a vários meios de comunicação que eles poderiam ser processados em virtude da lei de segredos oficiais, o que despertou a reação da imprensa que acusou o governo de querer praticar a censura no país.

Em uma carta enviada a Blair, Khanfar defendeu que a divulgação do documento é de interesse não só da Al Jazira, como dos jornalistas de todo o mundo. Proibir sua publicação, acrescentou, geraria muitas preocupações e dúvidas sobre o futuro da liberdade de imprensa no mundo. “Precisamos saber se essa conversa ocorreu ou não, se esse documento existe ou não”, resumiu.

Nos últimos anos, em mais de uma ocasião, os EUA acusaram a Al Jazira de insuflar a insurreição armada no Iraque e de fazer propaganda para Osama bin Laden. Neste período, a rede de televisão árabe sofreu vários ataques diretos. Em 2001, o escritório da Al Jazira em Cabul foi destruído por duas “bombas inteligentes” aliadas. Em 2003, o repórter Tareq Avyoub morreu em um ataque com mísseis contra a delegação da emissora em Bagdá. Segundo a imprensa britânica, o memorando do governo de Londres levanta dúvidas sobre as alegações norte-americanas de que esses ataques teriam sido acidentais.

Uma nuvem de segredos e mentiras

É mais uma história que, provavelmente, ficará mal contada, assim como tantas outras envolvendo o governo Bush. Uma reportagem da revista National Journal, publicada em novembro, afirmou que, apenas dez dias após os atentados de 11 de setembro, o presidente norte-americano foi informado por seus próprios serviços de inteligência de que não existiam provas sobre uma ligação entre o regime de Saddam Hussein e a rede Al Qaeda.

Bush teria sido informado também que Saddam tinha tentado vigiar os movimentos da Al Qaeda no Iraque por acreditar que a organização representava um perigo potencial para seu regime laico. Mais tarde, outros informes não deram elementos concretos para sustentar a existência de armas de destruição em massa no Iraque. Todas essas informações não impediram que Bush decidisse pela invasão do Iraque e pela derrubada de Sadam Hussein.

Nos últimos meses, porém, todas essas informações sonegadas e manipuladas estão se voltando como um bumerangue contra Bush, partindo de ex-funcionários de seu governo e de aliados. Se não suficientes para atingi-lo mortalmente, esses golpes vem minando sua legitimidade e credibilidade a cada dia que passa. Já há quem tema, dentro e fora dos EUA, que a sucessão de escândalos e denúncias que desabam sobre a cabeça do mandatário da Casa Branca acabem provocando a adoção de uma velha e conhecida prática da política externa norte-americana.

Diante do desgaste interno, nada como alardear a iminente ameaça de um ataque interno e/ou bombardear um alvo externo para reavivar os sentimentos de patriotismo e de medo junto à população do país. Dividida entre o medo de novos ataques e a perda de confiança em relação ao comportamento de seu presidente, a população dos EUA vai sendo envolvida por uma espessa nuvem de segredos e mentiras.