Rede Voltaire
“Sob os nossos olhos” (4/25)

Os Irmãos Muçulmanos como auxiliares do Pentágono

Prosseguimos a publicação do livro de Thierry Meyssan, «Sous nos yeux» (Sobos Nossos Olhos). Neste episódio, ele descreve como a organização terrorista dos Irmãos Muçulmanos foi integrada no Pentágono. Ela foi ligada às redes anti-Soviéticas constituídas com antigos nazis durante a Guerra Fria.

| Damasco (Síria)
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Este artigo é extraído do livro Sob os nossos olhos.
Ver o Indíce dos assuntos.

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O Saudita Ousama Bin Laden e o seu médico pessoal, o Egípcio Ayman al-Zawahiri, publicam em 1998 «A Frente islâmica mundial contra os judeus e os cruzados». Este texto foi difundido pelo seu escritório no Londonistan ("Londristão"-ndT), o Advice and Reformation Committee. Al-Zawahiri organizou o assassínio do Presidente Sadate, depois trabalhou para os Serviços Secretos sudaneses de Hassan al-Turabi e Omar al-Bashir. Ele dirige agora a Alcaida.

5— Os islamistas nas mãos do Pentágono

No início dos anos 90, o Pentágono decide incorporar os islamistas —que até aí estavam unicamente na dependência da CIA— às suas operações. É a Operação Gládio B, em referência aos Serviços Secretos da OTAN na Europa (Gládio A [1]).

Durante uma década, todos os chefes islamistas —aí incluídos Osama Bin Laden e Ayman al-Zawahiri— se deslocam a bordo de aviões da US Air Force (Força Aérea americana). O Reino Unido, a Turquia e o Azerbaijão participam na operação [2]. Por conseguinte, os islamistas —que até aí eram combatentes da sombra— são agora «publicamente» integrados nas Forças da Otan.

A Arábia Saudita que é ao mesmo tempo um Estado e propriedade privada dos Saud— torna-se oficialmente a instituição responsável pela gestão do islamismo mundial. O Rei proclama uma Lei Fundamental, em 1992, segundo a qual «O Estado protege a fé islâmica e aplica a Charia. Impõe o Bem e combate o Mal. Cumpre os deveres do Islão (...) A defesa do islamismo, da sociedade e da pátria muçulmana é o dever de todo o súbdito do Rei».

Em 1993, Carlos, o Príncipe de Gales, coloca o Oxford Center for Islamic Studies sob o seu patrocínio, enquanto o Chefe dos Serviços Secretos sauditas, o Príncipe Turki, toma a direcção do mesmo.

Londres torna-se abertamente o centro nevrálgico da Gládio B, a tal ponto que se fala de «Londonistan» («Londristão»-ndT) [3]. Sob a égide da Liga Islâmica Mundial, os Irmãos Muçulmanos árabes e a Jamaat-i-Islami paquistanesa criam uma quantidade de associações culturais e religiosas ligadas à mesquita de Finsbury Park. Este dispositivo irá permitir recrutar inúmeros kamikazes, desde aqueles que irão atacar a escola russa de Beslan até Richard Reid, o «Shoe bomber». O Londristão inclui, em especial, inúmeros média, editoras, jornais (al-Hayat e Asharq al-Awsat —ambos dirigidos por filhos do actual Rei Salman da Arábia—) e televisões (o grupo MBC do Príncipe Walid bin Talal emite uma vintena de canais), que não são destinados à diáspora muçulmana no Reino Unido, mas, sim com emissões dirigidas ao mundo árabe; tendo o acordo entre os Islamistas e a Arábia Saudita sido estendido ao Reino Unido –-total liberdade de acção, mas interdição de ingerência na política interna. Este conglomerado emprega vários milhares de pessoas e movimenta gigantescas quantias de dinheiro. Ele irá permanecer aberto até aos atentados de 11 de Setembro de 2001, quando se tornará impossível aos Britânicos continuar a justificar a sua existência.

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Abu Mussab « o Sírio » (aqui com Osama Bin Laden) teorizou em termos islâmicos a «estratégia da tensão». Ele criou uma agência em Madrid e outra em Londres, às claras, para supervisionar os atentados na Europa.

Abu Mussab, «O Sírio» —um sobrevivente do golpe de Estado abortado de Hama, tornado agente de ligação entre Bin Laden e o Grupo Islâmico Armado (GIA) argelino— teoriza a «jiade descentralizada» [4]. No seu Appel à la résistance islamique mondiale, ele coloca em termos islâmicos a já bem conhecida doutrina da «estratégia da tensão». Trata-se de provocar as autoridades para suscitar uma terrível repressão que levará o povo a revoltar-se contra elas. Esta teoria fora já utilizada pelas redes Gládio da CIA /OTAN ao manipular a extrema-esquerda europeia nos anos 70-80 (Grupo Baader-Meinhof, Brigadas Vermelhas, Action Directe). É claro que estava fora de questão que esta estratégia vencesse e a CIA/OTAN sabiam que não havia nenhuma chance de êxito —ela jamais fora bem sucedida, fosse onde fosse—, pretendia sim utilizar a reacção repressiva do Estado para colocar os seus homens no Poder. «O Sírio» designa a Europa —e, claramente, nunca os Estados Unidos— como o próximo campo de batalha dos islamistas. Em 1995, ele foge de França após os atentados desse ano. Dois anos mais tarde, cria em Madrid e no Londristão o Islamic Conflict Studies Bureau, dentro do modelo da Aginter Press, que a CIA tinha criado em Lisboa durante os anos 60-70. As duas estruturas superam-se na organização de atentados de falsa-bandeira (desde o atribuído à extrema-esquerda na Piazza Fontana, em 1969, até aos atribuídos aos muçulmanos em Londres, em 2005).

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O assessor de comunicação dos Irmãos Muçulmanos, Mahmoud Jibril el-Warfally, treina os ditadores muçulmanos para falarem a linguagem democrática. Ele reorganizou a Al-Jazeera, depois tornou-se responsável da implantação das empresas dos EUA durante o regime Kadhafi na Líbia, e por fim dirige o derrube do próprio Kadhafi.

Simultaneamente, os Irmãos elaboram um vasto programa de formação de líderes árabes pró-EU. O Líbio Mahmoud Jibril El-Warfally, professor na Universidade de Pittsburg, ensina-os a falar de forma «politicamente correcta». Assim, ele forma emires e generais da Arábia Saudita, do Barém, do Egipto, dos Emirados, da Jordânia, do Kuwait, de Marrocos e da Tunísia (mas também de Singapura). Misturando princípios de Relações Públicas e estudo dos relatórios do Banco Mundial, os piores ditadores são agora capazes de falar, sem se rir, dos seus ideais democráticos bem como do seu profundo respeito pelos Direitos do Homem.

A guerra contra a Argélia transborda para a França. Jacques Chirac e o seu Ministro do Interior, Charles Pasqua, interrompem o apoio de Paris aos Irmãos Muçulmanos e tratam mesmo de interditar os livros de Yussef al-Qaradawi (o pregador da Irmandade). Para eles trata-se de manter a presença francesa no Magrebe que os Britânicos querem riscar do mapa. O Grupo Islâmico Armado (GIA) toma como reféns os passageiros do vôo da Air France Argel-Paris (1994), faz explodir bombas no RER, e em diversos pontos da capital (1995), e planeia um gigantesco atentado —que será impedido— aquando do Campeonato do Mundo de futebol (1998), incluindo a queda de um avião sobre uma central eléctrica nuclear. Em todos os episódios, os suspeitos, que conseguem escapar, encontram asilo no Londristão.

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Desfile da « Legião Árabe » de Osama Bin Laden para o Presidente Alija Izetbegovic na Bósnia-Herzegovina.

A guerra da Bósnia-Herzegovina começa em 1992 [5]. A ordens de Washington, os Serviços Secretos paquistaneses (ISI), sempre apoiados financeiramente pela Arábia Saudita, enviam 90.000 homens para participar nela contra os Sérvios (apoiados por Moscovo). Osama Bin Laden recebe um passaporte diplomático bósnio e torna-se conselheiro militar do Presidente Alija Izetbegović (de quem o Norte-americano Richard Perle é conselheiro diplomático e o Francês Bernard-Henri Lévy, conselheiro de imprensa). Ele monta a Legião Árabe com antigos combatentes do Afeganistão e arranja financiamento da Liga Islâmica Mundial. Por reflexo comunitário, ou em competição com a Arábia Saudita, a República Islâmica do Irão vai também em socorro dos muçulmanos da Bósnia. Em perfeita combinação com o Pentágono, ela envia várias centenas de Guardas da Revolução e uma unidade do Hezbolla libanês. Acima de tudo, fornece o essencial das armas utilizadas pelo Exército bósnio.

Os Serviços Secretos russos, que infiltraram o campo de Bin Laden, constatam que toda a burocracia da Legião Árabe é redigida em inglês e que a Legião recebe as suas ordens directamente da OTAN. Após a guerra, um Tribunal Internacional especial é criado. Este processou inúmeros combatentes por crimes de guerra, mas nenhum membro da Legião Árabe.

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O Egípcio Muhammad al-Zawahiri participou junto com o seu irmão, Ayman (actual chefe da Alcaida), no assassínio do Presidente Sadate. Também participou ao lado da OTAN nas guerras da Bósnia-Herzegovina e do Kosovo. Ele comandou também uma unidade do UÇK (Exército de Libertação do Kosovo).

Após três anos de calma, a guerra entre muçulmanos e ortodoxos reacende-se na ex-Jugoslávia, no Kosovo desta vez. O Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) é formado a partir de grupos mafiosos treinados em combate pelas Forças Especiais Alemãs (KSK) na base turca de Incirlik. Os Albaneses e os Jugoslavos muçulmanos têm uma cultura Naqchbandie. Hakan Fidan, o futuro chefe dos Serviços Secretos turcos, é o oficial de ligação entre a OTAN e a Turquia. Os veteranos da Legião Árabe integram o UÇK, do qual uma brigada é comandada por um dos irmãos de Ayman al-Zawahiri. Este destrói sistematicamente as igrejas e os mosteiros ortodoxos, e caça os cristãos.

Em 1995, revivendo a tradição dos assassinatos políticos, Osama Bin Laden tenta eliminar o Presidente egípcio, Hosni Mubarak. Ele volta a tentar no ano seguinte com o Guia líbio, Muammar Kaddafi. Este segundo atentado é financiado, pela soma de £ 100.000 libras, pelos Serviços Secretos britânicos que querem punir o apoio líbio à resistência irlandesa [6]. Azaradamente a operação falha. Vários oficiais líbios fogem para o Reino Unido. Entre eles, Ramadan Abidi, cujo filho será encarregado anos mais tarde, sempre pelos serviços britânicos, de realizar um atentado em Manchester. A Líbia transmite provas à Interpol e emite o primeiro mandato de prisão internacional contra o próprio Osama Bin Laden, o qual continua a manter um escritório de relações públicas no Londristão.

Em 1998, a Comissão Árabe dos Direitos Humanos é fundada em Paris. Ela é financiada pela NED. O seu presidente é o Tunisino Moncef Marzouki, e o seu porta-voz o Sírio Haytham Manna. O seu objectivo é defender os Irmãos Muçulmanos que foram presos nos diferentes países árabes, por causa das suas actividades terroristas. Marzouki é um médico de esquerda que trabalha com eles há longo tempo. Manna é um escritor que gere os investimentos de Hassan al-Turabi e dos Irmãos sudaneses na Europa. Quando Manna se retira, a sua companheira mantêm-se como directora da associação. Ele é substituído pelo Argelino Rachid Mesli, que é advogado e é, nomeadamente, o de Abassi Madani e dos Irmãos argelinos.

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Filho espiritual do islamista turco Necmettin Erbakan (ao centro), Recep Tayyip Erdogan (à direita) dirigiu o seu grupo de acção secreta, a Millî Görüs. Ele organizou o encaminhamento de armas para a Tchechénia e abrigou, em Istambul, os principais emires anti-Russos

Em 1999 (ou seja, após a guerra do Kosovo e a tomada do Poder pelos islamistas em Grozny), Zbigniew Brzeziński funda com uma coorte de neo-conservadores o American Committee for Peace in Chechnya (Comité americano para a paz na Tchechénia). Se a primeira guerra na Tchechénia fora um assunto interno russo, no qual alguns islamistas se tinham imiscuído, a segunda visa a criação do Emirado Islâmico da Ichquéria. Brzeziński, que preparava esta operação há vários anos, tenta reproduzir a experiência afegã.

Os jiadistas tchechenos, como Chamil Bassaïev, não foram treinados no Sudão por Bin Laden, mas, sim no Afeganistão pelos Talibã. Durante toda a guerra, beneficiam do apoio «humanitário» da Millî Görüş turca de Necmettin Erbakan e Recep Tayyip Erdoğan e da «IHH - Direitos do homem e Liberdades». Esta Associação turca foi criada na Alemanha sob o nome de Internationale Humanitäre Hilfe (IHH). Em seguida, estes jiadistas organizarão várias grandes operações : nomeadamente contra o Teatro de Moscovo (2002, 170 mortos, 700 feridos), contra uma escola de Beslan (2004, 385 mortos, 783 feridos) e contra a cidade de Naltchik (2005, 128 mortos e 115 feridos). Após o massacre de Beslan e a morte do líder jiadista Chamil Bassaïev, a Milli Görüş e a IHH organizam, na mesquita de Fatih de Istambul, enormes exéquias sem o corpo mas com dezenas de milhares de militantes.

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Apresentado como um atentado «anti-americano», a destruição da embaixada dos Estados Unidos em Dar es-Salaam (Tanzânia), em 7 de Agosto de 1998, fez 85 feridos e 11 mortos… mas nenhuma vítima norte-americana.

Durante este período, três atentados importantes são atribuídos à Alcaida. No entanto, por muito importantes que estas operações sejam, elas representam um falhanço para os islamistas, os quais, por um lado, são integrados no seio da OTAN e se veem simultaneamente despromovidos para o nível de terroristas anti-americanos.
- Em 1996, um camião armadilhado faz explodir uma torre de oito andares em Khobar, na Arábia Saudita, matando 19 soldados dos EUA. Primeiro atribuído à Alcaida, a responsabilidade do atentado é transferida para cima do Irão, depois finalmente para ninguém.
- Em 1998, duas bombas explodem diante das embaixadas norte-americanas em Nairobi (Quénia) e Dar-es-Salam (Tanzânia), matando 298 africanos —mas nenhum Norte-americano— e ferindo mais de 4.500 pessoas. Estes atentados são reivindicados por um misterioso Exército Islâmico de Libertação dos Lugares Santos. Segundo as autoridades dos EU, eles teriam sido cometidos por membros da Jiade Islâmica egípcia em retorsão pela extradição de quatro dos seus membros. Ora, as mesmas autoridades acusam Osama Bin Laden de ser o comanditário e o FBI emite —por fim— um mandado de prisão internacional contra ele.
- Em 2000, uma embarcação suicida explode contra o costado do destróier USS Cole fundeado em Áden (Iémene). O atentado é reivindicado pela Alcaida na Península Arábica (AQPA), mas um tribunal norte-americano tornará responsável o Sudão.

Estes atentados ocorrem enquanto a colaboração entre Washington e os Islamistas continua. Assim, Osama bin Laden, conservou o seu escritório no Londristão até 1999. Situado no bairro de Wembley, o Advice and Reformation Committee (ARC) visa, ao mesmo tempo, difundir as declarações de Bin Laden e cobrir as actividades logísticas da Alcaida, inclusive em matéria de recrutamento, de pagamentos e de aquisição de materiais. Entre os seus colaboradores em Londres encontra-se o saudita Khaled al-Fawwaz e os egípcios Adel Abdel Bary e Ibrahim Eidarous, três homens que são alvo de mandados de detenção internacionais, mas que, no entanto, receberam asilo político no Reino Unido. É na mais perfeita legalidade, em Londres, que o escritório de Bin Laden publicará, em Fevereiro de 1998, o seu célebre Apelo à Jiade contra os Judeus e os Cruzados. Gravemente doente dos rins, Bin Laden é hospitalizado, em Agosto de 2001, no hospital Americano do Dubai. Um chefe de Estado do Golfo confirmou-me tê-lo ido visitar ao seu quarto, onde a sua segurança era garantida pela CIA.

6— A fusão das duas « Gládio » e a preparação do Daesh

Dentro da mesma lógica, a Administração Bush torna os Islamistas responsáveis pelos brutais atentados que ocorrem a 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos. A versão oficial impõe-se embora ela comporte numerosas incoerências. O Secretário da Justiça assegura que os aviões foram sequestrados por islamistas, muito embora segundo as companhias de aviação nenhum dos suspeitos tenha estado a bordo. O Departamento da Defesa publicará um vídeo no qual Bin Laden reivindica os atentados, quando o próprio os tinha rejeitado publicamente e os peritos em reconhecimento facial e vocal afirmam que o homem do vídeo não é Bin Laden.

Seja como for, estes acontecimentos servem de pretexto a Washington e a Londres para lançar a «Guerra sem fim» e atacar os seus antigos aliados, os Talibã no Afeganistão, e o Iraque de Saddam Hussein.

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Em 11 de Setembro de 2001, Osama Bin Laden não estava em estado de dirigir a menor operação terrorista. Ele estava, à beira da morte, sob diálise no hospital militar de Rawalpindi (Paquistão).

Muito embora ele já sofresse de insuficiência renal crónica, Osama Bin Laden apenas sucumbe à sua doença a 15 de Dezembro de 2001 como resultado de um síndrome de Marfan. Um representante do MI6 assiste às suas exéquias no Afeganistão. Posteriormente, vários sósias, mais ou menos parecidos, irão manter o seu simulacro vivo, dos quais um será assassinado por Omar Sheikh, em 2005, segundo a Primeiro-ministro paquistanesa Benazir Bhuto.

Em Agosto de 2002, o MI6 organiza uma conferência da Irmandade Muçulmana sobre o tema «a Síria para todos». Aí, os oradores desenvolvem a ideia que a Síria estaria a ser oprimida pela seita dos Alauítas e que apenas os Irmãos Muçulmanos garantiriam uma genuína igualdade.

Após Sayyed Qutb e Abu Mussab, «o Sírio», os Islamistas dotam-se de um novo estratega, Abu Bakr Naji. Em 2004, este personagem, que parece nunca ter existido, publica um livro na Internet, A Gestão da Barbárie, uma teoria do caos [7]. Embora alguns autores tenham acreditado reconhecer o estilo de um autor egípcio, parece que a obra foi escrita em inglês, depois enriquecida com citações corânicas supérfluas e traduzido para árabe. A «Barbárie» no título do livro, não designa o recurso ao terror, mas, sim o retorno ao estado da natureza antes da civilização ter criado o Estado. Trata-se de fazer regressar a Humanidade ao ponto onde «o homem é um lobo do homem». A estratégia do caos desenrola-se em três fases:
- Primeira, desmoralizar e esgotar o Estado atacando nos seus flancos menos bem protegidos. Escolhem-se portanto alvos secundários, muitas vezes sem interesse, mas fáceis de destruir e separados. Tratar-se-á de dar a impressão de um levantamento generalizado, de uma revolução.
- Em segundo lugar, assim que o Estado se tiver retirado dos subúrbios e dos campos, conquistar certas zonas e administrá-las. Impor a Charia para marcar a passagem a uma nova forma de Estado. Durante este período, serão estabelecidas alianças com todos aqueles que se opõem ao Poder, e que não se deixará de armar. Irá conduzir-se então uma guerra de posições.
- Em terceiro lugar, proclamar o Estado Islâmico.

Este tratado transpira ciência militar contemporânea. Ele dá uma enorme importância às operações psicológicas, nomeadamente à utilização da violência mediática. Na prática, esta estratégia nada tem a ver com uma revolução, mas com a conquista de um país por potências exteriores, já que ela pressupõe um investimento maciço. Como sempre na literatura subversiva, o mais interessante reside naquilo que não é dito ou apenas é mencionado de passagem:
- a preparação das populações para que elas acolham os jiadistas supõe a construção prévia de uma rede de mesquitas e de obras sociais, tal como foi feito na Argélia antes da guerra «civil».
- para serem postas em marcha, as primeiras operações militares necessitam de armas que é preciso importar de antemão. Sobretudo, em seguida, os jiadistas não terão nenhum meio para obter armas e ainda menos munições. Portanto, eles terão que ser apoiados a partir do exterior.
- A administração das zonas conquistadas supõe que se disponha de quadros formados previamente, como os dos exércitos regulares encarregados de «reconstruir Estados».
- Finalmente a guerra de posições supõe a construção de vastíssimas infra-estruturas que necessitarão de uma grande quantidade de materiais, de engenheiros e de arquitectos.

De facto, o reclamar a autoria desta obra atesta que os islamistas entendem continuar a jogar um papel militar por conta de potências exteriores, só que desta vez em grandíssima escala.

Em 2006, os Britânicos pedem ao Emir Ahmad do Catar para colocar o seu canal de televisão pan-árabe, Al-Jazeera, ao serviço dos Irmãos Muçulmanos [8]. O Líbio Mahmoud Jibril, que treinou a família real a falar em linguagem democrática, é encarregue de introduzir, passo a passo, os seus Irmãos no canal e de criar canais em línguas estrangeiras (inglês e, a seguir, bósnio e turco), assim como um canal para as crianças. O pregador Yusuf al-Qaradawi torna-se «conselheiro religioso» da Al-Jazeera. É claro, o canal irá transmitir e validar as gravações de áudio ou os vídeos dos «Osama Bin Laden».

No mesmo período, as tropas dos EUA no Iraque tem que fazer face a uma revolta que se generaliza. Depois de terem sido derrotados pela rapidez e pela brutalidade da invasão (técnica do «choque e pavor»), os Iraquianos organizam a sua resistência. O Embaixador norte-americano em Bagdade, depois Director da Inteligência Nacional, John Negroponte, propõe-se vencê-los pela divisão e virando a sua raiva contra si próprios, quer dizer transformar a Resistência à ocupação em guerra civil. Perito em operações secretas, ele participou, nomeadamente, na Operação Fénix no Vietname, montando depois a guerra civil civil em El Salvador e a operação Irão-Contras na Nicarágua, e levou ao colapso a rebelião no Chiapas mexicano. Negroponte chama um dos homens em que se apoiou em El Salvador, o Coronel James Steele. Confia-lhe a tarefa de criar milícias iraquianas de xiitas contra os sunitas e sunitas contra os xiitas. Quanto à milícia sunita, Steele recorre aos Islamistas. A partir da Alcaida no Iraque, ele arma uma coligação tribal, o Emirado islâmico no Iraque (futuro Daesh) sob cobertura da polícia especial («Brigada dos Lobos»). Para aterrorizar as vítimas e as suas famílias, ele treina o Emirado na tortura, segundo os métodos da Escola das Américas (School of América) e da Political Warfare Cadres Academy de Taiwan, onde ensinou. Em poucos meses, um novo horror abate-se sobre os Iraquianos e divide-os segundo a sua confissão religiosa. Em seguida, assim que o General David Petraeus assumir o comando das tropas norte-americanas no país, irá designar o Coronel James H. Coffman para trabalhar com Steele e lhe fornecer relatórios sobre a operação, enquanto Brett H. McGurk dará conta directamente ao Presidente. Os principais chefes do Emirado Islâmico são recrutados no campo de concentração de Bucca, mas são objecto de preparação na prisão de Abu Ghraib, segundo os métodos de «lavagem ao cérebro» dos professores Albert D. Biderman e Martin Seligman [9]. Tudo é supervisionado desde Washington pelo Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, de quem Steele depende directamente.

Em 2007, Washington informa a Irmandade que vai derrubar os regimes laicos do Médio-Oriente Alargado, incluindo os dos Estados aliados, e que ela se deve preparar para exercer o Poder. A CIA organiza alianças entre os Irmãos e partidos, ou personalidades laicas, de todos os Estados da região. Simultaneamente, ela liga os dois ramos da «Gládio» tecendo laços entre os grupos nazis ocidentais e os grupos islamistas orientais.

Estas iniciativas de aliança são às vezes inconclusivas, como, por exemplo, aquando da «Conferência Nacional da Oposição Líbia», em Londres, onde os Irmãos não conseguem federar à sua volta senão o Grupo Islâmico Combatente na Líbia (Alcaida na Líbia) e a Irmandade wahhabita Senussi. A plataforma programática prevê restabelecer a monarquia e fazer do Islão a religião do Estado. Mais convincente é a constituição da Frente da Salvação Nacional, em Berlim, que oficializa a união dos Irmãos com o antigo Vice-presidente baathista sírio Abdel Halim Khaddam.

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Dmytro Iarosh durante o Congresso da Frente anti-imperialista de Ternopol (2007). Ele vai realizar a junção entre os nazis da Gládio A e os islamistas da Gládio B, depois irá tornar-se Secretário-adjunto do Conselho de Segurança Nacional da Ucrânia após a «revolução colorida» do EuroMaidan (2014).

A 8 de Maio de 2007, em Ternopol (oeste da Ucrânia), grupúsculos nazis e islamistas criam uma Frente anti-imperialista para lutar contra a Rússia. Organizações da Lituânia, da Polónia, da Ucrânia e da Rússia participam nela, entre as quais os separatistas Islamistas da Crimeia, da Adigueia, do Daguestão, da Inguchia, da Cabardino-Balcária, da Carachai-Cerquéssia, da Ossétia, da Chechénia. Não podendo viajar para lá devido as sanções internacionais impostas contra ele, Dokou Umarov —que aboliu a República da Chechénia e proclamou o Emirado Islâmico da Ichquéria—, fez ler a sua proclamação. A Frente é presidida pelo nazi Dmytro Yarosh, o qual se tornará durante o golpe de Estado de Kiev, em Fevereiro de 2014, Secretário-adjunto do Conselho de Segurança Nacional da Ucrânia.

No Líbano, em Maio-Junho de 2007, o Exército nacional empreende o cerco do campo palestino de Nahr el-Bared depois de membros da Fatah al-Islam se terem lá entrincheirado. Os combates duram 32 dias e custam a vida a 76 soldados, dos quais uma trintena são decapitados.

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O Turco-Irlandês El Mehdi El Hamid El Hamdi dito «Mahdi Al-Harati», agente da CIA presente na Flotilha da Liberdade, abraçado pelo Presidente Erdogan que veio visitá-lo ao hospital. Em seguida, ele irá tornar-se o número 2 do Exército sírio livre.

Em 2010, a Irmandade organiza a Flotilha da Liberdade através da IHH. Oficialmente trata-se de desafiar o embargo israelita e de levar assistência humanitária aos habitantes de Gaza [10]. Na realidade, o principal barco desta frota muda de bandeira durante a travessia e prossegue sob pavilhão turco. Numerosos espiões misturam-se com os militantes não-violentos participando na expedição, entre os quais um agente irlandês da CIA, Mahdi al-Harati. Caindo na armadilha que lhe estende os Estados Unidos, o Primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ordena o assalto aos barcos, em águas internacionais, provocando 10 mortos e 54 feridos. O mundo inteiro condena esse acto de pirataria sob o olhar sarcástico da Casa Branca. Israel, que fornecia armas aos jiadistas no Afeganistão e apoiou a criação do Hamas contra a OLP de Yasser Arafat, virara-se contra os Islamistas em 2008 e bombardeou-os, assim como à população de Gaza. Netanyahu paga assim, desta maneira, a operação «Chumbo Endurecido» que levou a cabo, junto com a Arábia Saudita, contra a opinião da Casa Branca. No fim, os passageiros da Flotilha são libertados por Israel. A imprensa turca mostra então o Primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan visitando Mahdi al-Harati num hospital.

(Continua …)

Tradução
Alva

Este livro está disponível em Francês, Espanhol, Russo, Inglês e Italiano em versão em papel.

Possui versão já traduzida em Língua Portuguesa (NdT).

[1] NATO’s secret armies: operation Gladio and terrorism in Western Europe, Daniele Ganser, Foreword by Dr. John Prados, Frank Cass/Routledge (2005).

[2] Classified Woman: The Sibel Edmonds Story : A Memoir, Sibel Edmonds (2012).

[3] Londonistan, Melanie Phillips, Encounter Books (2006).

[4] Architect of Global Jihad : The Life of Al Qaeda Strategist Abu Mus’ab Al-Suri, Brynjar Lia, Columbia University Press, 2009.

[5] Wie der Dschihad nach Europa kam, Jürgen Elsässer, NP Verlag (2005); Intelligence and the war in Bosnia 1992-1995: The role of the intelligence and security services, Nederlands Instituut voor Oologsdocumentatie (2010). Al-Qaida’s Jihad in Europe: The Afghan-Bosnian Network, Evan Kohlmann, Berg (2011).

[6] «David Shayler: «Dejé los servicios secretos británicos cuando el MI6 decidió financiar a los socios de Osama ben Laden»», Red Voltaire , 23 de noviembre de 2005.

[7] The Management of Savagery: The Most Critical Stage Through Which the Umma Will Pass, Abu Bakr Naji, Harvard University (2006).

[8] «Wadah Khanfar, Al-Jazeera y el triunfo de la propaganda televisiva », por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 27 de septiembre de 2011.

[9] “O Segredo de Guantanamo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Odnako (Rússia) , Rede Voltaire, 10 de Setembro de 2014.

[10] «Flotilla de la Libertad: el detalle que Netanyahu no conocía», por Thierry Meyssan, Red Voltaire , 11 de junio de 2010.

Thierry Meyssan

Thierry Meyssan Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

 
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