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Circuito de morte no “Mediterrâneo ampliado”

| Roma (Itália)
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Os holofotes político-midiáticos, focalizados nos fluxos migratórios Sul-Norte através do Mediterrâneo, deixam na sombra outros fluxos: os de Norte-Sul de forças militares e armas através do Mediterrâneo. E ainda mais: através do “Mediterrâneo ampliado”, área que, no quadro da estratégia EUA/Otan, se estende do Atlântico ao Mar Negro e, ao sul, até o Golfo Pérsico e ao Oceano Índico.

No encontro com o secretário da Otan, Stoltenberg em Roma, o premiê italiano Conte sublinhou “a centralidade do Mediterrâneo ampliado para a segurança europeia”, ameaçada pelo “arco de instabilidade do Mediterrâneo ao Oriente Médio”. Daí a importância da Otan, aliança sob comando estadunidense que Conte define como “a pilastra da segurança interna e internacional”.

Uma completa distorção da realidade. Foi fundamentalmente a estratégia EUA/Otan que provocou o “arco de instabilidade” com as duas guerras contra o Iraque, as outras duas guerras que destruíram os Estados iugoslavo e líbio e a guerra para demolir o Estado sírio.

A Itália, que participou de todas estas guerras, segundo Conte desempenha “um papel chave para a segurança e a estabilidade do lado sul da Aliança”. De que modo, compreende-se a partir do que a mídia esconde.

O navio Trenton da Marinha de Guerra dos EUA, que recolheu 42 refugiados (autorizados a desembarcar na Itália diferentemente dos que estavam no Aquarius), não se encontra na Sicília para desenvolver ações humanitárias no Mediterrâneo: é uma unidade veloz (até 80 km/h), capaz de desembarcar em poucas horas na costa norte-africana um corpo de expedição de 400 homens e seus equipamentos.

Forças especiais dos EUA operam na Líbia para treinar e dirigir formações armadas aliadas, enquanto drones armados dos EUA, decolando de Sigonella, golpeiam alvos na Líbia. Em breve, anunciou Stoltenberg, operarão desde Sigonella também drones da Otan.

Estes integrarão o “Hub de direção estratégica da Otan para o Sul”, centro de inteligência para operações militares no Oriente Médio, Norte da África, Sahel e África subsaariana.

O Hub, que se tornará operacional em julho, tem sede em Lago Patria, no Comando da força conjunta da Otan (JFC Nápoles), sob as ordens de um almirante estadunidense – atualmente James Foggo – que comanda também as forças navais dos EUA na Europa (com quartel general em Nápoles-Capodichino, a Sexta Frota estacionada em Gaeta) e as forças navais dos EUA paraa África. Tais forças foram integradas pelo porta-aviões Harry S. Truman, há dois meses no Mediterrâneo com seu grupo de ataque.

Em 10 de junho, enquanto as atenções midiáticas se concentravam sobre o Aquarius, a frota dos EUA com oito mil homens a bordo, armada com 90 caças e mais de mil mísseis, estacionava no Mediterrâneo oriental, pronta para golpear na Síria e no Iraque.

Nos mesmos dias, em 12 e 13 de junho, fazia escala em Livorno o Liberty Pride, um dos navios militarizados dos EUA, embarcando nas suas 12 pontes outra carga de armas que, desde a base estadunidense de Camp Darby, são enviadas mensalmente à Jordânia e Arábia Saudita para as guerras na Síria e no Iêmen.

Assim alimentam-se as guerras que, unidas aos mecanismos neocoloniais de exploração, provocam o empobrecimento e o desaparecimento de populações. Em consequência, aumentam os fluxos migratórios em condições dramáticas, que provocam vítimas e novas formas de escravidão.

“Agora parece que ser duro com a imigração compensa”, comenta o presidente Trump referindo-se às medidas decididas não só pelo ministro do Interior da Itália, Salvini, mas por todo o governo italiano, cujo premiê é definido como “fantástico”. Justo reconhecimento por parte dos Estados Unidos, que no programa de governo são definidos como “aliado privilegiado” da Itália.

Tradução
José Reinaldo Carvalho
Editor do site Resistência

Fonte
Il Manifesto (Itália)

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