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Yang Jiechi
©Xinhua

A trégua que devia marcar as celebrações da festa muçulmana de l’Aid foi amplamente violada na Síria. O governo teve o cuidado de cortar os principais eixos viários para se assegurar que eventuais incidentes permanecessem isolados e não pudessem servir de lança-chamas. Tempo perdido : grande número de brigadas do Exército sírio livre (ESL) receberam ordens dos seus “sponsors” para lançar novos ataques, aos quais o Exército árabe sírio não deixou de responder. Em resumo, se certas regiões puderam beneficiar de quatro dias de acalmia, o balanço ao nível nacional é particularmente decepcionante.

Segundo o local onde se habita, se considerará pois esta trégua como um êxito ou um falhanço. No plano diplomático, ela permite entretanto avaliar as dificuldades que encontrarão as forças de paz, logo que o Conselho de segurança as decida colocar no terreno. A primeira, é a ausência de interlocutor representativo do ESL ; a segunda, é a má-fé da França.

O ESL é composto por inúmeros grupos armados que têm cada um a sua própria lógica. É suposto o conjunto obedecer a um comando implantado numa base da OTAN na Turquia. Mas nada disto ocorre dado que uma forte concorrência opõe os “sponsors” francês, catarense, saudita e turco. Cada um consagra mais esforços a estender a sua influência, em detrimento da dos seus aliados, do que a derrubar o regime. As brigadas de base obedecem a quem as financia diretamente e não levam mais em conta a coordenação da OTAN. Por outro lado, apesar das declarações, nunca existiram laços de subordinação entre os conselhos políticos que se reúnem nos salões de Paris, em Istanbul e no Cairo, e os combatentes na Síria.

Os líderes ocidentais não cessam de reclamar a unificação do comando do ESL, mas na realidade, eles temem-na. Porque se ela permitiria dispor de um interlocutor para fazer a paz, por outro lado descredibilizaria os conselhos políticos no estrangeiro e tomaria o seu lugar. Não se poderá pois esconder mais a verdadeira natureza desta pseudo- « revolução »: nenhum grupo armado se bateu pela democracia, e dentre eles a grande maioria entende impor uma ditadura religiosa sunita.

Um « Comando central dos Conselhos revolucionários sírio » acaba de ser criado em Idlib. A ele aderiram cerca de 80 % das forças do ESL. Toma como chefe espiritual o xeque Adnan al-Arour que pronunciou um discurso para o efeito. Lendo um texto moderado, cujo estilo estava bastante afastado das suas prédicas habituais, ele felicitou o seu auditório pela criação do Comando militar central, apelou aos três conselhos políticos rivais no estrangeiro para se unirem, e apelou à constituição de um Conselho legislativo. Tratar-se-ia bem entendido da transferência do poder legislativo para os religiosos, do qual humildemente aceitaria ser ele o chefe, para impor a chaaria. De passagem, ele lembrou que o objectivo primeiro da « revolução» é o de derrubar não as instituições, mas os princípios do regime, quer dizer a laicidade e o nacionalismo árabe.

Nesta altura, é preciso notar que embora o ESL inclua muito poucos combatentes sírios, ele é apoiado por vários milhões de civis, nomeadamente no Norte do país. Ora, nas manifestações organizadas aqui e ali, jamais as multidões brandiram retratos de líderes políticos no exílio (Buhran Ghalioum, Abdulbaset Sieda, etc.), mas na maior parte das vezes gritaram o nome do xeque Al-Arour. Sobretudo repetiram os seus slogans, como « os cristãos para Beirute! os alauitas para a cova ! ». Os Sírios que apoiam o ESL não querem uma democracia, mas reclamam sim uma ditadura à saudita, limpando o sunismo dos seus sufis e reprimindo todas as minorias religiosas.

Para resultar, a trégua deveria ter sido negociada pelo enviado especial dos secretários gerais da ONU e da Liga árabe, Lakdhar Brahimi, com o xeque Adnan Al-Arour. Mas um tal encontro teria marcado o fim do sonho da « primavera árabe » e posto em evidência que o Ocidente financia e arma o mais extremista sectarismo religioso.

O segundo obstáculo que encontrará o Conselho de segurança para implementar uma força de paz, é o extremismo dos fins francês. Paris bloqueia a aplicação do acordo assinado a 30 de junho em Genebra. O texto redigido por Kofi Annan é propositadamente vago em certos pontos, de modo a que as grandes potências pudessem subscrevê-lo e remeter para mais tarde a resolução das contradições restantes. Depois, Washington, Moscou e Pequim puseram-se de acordo. Paris persiste em colocar-se à margem.

A questão é saber qual oposição síria é legítima para participar numa transição política, e em que consiste esta transição. Para a França, é evidentemente o Conselho nacional sírio cujos membros são abrigados e abundantemente subvencionados em Paris que devem formar o núcleo duro do próximo governo. Enquanto para Moscovo e Pequim, os políticos que apoiaram a acção armada e apelaram à intervenção estrangeira são indignos da sua pátria. Só os opositores que defenderam a independência do seu país e a soberania do seu povo são legítimos. Para a França, trata-se de organizar a transição entre uma Síria governada por Bachar el-Assad (sem a Total – a companhia de petróleos francesa, Nota do Tradutor) e uma Síria sem el-Assad (mas com a Total). Enquanto para Moscovo e Pequim, a transição, é passar da actual situação de divisão e de guerra civil para a unidade nacional e para a paz. Pelo seu lado, Washington está pronta para concessões desde que se acabe rápido e que se evite um incêndio de toda a região.

Tirando as lições do cessar-fogo de l’Aid, a China acaba de propor uma solução original. Em lugar de apresentar um plano por etapas politicas, ela sugere regular o problema de região para região. Este procedimento permitiria inverter o processo actual da extensão do conflito e, pelo contrário, reduzir as zonas de guerra. Aproveita a todos, mas choca frontalmente com a estratégia francesa : na tribuna da Assembleia geral da ONU, o presidente François Hollande reclamou um mandato do Conselho de segurança para as « zonas libertadas ». Paris sonha com nostalgia pelo mandato que a SDN (Sociedade das Nações – NdT) lhe outorgou para legalizar a sua conquista da Síria (1920-1946). E, já agora, não conseguiu fazer adotar a bandeira da colonização aos « revolucionários »?

Pronunciando um discurso na universidade nacional de Singapura, Kofi Annan sublinhou que a responsabilidade dos acontecimentos actuais incumbe a certos Estados ocidentais : desviaram o mandato do Conselho de segurança para proteger a população líbia para uma operação destinada a mudar o regime de el-Kadhafi. Hoje em dia, recusam condenar terrorismo e fomentam o martírio da população síria esperando assim encontrar um meio de derrubar o regime dos el-Assad.

Tradução
Alva