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A nova FZLN será uma organização na qual se integrará exclusivamente por convite expresso da Comissão Sexta do EZLN. Segundo interpreto, essa nova organização será o motor da outra campanha. Com essa iniciativa, corrigi-se um erro tático - na minha opinião - desde a fundação da FZLN, que agora desaparece. O EZLN dava aval à FZLN apenas mediante à presença de suas bases de apoio na qualidade de observadores.

A fundação da FZLN significou a formação de uma frente civil parala ao Exército Zapatista, supostamente com vida própria, em teoria. Não resultou o que se esperava dela, entre outros motivos, porque houve em seu seio demasiadas interpretações do que esse agrupamento deveria ser. Pessoas competiam com outras sobre os significados dos princípios e das táticas.

Não houve direção e sua efetividade foi precária. A FZLN não funcionou. A heterogeneidade da sociedade, a grande variedade de posições ideológicas (inclusive antagônicas), o sectarismo de muitos e o eterno problema da interpretação dos “textos sagrados” por parte de aprendizes do sacerdócio zapatista foram elementos que, lamentavelmente, levaram a FZLN ao fracasso.

O que se pretende agora é uma espécie de partido de quadros (expressamente convidados) de novo tipo, ou seja, que não aspira ao poder. Seu objetivo é a organização da sociedade para que essa possa pressionar com maior efetividade o poder instituído em uma lógica anticapitalista.

Todos os partidos políticos, por definição, aspiram ao poder, isoladamente ou em aliança com outros. Mas a nova FZLN, como o anterior, não. E essa negativa a aspirar o poder faz a diferença. Não estou sugerindo que todos os partidos políticos aspiraram no passado (e quem sabe alguns no presente) o poder pela via institucional, por meio de eleições, pois os que se consideram (ou consideravam) revolucionários também aspiravam (ou aspiram) o poder, mas por vias distintas das eleições. A idéia desses partidos foi, mais do que agora, influir na sociedade, estimular a formação de uma consciência anticapitalista e socialista de forma a preparar “as condições subjetivas” para a revolução.

O partido era concebido, em termos leninistas, como “a consciência organizada da classe trabalhadora”, (pois esta era pensada como o sujeito da transformação revolucionária). O objetivo era não apenas o assalto ao poder, e sim a inversão da pirâmide social própria do capitalismo por meio da transformação do Estado capitalista em um Estado proletário e da socialização dos meios de produção. Até hoje, isso não foi conseguido, mas esse foi - esquematicamente - o seu posicionamento.

O Exército Zapatista, independentemente do signifi cado da expressão “socialismo” em seu discurso, não aspira explicitamente ao poder, nem pela via revolucionária muito menos pela eleitoral. O que se pode conseguir dessa dinâmica? Arrebatar o poder e, por pressão da sociedade organizada, obter vantagens para a população, esteja ou não organizada. Será uma espécie de grupo de pressão, grande, mais ou menos organizado e, ao contrário dos outros grupos de pressão existentes, está constituído desde baixo e com os de baixo da atual pirâmide social. Parece bom, mas na realidade não é nada tão original como se pretende.

No passado, já foram levadas a cabo esforços semelhantes, mesmo que com outra linguagem. Lamentavelmente, não tiveram sucesso, pois a chamada sociedade civil não é como queremos que seja nem tão carente de egoísmos e mesquinharias individualistas de curto prazo como queremos imaginá-la. Pessimista? Pode ser, mas há uma larga história que não podemos esquecer e essa larga história inclui, para o nosso pesar, divisões por princípios discutíveis e, ainda, por razões estratégicas. Oxalá isso não ocorra desta vez.