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Presidente Recep Tayyeb Erdogan e sua esposa.

"Temos assistido a crueldade da organização ISIL ao demolir todos os santuários, templos e túmulos, mesmo aqueles que são atribuídos aos profetas e companheiros, como sendo uma manifestação de evasão (politeísmo), como dito por eles. No entanto, quando se trata do santuário do avô dos turcos otomanos "Suleiman Pasha" dentro da Syria e nas áreas sob o controledo ISIL, não só o ISIL se refreou de destruí-lo, mas facilitou a entrada de tropas turcas para tais santuários e os protegeu. As forças do ISIL estão até hoje a protegê-los e não a destrui-los."

O escritor Nawaf Qadimi ignorou essas palavras e, em um artigo de duas partes publicado no Al-Arabi Al-Jadeeed newspaper, financiado pelo Qatar, o escritor da Irmandade Muçulmana Saudita respondeu com um título-pergunta: "Uma grande pergunta... como o ISIL foi criado?", e, em seguida, outro anexo apareceu sob o título "Voltando à pergunta... quem está por trás do ISIL?". A resposta veio em seqüência: o governo de Nouri al-Maliki no Iraque, a República Islâmica do Irã, até a Síria... eles são todos claramente ingênuos sobre o que significa o depoimento citado acima por Qadimi.

Recep Tayyeb Erdogan postou-se, em Julho/2012, diante da audiência do seu partido para justificar a intervenção do governo na crise na Síria, dizendo: “É que nós somos os descendentes dos seljúcidas e os remanescentes do Sublime Estado Otomano... O Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) é um partido em que o espírito dos seljúcidas [1] e dos otomanos está profundamente enraizado.” Colocando ênfase nessa posição, ele a repetiu ao abordar outro discurso em setembro do mesmo ano, dizendo: "Estamos caminhando na trajetória de nossos antepassados conquistadores, desde o Sultão Alp Arslan até Fatih Sultan Mehmet "o Conquistador" [2]. Tendo assumido o poder em 1046 AD, Alp Arslan, o segundo governante do estado seljúcida, foi capaz de expandir as fronteiras do seu estado incitando o sectarismo em guerras particularmente contra os fatímidas. Durante seu reinado, escolas Nezamiyeh, que endureceram uma certa doutrina que considera outras doutrinas islâmicas como infiéis, foram estabelecidas. Ele também esbanjava fundos em defensores trazidos por ele a Bagdá para acusar os fatímidas de infiéis e justificar a guerra contra eles. Talvez a herança de Alp Arslan, que Erdogan está glorificando, nos ajude a entender a política da Turquia, não só em termos de sua interferência na crise Síria, mas até mesmo sobre seu apoio as organizações Takfiri, sendo ISIL a mais importante.

O pai do financiamento do ISIL é amigo pessoal de Erdogan

O nome do empresário Saudita Yassin al-Qadi tem sido associado a organizações classificadas como terroristas internacionalmente. Em particular, a imprensa estrangeira e a mídia de oposição turca o descrevem como " pai do financiamento da Al-Qaeda". Após os eventos de Setembro 11/2001, al-Qadi - junto com outras figuras - foi incluído na lista de terroristas do mundo e seu nome tornou-se estereótipo de terrorista. Isso fez com que vários países o proibissem de entrar em seus territórios, a Turquia sendo um deles. Anteriormente, os meios de comunicação turcos documentaram uma foto-escândalo: reuniões de Erdogan com Yassin al-Qadi, bem como reuniões longas com Bilal Recep Tayyip Erdogan, o filho dele. O escândalo que foi vazado por elementos da segurança turca surgiu no contexto do caso de corrupção de que foi acusado o filho da antiga primeira-ministra turca. Tendo isso como base, um grande número de elementos do corpo de segurança foi preso, acusado de tramar um golpe contra o governo.

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No entanto, o jornalista francês Thierry Meyssan descreve Yassin al-Qadi como um amigo pessoal de Dick Cheney (ex-vice-presidente dos Estados Unidos) e Recep Tayyip Erdogan. De acordo com ele, al-Qadi visitou quatro vezes a Turquia durante 2012, e "seu avião costumava aterrizar no segundo Aeroporto de Istambul e ele foi ser recebido pelo primeiro-ministro pessoalmente, sem passar pelo portal da inteligência e depois de desligadas as câmeras de segurança".

O jornal Turco Gmehoriet publicou detalhes sobre as investigações conduzidas pelo judiciário turco sobre o mesmo caso e mencionou que Recep Tayyip Erdogan introduziu Yassine al-Qadi como um empresário saudito, visitando a Turquia para investir, e negou que ele era um terrorista. E o citou dizendo: "Eu confio no Sr. Al-Qadi, assim como eu confio em mim mesmo. Ele é um benfeitor".

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O jornal turco, após a publicação de declarações de Erdogan no judiciário turco, revelou que a polícia turca monitorou 12 visitas feitas pelo saudita à Turquia. Sete dessas visitas foram feitas com a ajuda de Erdogan, durante o período em que ele fora proibido de entrar na Turquia porque o nome dele havia sido adicionado aos dos terroristas procurados no mundo da lista do FBI americano. O jornal comentou dizendo: "Quando a polícia turca estava procurando al-Qadi, ele estava tendo reuniões com o Primeiro Ministro". Além disso, publicou uma fotografia que mostrou separadamente o homem citado, Erdogan e o chefe da inteligência turca Hakan Fidan quando eles estavam indo a uma reunião. O jornal observou que Fidan se reunira com al-Qadi cinco vezes, no período em que Al-Qadi estava proibido de entrar em território turco.

Também são interessantes as gravações vazadas que foram publicadas pelo jornal e que mostram que Yassin al-Qadi costumava dar ordens ao escritório de Erdogan. Ele costumava fazer ligações para informá-los que ele havia decidido encontrar-se nesse dia com Erdogan, e que este último não deveria tomar parte de quaisquer outras obrigações. O jornal informou detalhes sobre as datas das reuniões entre os dois homens, o que implica que as reuniões estavam sendo assistidas por Fidan e pelo empresário egípcio Osama Qutob, filho de Muhammad Qutob, irmão do líder da Irmandade Sayyid Qutob que detém a cidadania turca e está vivendo com seu pai na Turquia no momento. Isto também significa que as reuniões estavam ocorrendo às vezes na casa do empresário Turco Mustafa Latif Topas em Istambul, com a presença do filho de Erdogan e Moaz, filho de al-Qadi. As gravações atestam que Qutob foi encarregado de entregar as mensagens de insurgentes no campo de batalha na Síria para Erdogan, o que significa que as reuniões destas figuras ultrapassaram as questões de investimento, e talvez eles explorassem um prêmio pela prática de caridade!

“Foundação de Ajuda Humanitária (IHH)” fornece cobertura ao terrorismo

De acordo com o blog da emissora americana Dave Emory, os meios de comunicação turcos e os lados políticos que se opõem ao Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) acusam Erdogan e particularmente o filho dele, Bilal, de se aproveitarem da "Fundação de Ajuda Humanitária" (IHH) como cobertura para apoiar organizações terroristas. Ele revelou que a organização é financiada através do próprio Yassin al-Qadi, e que a organização turca é um dos ramos da Associação "União do Bem" (UG), a qual é supervisionada pelo Sheikh Yusuf al-Qaradawi. Ele ressaltou que o ramo da "União do Bem" foi proibido na Alemanha em 2010 devido à sua ligação com "organizações terroristas", e que o Departamento de Estado listou a "União do Bem" como uma organização terrorista estrangeira.

No mesmo contexto, Thierry Meyssan põe ênfase nisso quando fala sobre o carro da polícia turca que parou "um caminhão carregado de armas enviado à al-Qaida, perto da fronteira com a Síria. Um dos três homens que foram presos afirmou que a carga pertencia a uma Associação Humanitária da Organização da Irmandade Muçulmana na Turquia, enquanto outro dos detidos disse que ele era um elemento em uma missão relacionada com o serviço de inteligência turco".

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A Turquia é a via do petróleo, dos lutadores e das armas para o ISIL

Esses dados aparecem após o que foi transmitido pelos meios de comunicação turcos e estrangeiros sobre o papel turco na transfência do óleo de Raqqa, Deir al-Zour, Mosul e outras cidades que são controladas pela organização Takfiri ao mercado global. O diretor de pesquisa do Instituto para Análise Militar do Oriente Médio e do Golfo, Theodore Karasik, falou sobre cerca de 3 milhões de dólares recebidos pelo ISIL como receitas diárias fora de suas receitas do petróleo, a soma que financia suas atividades.

Aqueles retornando da Turquia referem-se à simpatia pública, na rua, pró-governo turco, com o ISIL. Sites de redes sociais publicam fotos das bibliotecas islâmicas em Istambul vendendo "T-shirts" e mercadorias com o logotipo ISIL nelas. Talvez esta notícia não seja mais chocante depois que a televisão alemã (ARD) revelou a abertura de um escritório do ISIL na rua al-Fateh em Istambul, gerido pelos turcos. Atravéz dele, ocorre o processo de apoio e abastecimento da organização Takfiri no Iraque e na Síria, com fundos e combatentes.

Turquia: Itens do ISIL em estoque

O próprio canal alemão revelou, em um relatório de vídeo que foi ao ar, que o ISIL tem campos de treinamento em território turco:

1 – O Campo de GAZIANTEP: um campo de treinamento para os combatentes do ISIL. De acordo com o relatório publicado pelo site de "Today’s Zaman", um jornal de língua inglesa na Turquia, o governador do Gaziantep (Erdal Ata) correu para uma coletiva de imprensa para negar o que foi revelado pela televisão alemã. No entanto, ele falou sobre a prisão de 19 elementos que pertencem ao ISIL na cidade, entre aqueles que vieram de países europeus, antes de submetê-los a julgamento.

Além disso, o jornalista libanês Hassan Hamade, em uma entrevista anterior com o Al-Manar, chamou a atenção para a existência de três campos de treino na Turquia para os combatentes das organizações extremistas [3].

2 - O Campo de ORFA, no sudeste da Turquia: um acampamento de onde os pistoleiros vieram quando atacaram a cidade de Kasab cujos moradores são predominantemente armênios.

3 - O Campo de OSMANIYA em Adana, ao sul da Turquia: situa-se perto das principais bases da Força Aérea dos EUA em território turco. Ainda, o que é interessante é que o acampamento de Osmaniya situa-se uns poucos passos dos pontos de interseção dos gasodutos vindos do Iraque e da Ásia Central que esvaziam o frete no porto turco de Ceyhan, no mar Mediterrâneo.

4 – O Campo de KARMAN: situa-se também em Adana, mas é muito mais perto de Istambul. Além disso, um documento publicado anteriormente pelo jornalista francês Thierry Meyssan revelou que a Turquia facilitou a infiltração de 5.000 combatentes, que pertencem à al-Qaeda, no território sírio, após ter recebido treinamento na Líbia.

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O líder do ISIL " Mazen Abu Mohammed" recebeu tratamento em um dos hospitais do governo Turco na cidade de Hatay em abril de 2014

Antes de falar sobre a relação entre a Turquia e o ISIL, o canal americano "CNN", ao final de 2013, transmitiu um relatório em vídeo no qual estava documentado que a Turquia facilitara a infiltração de combatentes estrangeiros na fronteira Síria. O correspondente do canal americano tirou fotografias de jovens vindo da Mauritânia, PIA, Egito, Arábia Saudita e da Grã-Bretanha no aeroporto de Hatay, uma província na fronteira com a Síria. Ele encontrou um combatente iraquiano, que acabou por pertencer à organização ISIL, e que durante uma entrevista disse: "Nós queremos um califado islâmico estendendo-se do Iraque à Síria, sem barreiras separando os dois países e sob o domínio islâmico". O relatório mostrou que a sede que levantou a bandeira do ISIL era visível do território turco.

Talvez o relatório da rede de televisão americana esclareça o argumento do jornalista turco Orhan Kama Genghis: "as fortalezas do ISIL estão localizadas perto da fronteira turca, e isto não aconteceu por acaso". O jornalista Turco Kadri Gursel fala sobre o fato de que os territórios de fronteira turca transformaram-se em uma via fácil, facilitando a chegada e a partida dos militantes, onde não existem procedimentos formais (vistos, etc..) que possam incomodá-los, referindo-se à cooperação da Agência de Inteligência turca com os militantes. Acima e além, o MP Muharram Ingee, do partido da oposição turca Povo Republicano, disse que o líder do ISIL "Mazen Abu Mohammed" recebeu tratamento em um dos hospitais do governo turco na cidade de Hatay em abril de 2014, publicando uma foto do terrorista no hospital.

A revisão destes dados fornece uma pronta resposta para a pergunta do escritor Saudita Nawaf Qadimi, que é conhecido por seu apoio à Irmandade Muçulmana, onde o fenômeno do ISIL nos leva a evocar a história. Os seljúcidas desenharam as políticas para expandir sua influência, e suas ferramentas foram os defensores do takfir e os combatentes recrutados em nome da religião. Aqui está Erdogan na realidade, andando nas pegadas dos antepassados e suas políticas, e as ferramentas são os textos do takfir para o qual está a recrutar combatentes em nome da própria religião! Isto é, a história está nos ajudando a compreender nosso presente...

Tradução
Marisa Choguill

[1] Pertencente ao estado de Seljuk (1037-1194), atribuído a Seljuk, o avô de Tughril Beg, o fundador do estado. Eles eram turcos e sua meta incluía o Afeganistão, Irã, algumas partes da Turquia, Síria, Iraque e a Península Arábica.

[2] Fatih Sultan Mehmet é o Sultão Mehmet II e o sétimo Sultão do Império Otomano. Ele foi apelidado de Fatih (o conquistador) após a conquista dos Balcãs e da cidade de Constantinopla (atual Istambul).

[3] «Lettre ouverte aux Européens coincés derrière le rideau de fer israélo-US», par Hassan Hamadé, Réseau Voltaire, 21 mai 2014.