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Quanto mais o governo Bush coloca em prática sua política de “guerra infinita”, mais se desordena o mundo. Quando o mundo deixou de ser bipolar, para ser unipolar, houve quem imaginasse que seria um mundo mais ordenado – mesmo sob as normas da “pax americana”.

Nada disso aconteceu. Ao invés de tentar impor sua hegemonia, através das idéias aparentemente triunfantes – expressas na ilusão do “fim da história” – da democracia liberal e da economia capitalista de mercado, os EUA acentuaram seu papel de potência imperial. Os atentados de 2001 foram respondidos com uma nova doutrina de segurança, que afirma que os EUA não permitirão que nenhum outro país ou bloco de países possa questionar sua superioridade militar. Assim, reivindicam o direito de “ataques preventivos” contra forças ou governos que acreditam que possam atacá-los e declaram uma “guerra infinita” contra o que chamam de “forças do mal”, que buscam identificar com o terrorismo.

O resultado, a década e meia do advento de um mundo unipolar, hegemonizado pelos EUA, é desastroso. Os EUA não foram mais cenário de atos terroristas – objetivo primeiro do governo Bush -, mas o preço pago pela política de militarização dos conflitos faz com que a situação no Iraque, no Afeganistão, na Palestina, na Colômbia – os principais epicentros da “guerra infinita” -, esteja piorando significativamente.

O Iraque está à beira de uma guerra civil. Os belicistas do governo Bush podem estar contentes, por considerar que xiitas e sunitas se anulam, guerreando entre si e deixando as tropas estadunidenses momentaneamente de lado, como inimigo comum. Mas a possibilidade de retiro das tropas, mesmo com os soldados pronunciando-se por grande maioria pelo retorno para casa e a população atribuindo a pior avaliação a Bush, não tem prazo para efetivar-se. Como Bush reafirma que só se retirarão depois de cumprido seu objetivo – que se supõe seja a instalação de um governo “liberal”, que possa se manter por si próprio -, ninguém prevê quando isso possa acontecer, conforme esse objetivo vai ficando cada vez mais longínquo.

No Afeganistão, nunca houve tantas ações de resistência contra a ocupação militar do país. A política de privilégio absoluta do governo das iniciativas do governo de Israel levou à eleição de um governo do Hamas na Palestina, rompendo-se qualquer tipo de negociação de paz. Na Colômbia, a reeleição do candidato de Washington, Álvaro Uribe, representará mais quatro anos de guerra.

O mundo é um lugar mais e não menos inseguro com a política dos EUA. A resposta à violência com violência gera uma escalada incontrolável. Os EUA optaram pelo domínio no lugar da hegemonia, porque tampouco acreditam nas suas idéias, no seu projeto de mundo.

Porém, a incapacidade dos EUA de impor uma ordem minimamente estável no mundo, não significa que surjam alternativas no horizonte. Nenhuma força se propõe a mediar os conflitos, a demonstrar que são possíveis soluções pacíficas, negociadas e justas para os conflitos mundiais. Complacentes com os EUA alguns, aliados ativos outros, críticos impotentes outros mais.

O próprio Fórum Social Mundial, comprometido com a luta por “um outro mundo possível”, tem estado praticamente ausente da luta pela paz no mundo, depois das imensas manifestações contra a guerra do Iraque. Não formula alternativas, não organiza comissões que façam contatos e proponha propostas de paz para cada conflito. Terminará congregando os descontentes, que lutam por soluções locais e setoriais. Abandonando, no entanto, o mundo às grandes potências, comprometidas com a indústria bélica e o comércio de armamentos que alimenta e lucra com esses conflitos.

Uma das lições a tirar é a de que um mundo unipolar não significa um mundo mais ordenado. Quando essa ordem é imperial – como no caso dos EUA -, esse poder precisa de contrapesos, de controles, de resistência e de capacidade de reação. Senão o mundo fica – como acontece agora – à mercê de políticas guerreiristas e aventureiras. Salvar o mundo é, hoje, salva-lo do domínio estadunidense.