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Ao nos debruçarmos sobre a história, vemos como grandes figuras políticas exerceram papéis decisivos para evitar que ela se tornasse monopólio de um homem (monarquias absolutas e ditaduras), de uma classe (capitalismo) ou de um partido (socialismo autocrático), embora o segundo modelo ainda predomine, excluindo a maioria do acesso democrático aos bens econômicos.

A política é a mais nobre das atividades humanas. Dela dependem existir ou não a miséria, a violência, a alimentação, a saúde e a educação de um povo. Dela emana a nossa segurança pública, o alcance de nossa liberdade, o horizonte de nossa prosperidade e a perenidade de nossa paz.

Em si, a política é uma abstração. O que existe de fato é a relação de poderes. Aqui reside o âmago da questão. Sendo o poder uma instância de potencialização exacerbada da vontade (e da vaidade) individual, e o proscênio para o qual convergem todas as atenções (ninguém é indiferente à política, ainda que a odeie), muitos anseiam por ele. Nessa corrida ao pote há, como em qualquer maratona, todo tipo de gente; sérias e cínicas; honestas e corruptas; competentes e meros arrivistas.

Nas últimas décadas, a política brasileira amesquinhou-se, desprovida de grandeza e dignidade. Não se fala em bem comum, pátria, soberania nacional, reformas de estruturas. Ouve-se apenas o economês proferido pelos devotos da "mão invisível" do mercado, arautos da responsabilidade fiscal cega à responsabilidade social, empenhados em reduzir a política a meras operações contábeis. O economicismo escanteia as grandes estratégias nacionais. Para qual modelo de Brasil os políticos acenam nos próximos quatro, dez ou vinte anos?

Diante desse horizonte vazio de propostas consistentes e convincentes para tirar o Brasil do atraso, do subdesenvolvimento, da condição de eterno "emergente", que tipo de campanha presidencial teremos pela frente?

Receio que nenhum partido ou candidato deixe claro seu compromisso, se eleito, para nos próximos quatro anos incrementar o nosso índice de desenvolvimento humano. Não é o PIB que deve crescer, é a qualidade de vida da população. Como ficará a reforma agrária, capaz de absorver multidão de mão-de-obra no campo e diminuir o desemprego? E a tributária, imprescindível para promover distribuição de renda e reduzir a desigualdade social? E a política, destinada a sanear o poder público de maracutaias e corruptos?

Temo que a campanha presidencial seja uma reedição do triste espetáculo das CPIs, que tanto estardalhaço aprontaram sem quase nada apurar e prender ninguém, funcionando apenas como circo dos horrores onde há sustos e medos sem maiores conseqüências. Temo a baixaria na TV, candidatos emporcalhando adversários, diatribes e injúrias se sobrepondo a propostas e programas voltados a erradicar as causas da violência urbana, do desemprego, da má qualidade da educação e do atendimento à saúde.

Nas eleições presidenciais de outubro haverá um vencedor. Mas é preciso evitar que o povo saia perdedor. Por isso, a pior atitude é a da avestruz: meter a cabeça na areia e esperar a eleição passar. A hora é agora. Hora de exigir de partidos e candidatos que evitem alianças espúrias, sejam transparentes na contabilidade de campanha, superem o varejo das intrigas e assumam o atacado de estratégias viáveis para mudar a realidade brasileira, falem menos mal do concorrente e mostrem o que de melhor se propõem a fazer.

Se os eleitores permanecerem passivos, como meros telespectadores em torno da arena dos leões, os candidatos ficarão isentos de assumir compromissos e, sobretudo, de prestar contas do que prometeram e fizeram ao ocupar funções executivas. Mas isso não basta. É preciso renovar o Congresso, reeleger os deputados e senadores que primam pela ética e cuidado do bem comum, e cassar, pelo voto, os corruptos, os oportunistas, os que fazem na função pública um meio de favorecer-lhes a vida privada.

O futuro da nação está, neste ano, em mãos dos eleitores.