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VI FSM CARACAS, Foto: Ricardo Infante

O discurso do mandatário venezuelano no ginásio Poliedro, na noite de sexta-feira, 27 de janeiro, ocorreu numa atividade intitulada "Encontro mundial de movimentos sociais com o presidente Hugo Chávez Frías". Na imensa faixa colocada atrás da mesa do evento, lia-se "A luta antiimperialista dos povos".

Chávez manteve-se prudentemente afastado das atividades do Fórum, para não alimentar os rumores de possível "aparelhamento". Apesar disso, as emissoras de televisão do Estado, a exemplo da TVE do Rio Grande do Sul, em anos anteriores, transmitiram inúmeras atividades, além de veicularem entrevistas com participantes do encontro. O metrô de Caracas foi franqueado aos participantes. O tom surpreendente foi a baixa participação de venezuelanos durante esses cinco dias.

A atividade do Poliedro foi uma iniciativa dos movimentos populares. Sabedor da importância dos Fóruns, Chávez aceitou o convite. Horas depois partiria para Cuba.

A polêmica instaurada agora é se Chávez se imiscuiu, ou não numa atividade cujos participantes, em todo momento, proclamam sua autonomia. Além disso, vale perguntar se a proposta presidencial é factível, ou não.

Sobre a primeira questão, é preciso dizer que cada um propõe e fala o que quiser no Fórum Social Mundial. A autonomia se constrói na prática e não com palavras apenas. Se Chávez ou Lula - os chefes de Estado que até agora se fizeram presentes a encontros dessa natureza - têm espaços e atenções privilegiadas, por motivos óbvios, suas consignas podem ser aceitas, ou não.

Sobre a segunda demanda - a oportunidade do apelo - é preciso levar em conta a dinâmica do governo venezuelano e sua contribuição à luta antiimperial. O governo Chávez nasceu no início de 1999, quase coincidentemente à grande arrancada do movimento anti globalização neoliberal, nos protestos de Seattle.

Quando acontece o primeiro Fórum de Porto Alegre, em 2001, Chávez acabara de legitimar-se através de sete eleições consecutivas para diversos cargos da República. O terceiro Fórum, em 2003, acontece durante o locaute petroleiro que paralisou a economia nacional por dois meses. Contestado interna e externamente, o ex-tenente-coronel vem a Porto Alegre e tem calorosa recepção, o que auxilia sua recuperação interna. E, em 2005, sua apresentação para mais de 30 mil pessoas, no ginásio do Gigantinho, foi o ponto alto daquela edição. Assim, de certa maneira, os passos do governo bolivariano correm em paralelo aos da grande assembléia por outro mundo possível. Mas, como foi dito, é preciso levar em conta os ritmos.

Respostas imediatas

Chávez faz um governo de emergências. Os constantes ataques da direita - dentro e fora do país - geraram um clima de alerta constante. A administração depara-se com ameaças a toda hora, ao mesmo tempo em que tenta dar respostas imediatas à sua base social, tendo na mão um aparelho de Estado ineficiente, corrupto e obstruído.

As 12 missões que patrocina - de alfabetização, saúde, abastecimento, documentação, universitária etc. - ainda não se integraram totalmente à estrutura permanente da máquina pública. Formam uma espécie de exoesqueleto do Estado. Ou seja, uma estrutura externa sobreposta àquela existente, para não deixar carências nos serviços básicos sem resposta. Democratizar o Estado não é e não será tarefa das mais tranqüilas. Para se ter uma comparação, vamos rememorar dois fatos.

O primeiro é que, apesar de ser um militar, Chávez não tinha maioria no alto comando das forças armadas no momento de sua posse, em 1999. Esta foi uma das condicionantes básicas do golpe de abril de 2002. O executivo só consegue inverter essa situação com a derrota do movimento. Ao longo do ano, vão para a reserva ou são exonerados dezenas de oficiais.

O segundo fato é que a PDVSA, a estatal petroleira, só é controlada pelo poder público quatro anos após a posse do presidente. Isso acontece após os processos administrativos instaurados na seqüência do paro de dois meses, a partir de fevereiro de 2003.

Assim, as transformações no aparelho de Estado ainda demorarão e irão requerer um acúmulo de forças maior, tanto do governo, quanto do movimento de massas. Apesar de ser proclamada constantemente, ainda não aconteceu uma revolução nas terras de Bolívar, capaz de alterar as estruturas estatais.

Caminha-se nessa direção, mas ela não depende apenas de vontades, mas de pressão popular e de definições mais claras da administração federal e das forças que a apóiam. Tanto nas mudanças nas forças armadas, quanto na PDVSA, havia intensa legitimidade para suas realizações.

Enquanto essas condições não aparecem, governa-se com pressões de urgência.

"Outro mundo já!"

A ansiedade com relação ao Fórum, tocada no discurso, é expressa pela consigna estampada pela Telesur, a emissora internacional criada em consórcio com outros governos: "Outro mundo já!", em lugar do mote tradicional dos chamados altermundistas, "Outro mundo é possível".

O discurso de Chávez no Poliedro foi uma espécie de Gigantinho 2, a continuação da alocução de Porto Alegre. Lá, ele já detalhara sua apreciação da conjuntura internacional e definira-se claramente por uma opção socialista. "Não há esperança sob o capitalismo", repete a toda hora.

Agora, mudou a marcha e acelerou. "Amanhã pode ser tarde!", "Não podemos perder tempo!", "Socialismo ou morte!" são as expressões-síntese da pressa governamental. "Não podemos permitir que o Fórum se folclorize", falou, repetindo Ramonet e respondendo implicitamente ao chamado de Bamako.

"Por isso clamo ao Fórum Social Mundial, respeitando sua autonomia, para que formemos um grande movimento mundial anti-imperialista", disse Chávez da tribuna, envergando uma nada discreta camisa vermelha. "Um Fórum no qual se debate e se debate, sem chegar a conclusões, acaba por perder-se".

É possível que a palavra "folclorizar" seja um pouco pesada, ou ainda que Chávez não perceba mais claramente a dificuldade de uma reunião como a desses dias, com atores tão diversos, votar ou aprovar documentos ou pautas. Há desconfortos com as opiniões do Comandante. As preocupações principais apontam para a idéia de que o Fórum não se esgota em encontros anuais, mas continua na pauta concreta de cada movimento ou luta. Assim, propostas exixtiriam e não precisariam de formalização para se materializar.

Mesmo assim, o apelo de Chávez deve ser levado em conta. O Fórum precisa ganhar em eficiência, objetividade e proposições. Grupos e organizações em seu interior podem aprovar resoluções à vontade.

Talvez se mediasse um pouco mais as palavras, o presidente não gerasse tais insatisfações. Mas definitivamente, Chávez não é sutil... Nada de anormal niso: o mundo em que vivemos tampouco o é.