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E o voto vitorioso foi, na verdade, o voto do medo. No entanto, as notícias recentes dos jornais pós-referendo indicam que além do medo, a votação do último dia 23 de outubro "referendou" outra coisa ainda menos nobre que o medo, se é que isto é possível: a falta de transparência e espírito cívico por parte daqueles que capitanearam a campanha do NÃO.

Havendo recebido gordo subsídio das duas maiores indústrias de armas do país - a Taurus e a Companhia Brasileira de Cartuchos - a frente do NÃO gastou quase o dobro do que os partidários da vida, ou seja, do SIM. Aos jornais, o presidente da frente pelo direito à legítima defesa, que poluiu as paredes da cidade com seus outdoors, declarou sem pudor que o financiamento milionário que levou o NÃO à vitória só poderia mesmo ter saído das duas indústrias interessadas e não "do seu bolso".

Mas não pára aí a nebulosidade da vitória dos instrumentos da morte. Segundo o que informa a mídia, os dirigentes da campanha do NÃO, tão visíveis na campanha, tornam-se invisíveis no momento de prestar contas ao Tribunal Superior Eleitoral no prazo regulamentar, ou seja, até um mês após a votação. Configura-se, portanto, crime eleitoral, escondendo-se as pessoas físicas atrás de frentes parlamentares que não podem ser punidas.

Parece claro, como bem constatam alguns parlamentares, entre os quais o deputado Raul Jungmann, que a frente do NÃO estava defendendo o lucro das empresas de armamentos e não os "direitos dos cidadãos à própria defesa" como alardeava mentirosamente pelas cidades. E parece claro igualmente que a transparência que deveria caracterizar uma campanha desse teor ficou obscurecida por interesses mais que opacos e nebulosos.

Venceu o NÃO e a violência campeia, impune e armada, pelas ruas do país. Enquanto isso, o Ministério da Saúde acaba de publicar estarrecedora pesquisa que aponta São Paulo como o município mais violento do país, seguido de perto pelo Rio de Janeiro. Liderando o ranking, ali aparecem - agora, sim, com toda transparência - as mortes violentas por armas de fogo.

Em homicídios ou suicídios, são as principais causadoras da lista macabra de muitos milhares de homicídios e suicídios. As armas que o referendo poderia ter destinado aos depósitos, onde seriam transformadas em instrumentos mais úteis e pacíficos, continuam levantando sua garganta de fogo e despejando sua descarga mortal sobre os cidadãos das grandes cidades. E o Brasil perdeu uma oportunidade histórica de dar um exemplo ao mundo de como se constrói um grande país, começando por ferir de morte a violência pela arma pacífica e legítima do voto.

Diante desses dados, impõe-se uma reflexão profunda. Não podemos aceitar a derrota como definitiva e parar de lutar pela vida e pela paz. Carecemos de profetas, de línguas afiadas e transparentes, que nos digam, como outrora Jeremias ao povo de Israel: "Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Eis que virarei contra vós as armas de guerra que estão nas vossas mãos..." Ou ainda Ezequiel, na dor do exílio, buscando consolar o povo e mostrar-lhe o caminho da vida: "E os habitantes das cidades de Israel sairão, e com as armas acenderão o fogo, e queimarão os escudos e os paveses, os arcos e as flechas, os bastões de mão e as lanças; acenderão o fogo com tudo isso por sete anos; e não trarão lenha do campo, nem a cortarão dos bosques, mas com as armas acenderão o fogo..."

Para isso deverão servir as armas: para acender o fogo que cozerá o alimento e trará conforto aos estômagos; para preservar os bosques e a natureza, queimando o que não serve mais à morte, mas sim à vida.

A transparência violentada pelos escusos meandros onde se esconde a campanha do NÃO ensina-nos uma vez mais como é verdadeira a reflexão do Professor Domício Proença, da COPPE-UFRJ, especialista no tema da violência armada que, parafraseando o lendário Deep Throat (Garganta Profunda), protagonista do famoso episódio de Watergate, nos Estados Unidos, diz que para entender o círculo vicioso da violência há que seguir o dinheiro.

"Follow the money" (sigam a pista do dinheiro) aconselhou Deep Throat àqueles que se propunham a desvendar o obscuro mistério que envolvia a Casa Branca. Para entender a vitória do NÃO, como comprovam as últimas notícias, há que seguir o dinheiro.

Adital