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"Isso é muito diferente, porque vai contra toda uma tradição de esquerda, de sempre tomar o poder diretamente", afirma o economista e sociólogo mexicano Gerardo Otero. Ele avalia também a mudança na pauta de reivindicações dos zapatistas, dessa vez de caráter classista e não mais exclusivamente indígena, e explica os porquês das severas críticas do EZLN ao Partido da Revolução Democrática (PRD) de Andrés Manuel López Obrador, favorito na disputa presidencial.

- Uma das características mais importantes dos movimentos sociais na contemporaneidade é o impacto internacional, os laços com outros países, com outros povos. Como isso se dá com os zapatistas, qual a capacidade deles de criar esses laços e desenvolver relações de solidariedade?

- A solidariedade internacional está muito sobrevalorizada. Ou seja, é importante, mas não foi determinante para conquistas específicas dos movimentos sociais em seus países.

Apesar de o movimento zapatista possivelmente ser um dos que mais solidariedade recebem, isso não ajudou a obter nenhuma vitória. A luta tem que se dar desde baixo, a partir da localidade. Os zapatistas utilizam o termo "caracol" para caracterizar a luta deles a partir de 2003. Eles partem do centro, da localidade, da comunidade e vão fazendo articulações até a parte exterior do caracol, que é a esfera internacional. É uma imagem do que creio que devam ser os movimentos. Não é a solidariedade internacional que vai determinar o êxito ou o fracasso das lutas.

- Hoje, no México, como o cidadão comum vê o movimento zapatista?
- Com bastante ambivalência. O mexicano comum, se é que existe, tem ainda muita esperança na via eleitoral. As pessoas têm esperanças de que Obrador - considerado pela maioria como de centro-esquerda - ganhe as eleições presidenciais, em julho de 2006. No entanto, os zapatistas desqualificaram todos os partidos e candidatos, considerando-os de direita.

O EZLN está lançando a chamada "outra campanha", em contraposição às que serão realizadas pelos candidatos à Presidência. Em junho de 2006, lançou a Sexta Declaração da Selva Lacandona, onde faz uma reconsideração da conjuntura internacional, uma nova caracterização do capitalismo mundial e se propõe a aglutinar as forças de esquerda. Por isso os zapatistas estão entrando em conflito com muitas forças dentro da esquerda mexicana - como a União Nacional de Trabalhadores (UNT) -, que estão apostando no terreno eleitoral, em Obrador. Como os zapatistas criticaram muito fortemente Obrador e o partido que o representa...

- Quais as críticas mais severas a Obrador?

- As críticas mais severas são na verdade dirigidas ao PRD. E o pior é que muitas são certeiras. Porque o PRD apoiou, pelo menos no Senado, a lei indígena que não satisfez os zapatistas. O mesmo partido foi favorável à chamada Lei Monsanto, que permitiu a liberação de transgênicos no país. O Marcos (subcomandante Marcos, principal porta-voz do EZLN) defi niu o PRD como o partido dos erros táticos. Ou seja, por alguma meta estratégica de maior importância, o PRD cometeu esses erros.

- Essa "outra campanha" significa não apostar no processo eleitoral? Os zapatistas vão apostar nesse processo, apesar das críticas?

- Não. Os partidos existentes atualmente os levaram a isso. Houve alguns acordos, pelo menos verbais, entre dirigentes do PRD e os zapatistas, mas na hora das votações no Congresso, os dirigentes do PRD não cumpriram o combinado. Os outros partidos sequer são tão criticados, não porque não são criticáveis, mas porque os zapatistas não esperavam muito deles, e sim do PRD, que era o partido que se dizia de esquerda. Por isso, a aposta dos zapatistas é no sentido de consolidar a sociedade civil, para que haja uma mudança na correlação de forças com o Estado, para que a sociedade imponha sua vontade ao Estado.

- A razão não é a crescente repressão do governo do presidente Vicente Fox ao movimento, a militarização das áreas em Chiapas? Isso não criou espaço para a "outra campanha"?

- Em parte foi isso, mas também uma coisa que influiu muito foi o tipo de resposta do PRD. Quando Obrador era presidente de partido, reuniuse com Marcos, e falaram da possibilidade de uma aliança tática no terreno eleitoral. Mas, depois disso, ocorreram muitas coisas, incluídas algumas que os zapatistas consideraram traição. Então, não é que os zapatistas sempre estiveram contra a via eleitoral.

Na verdade, se alguém ler a primeira declaração do EZLN, vai ver que os zapatistas eram atores institucionais. Eles consideravam o presidente Ernesto Zedillo Ponce de Leon (1994-2000) um usurpador, porque havia chegado ao poder via uma eleição roubada, ilegítima. Por isso pediam ao poder legislativo e ao poder judicial que o tirassem do poder. Nesse momento, pelo menos, eles estavam apelando a essas duas outras instituições principais de uma República que fizessem seu papel.

- Quem é Marcos?

- Não sei quem é Marcos, mas o ex-presidente Zedillo disse que Marcos era o filósofo Rafael Sebastián Guillén Vicente, exprofessor da Universidad Autónoma Metropolitana, da Cidade do México. Mas Marcos nunca admitiu. Inclusive, quando viu o retrato que apresentaram a ele, disse: "Eu sou mais bonito".

Suponhamos que Marcos seja Rafael. Sua atitude foi correta de abandonar a academia e partir para a prática? Aí depende do ponto de vista. Marcos, como os outros revolucionários, chegou a Chiapas com uma ideologia que, depois de conviver com os indígenas, foi alterada. Tinha uma concepção leninista bastante ortodoxa, vanguardista, da revolução. Inclusive, Marcos disse em uma entrevista que fez com um jornalista francês, Yvon Le Bot, que está publicada em livro...

- O Sonho Zapatista?

- O Sonho Zapatista, sim. Marcos disse que eles chegaram do Norte e foram derrotados ideologicamente porque aceitaram os modos de tomada de decisões das comunidades indígenas. Essa é uma questão bastante singular, porque agora o Exército Zapatista é um tipo de organização não-vanguardista, que não está lutando diretamente pelo poder estatal, e sim apostando na consolidação da sociedade civil. Isso é muito diferente, vai contra toda uma tradição de esquerda, de sempre tomar o poder diretamente.

A princípio, parecia que a prioridade de Marcos e dos zapatistas era o território onde estavam. Mas hoje parece que a questão transcendeu para o México como um todo. Aí se vê um dos paradoxos do EZLN. Na primeira declaração, o discurso era classista, ou seja, havia reivindicações classistas e não se mencionava a questão indígena. No entanto, nos primeiros dias depois da insurreição, eles ganharam um grande apoio das organizações indígenas. A partir desse apoio, e sobretudo a partir de um Fórum Nacional Indígena que o EZLN convocou em janeiro de 1996, o interlocutor principal dos zapatistas passou a ser o povo indígena.

O primeiro grande tema das negociações entre Estado e zapatistas foi o direito e a cultura indígena. Essa é a novidade da Sexta Declaração da Selva Lacandona. Por terem ficado ilhados regional e culturalmente no tema indígena, em junho de 2005 eles retomam as reivindicações classistas e convocam a formação de um grande bloco popular democrático classista, decididamente anticapitalista. Então, aí há uma mudança muito importante.

- Como foi o processo de mudança das reivindicações indígenas para as classistas novamente? Por que essa mudança?

- Aconteceram dois momentos anteriores importantes. Um foi em 2001, quando os zapatistas passaram por todos os Estados indígenas para chegar à Cidade do México e falar ante o Congresso da União (Câmara dos Deputados) em favor da lei indígena que, desafortunadamente, foi aprovada sem os componentes principais. O outro momento importante foi o silêncio quase absoluto de 2001 até agosto de 2003, quando lançam os "caracóis", e as Juntas de Bom Governo, que são como as administrações regionais dos municípios autônomos em rebeldia.

Aí, houve um comunicado muito importante em que Marcos disse que os zapatistas estavam decepcionados com a comunicação com a sociedade civil porque, em vez desta escutar o que os zapatistas necessitavam, mandava, em solidariedade, o que já não precisavam mais. Então, de agosto de 2003 a junho de 2005, eles desenvolveram muito fortemente sua organização a nível municipal e também um programa de educação, tanto primária, quanto para adultos. Ou seja, uma posição muito clara de formar quadros zapatistas.

- Desde junho, quais vêm sendo, na prática, as atividades para a nacionalização da luta?

- Até o momento, e até onde sei, as atividades têm sido principalmente propagandísticas, com chamados, mas ainda não há uma campanha, propriamente. Supõe-se que a "outra campanha" vá começar mais ou menos junto com as campanhas eleitorais já mais abertas dos candidatos à presidência.

- Quais são os objetivos do bloco democrático? É, nesse ponto, um objetivo estatal? Passa por uma mudança de estratégia?

- O que pretendem os zapatistas é consolidar o bloco popular democrático para que haja uma sociedade civil muito mais forte, que possa pressionar a qualquer dos três partidos que fi que no poder. Independentemente de qual deles fi que, existirá uma sociedade civil muito mais consolidada para levar adiante um programa reivindicado por eles.

- Está muito longe disso?

- O único problema é o que mencionei há pouco. O terreno da sociedade civil está ocupado por outras forças, como a UNT, outros movimentos sociais. A esperança é de que todos se unam para lançar um programa mais avançado do que o de qualquer partido.

No Canadá, a sociedade conhece os zapatistas, ou eles são conhecidos só nos círculos acadêmicos? Só nos círculos acadêmicos. Aconteceram várias manifestações quando o Estado mexicano se lançou à ofensiva contra os zapatistas, em janeiro de 1995, mas não éramos mais do que umas cem pessoas. Não há tanta consciência.

- Há uma articulação dos movimentos sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca)?

- Há várias organizações que se opõem ao livre-comércio, fundamentalmente os sindicatos e algumas ONGs. Mas o Canadá vem enfrentando o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) muito melhor do que o México. Inclusive ganhou muitos empregos. E quando a economia dos Estados Unidos entrou em declínio, em 2001, o Canadá seguiu crescendo em um ritmo maior do que o de todos do G7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo). Aí se vê o enorme contraste entre o Canadá e o México.