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Dois anos depois do levante indígena no estado mexicano de Chiapas - que apresentou ao mundo o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) e seu intrigante “subcomandante Marcos” -, em 1996, quando se iniciaram as negociações entre os insurgentes e o governo, foi criado o braço civil do EZLN, a Frente Zapatista de Libertação Nacional (FZLN).

O objetivo da Frente, segundo Marcos, era constituir “uma organização política, civil e pacífica que não lutaria pelo poder” e que seria, já que se pensava à época que os conflitos armados cederiam à negociação política, o canal de luta política aberta do movimento zapatista.

A não implementação, pelos governos do então presidente Ernesto Zedillo e seus sucessores, do Acordo de San Andrés sobre Direitos e Cultura Indígenas, assinado em fevereiro de 1996 depois de um árduo processo de negociação, no entanto, acabou transformando a FZLN em um pólo nacional e internacional de solidariedade ao EZLN e aos seus projetos sociais e políticas nas comunidades autônomas de Chiapas.

Agora, no último dia 25 de novembro, por decisão do Comando Geral do EZLN e após uma consulta aos membros da FZLN, quase dez anos depois de sua criação a Frente é extinta oficialmente. Em seu lugar, afirmou Marcos em um comunicado na semana passada, “um grupo de zapatistas do EZLN sairá a fazer um trabalho político aberto, civil e pacífico na chamada ‘outra campanha’”, e se abre assim “uma nova etapa da luta zapatista pela democracia, a liberdade e a justiça para o México”.

“A dissolução da FZLN é um passo que tem diversas implicações. A primeira é que, com toda honestidade, a FZLN nunca teve força para permear a sociedade mexicana como os zapatistas queriam. Sempre foi um tipo de braço civil [do EZLN], muito limitado em suas ações e muito dependente da linha política provinda de Chiapas. Em segundo lugar, e vendo justamente que a FZLN não tinha força para servir à Outra Campanha, em particular ao objetivo de Marcos de articular uma nova rede social, me parece lógico que os zapatistas peçam a sua dissolução.

Ou seja, é necessário criar e recriar todas as instancias de deliberação e organização sociais à medida de todos seus participantes, ha que se trabalhar na inclusão geral e horizontal de todos, o que significa muita discussão, uma proposta diferente da realidade concreta que vivia a Frente. É como reconstruir, de alguma forma, o telhado de uma casa onde agora, por decisão geral e consensuada, vão viver muito mais pessoas”, avalia o jornalista mexicano Luis Gómez, editor do site político Narconews na Bolívia.

Caçadores de cabeças

Algumas especulações sobre desvios de conduta de membros e grupos da FZLN, indicados por Marcos no comunicado sobre a sua dissolução (“houve, é certo, os que usaram a FZLN e sua proximidade com o EZLN para proveito próprio, para lastimar a [email protected], para ilhar-se e nos ilhar, para ganhar forças em rivalidades pessoais, como plataforma para o protagonismo individual ou de grupúsculos, e para simular compromisso onde só havia uma posição cômoda”), poderiam levar a creditar-se o fim da Frente à exaustão da organização, já que a conjuntura para a qual foi criada não se apresentou. Mas esta avaliação seria simplista demais, senão equivocada.

Depois de um longo período de silêncio, em julho deste ano Marcos voltou a tona com a Sexta Declaração da Selva Lacadona, extenso documento onde o movimento zapatista avalia seus dividendos políticos dos últimos 11 anos e os projetos para o futuro. Este documentou causou especial rebuliço no meio político mexicano e latino-americano por fazer duras críticas ao candidato das esquerdas para as eleições presidências de 2006, Manuel Lopez Obrador (Partido Revolucionário Democrático - PRD).

Em lugar do apoio a Obrador, a quem considera um continuísta das políticas neoliberais de Vicente Fox, Marcos conclamou os movimentos sociais a fazer uma “outra campanha” sem finalidades partidário-intitucionais, que apresentasse à sociedade mexicana a realidade social de um país praticamente engolido pelos EUA depois da implantação do acordo de livre comércio da América do Norte (NAFTA, criado em janeiro de 1994).

Agora, segundo Marcos, “uma nova etapa do zapatismo civil se inicia. Faremos com aquelas pessoas que, com a atitude e o trabalho, demonstram que assim o querem, uma nova organização política zapatista, civil e pacífica, anticapitalista e de esquerda, que não lute pelo poder e que se empenhe em construir uma nova forma de fazer política. Quer dizer, o mesmo destino rumo ao que andamos até agora, por caminhos paralelos”. Com um detalhe: a nova organização será coordenada diretamente por dirigentes do EZLN, e a integrarão apenas os expressamente convidados.

Para a economista e doutoranda em Estudos Latino-Americanos da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), Roberta Traspadini, o ponto focal da nova etapa zapatista, a “outra campanha”, é uma resposta concreta ao esgotamento social e à descrença geral da sociedade mexicana – e, em especial, dos movimentos sociais - na institucionalidade partidária existente no país. No ano que vem, avalia Marcela, a disputa vai ser evidente entre Lopez Obrador e sua “esquerda” (que, segundo os zapatistas, não é mais esquerda) e os movimentos, no sentido de que os últimos, além de procurarem reorganizar o paradigma das esquerdas, pretendem fazer a disputa da sociedade através de um processo de conscientização e formação.

“A ‘outra campanha’ será uma grande ação de esclarecimento, um instrumento que dê visibilidade às mazelas do país. Será uma campanha paralela à eleitoral, que levará à sociedade as idéias e as lutas dos movimentos. Não é, porém, uma negação da institucionalidade, é uma rejeição às opções partidárias que se apresentam. A institucionalidade atual é que os negou. É também, de certa forma, uma luta pelo poder, o poder que advém da consciência e da formação”, avalia Roberta.

Nessa mesma direção, o jornalista mexicano Luis Hernández Navarro, editor de Opinião do jornal La Jornada, afirma que “em política não há espaços vazios. Quando uma força abandona uma franja do espectro [político] para tratar de ocupar outra, o espaço que fica é ocupado irremediavelmente por um grupo emergente. (...) Existe, pois, na esquerda do espectro político nacional, um espaço ‘vazio’. A forte crítica do EZLN ao PRD e a Lopez Obrador anuncia a sua intenção de ocupar esse território abandonado. Um espaço que não é só ideológico mas, acima de tudo, político e social. Sua aposta, no entanto, parece querer ir muito além de sua conversão em uma corrente de esquerda alternativa e de massas, para transformar-se em uma força constituinte. Seu diagnóstico da situação nacional prevê o colapso da classe política em seu conjunto, e procura estabelecer um novo pacto social e refundar a nação desde abaixo”.

Internacionalismo

Outro projeto proposta pela Sexta Declaração da Selva Lacadona, ao lado da “outra campanha”, é a realização de um novo encontro mundial de movimentos e organizações de esquerda, uma nova Intercontinental pela humanidade e contra o neoliberalismo. Primeiramente pensada para dezembro deste ano, a Intercontinental foi adiada em função de um necessário processo de organização e consulta, comunicou o subcomandante Marcos.

A idéia, segundo ele, é que o encontro não seja um projeto unilateral do EZLN, mas tenha uma participação de todos os aderentes a nível mundial. Assim, a partir de 1o de dezembro próximo até 30 de junho de 2006, serão feitas consultas preparatórias presenciais ou “cibernéticas” sobre conteúdo, local e data, esta última indicativa para julho que vem.

“Para a coordenação da Internacional da Sexta [Declaração da Selva Lacadona] foi nomeada a chamada Comissão Intergaláctica do EZLN, encabeçada pelo tenente-coronel Moisés e, de forma rotativa, por uma equipe de comandantes e comandantas do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral (CCRI-CG) do EZLN, além da Comissão Sexta do EZLN”, diz o último comunicado de Marcos. E avisa: para a consulta cibernética, a Comissão Intergaláctica colocará no ar, a partir de 1o de dezembro, o site zeztainternazional.ezln.org.mx (“sí, así, con ‘z’”). “Esta página receberá as adesões internacionais à Sexta Declaração e as propostas e comentários para o Intercontinental”.

A volta da busca pela articulação internacional, segundo o coordenador de relações internacionais do MST, Geraldo Fontes, é uma iniciativa muito positiva, uma vez que o movimento zapatista passou por um período de isolamento imposto tanto pela conjuntura nacional quanto pela criminalização internacional dos grupos insurgentes. Mas, apesar de o MST ser um dos signatários do convite ao EZLN para participar do próximo Fórum Social Mundial em Caracas, na Venezuela, Fontes tem dúvidas sobre a aceitação, já que historicamente os zapatistas não buscaram o FSM como interlocutor.

O jornalista Luis Gómez concorda. “Tenho a impressão de que os zapatistas, sem negar-se a assistir [ao FSM], vão privilegiar os contatos diretos (com grupos e frentes nos diferentes países) entre aqueles que consideram seus iguais, tanto na luta como nas práticas políticas (e não somente nos ideais declarados). É desses contatos mais estreitos e diretos que querem se nutrir”.

Já Roberta Traspadini acredita que, apesar da busca do apoio internacional e da reinserção do zapatismo na agenda mundial, o EZLN deve mesmo priorizar as questões internas. “A perda da soberania mexicana foi muito impactante nas comunidades, por isso também as ações são muito localizadas. Acredito que o foco ainda será o México. Acredito que o lema ainda é não dá pra investir no internacionalismo sem antes arrumar a própria casa”.

Carta Maior